1 em cada 4 padres deixa batina para casar

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19 Agosto 2013

A cada quatro padres brasileiros, um larga a batina para se casar. O dado é do Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados, que estima serem mais de 7 mil os religiosos que solicitaram no País a dispensa do sacramento da ordem em troca do matrimônio. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não divulga números sobre a questão.

A reportagem é de Edison Veiga e José Maria Mayrink e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 18-08-2013.

São quase 900 anos (desde 1139, no Concílio de Latrão) de história em que padres não podem se casar. O tema é tabu. Nas últimas duas semanas, o Estado entrou em contato com 12 ex-sacerdotes, todos casados. A maior parte deles não quis falar. Outros contribuíram com informações, mas preferiram o anonimato, "para preservar a mulher e os filhos".

As histórias e opiniões deles, porém, são parecidas. Quase todos declaram que não saíram da Igreja para se casar - mas que divergiam de muita coisa e o casamento era consequência. Defendem o celibato opcional. Muitos desempenham papéis pastorais em suas paróquias e acompanham com interesse o papa Francisco. "Estamos contentes com o espírito, as palavras e as atitudes cristãs dele. Mas não dá para saber se e como ele vai enfrentar a realidade dos cerca de 150 mil padres casados no mundo", diz João Tavares, porta-voz do movimento.

O professor Eduardo Hoornaert, que tem 82 anos e mora em Lauro de Freitas (BA), foi padre por 28 anos. Deixou o sacerdócio em 1982, ano em que se casou. Historiador especializado em história da Igreja no Brasil e na América Latina, continuou escrevendo artigos e livros. Afirma que, embora tenha abandonado os ritos, não se desligou do ministério, "pois o ministério é o Evangelho".

Hoornaert acredita que uma eventual readmissão de padres casados não é prioridade para o papa, que tem outros problemas a resolver. "Formar missionários com boa formação evangélica, sem essa carga de 2 mil anos de dogmas e leis, é a prioridade", observa. "É preciso reformular o ministério, e o papa Bergoglio sabe muito bem disso."

Para o historiador, que já participou de encontros de padres casados, esse segmento não parece ser um celeiro de recursos para a alegada falta de sacerdotes no Brasil, porque é heterogêneo. "Alguns padres que se casaram são movidos pelo saudosismo e gostariam de voltar, enquanto outros se adaptaram. A Igreja tem leis e uma delas é a do celibato", diz Hoornaert. É bom lembrar, acrescentou, que a maioria dos padres casados da associação tem mais de 50 anos. Os mais jovens que deixaram o sacerdócio e se casaram têm outra cabeça.

Otto Euphrásio de Santana trabalhava na pastoral da Arquidiocese de Natal quando deixou o ministério e se casou, após dez anos de batina. Foi uma decisão difícil, sobretudo por causa da família. Seus dois irmãos bispos - o cardeal d. Eugenio de Araújo Sales, arcebispo do Rio; e d. Heitor de Araújo Sales, bispo de Caicó (RN) e depois arcebispo de Natal - fizeram de tudo para que ele não deixasse o sacerdócio. Optou pelo casamento e não se arrependeu. É ligado à Igreja e está entusiasmado com o pontificado de Francisco.

Adaptação social

Morador da Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, e mineiro de Resende Costa, Francisco de Assis Resende, de 72 anos, foi padre por dois anos: atuou em uma paróquia da Vila Pompeia e foi capelão no Hospital das Clínicas. Abandonou a batina, casou-se com uma então estudante de Pedagogia, teve duas filhas e quatro netos. Ficou viúvo em 2010.

Ele conta que o mais difícil é a adaptação à vida social. "Entrei no seminário com 12 anos. Foram outros 12 até ser ordenado." Cursou Serviço Social e fez carreira na Volkswagen em São Bernardo do Campo, onde conviveu com o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, e se aposentou. "No começo, me afastei totalmente da Igreja. Tornei-me um agnóstico. Com o passar dos anos, atuei na Pastoral Social. Hoje em dia, só vou à missa aos domingos."

Nascido em Videira (SC), Abel Abati tem 73 anos e foi padre por quatro - também atuou no Hospital das Clínicas. Em 1970, abandonou a batina. No mesmo ano, se casou com uma enfermeira do hospital, Neide de Fátima, com quem vive até hoje. "Não ia ficar solteirão", diz. A união resultou em quatro filhos e quatro netas.

Formou-se em Administração e trabalhou em multinacionais farmacêuticas. Nos anos 1980, numa curta carreira política, foi administrador regional - o equivalente a subprefeito - de Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Desde então, parou de frequentar a Igreja. "Não quero ter o carimbo de beato.

'Travei uma luta durante dois anos para decidir'. Um depoimento

Eis o depoimento de Otto Euphrásio de Santana.

"Exerci o ministério sacerdotal por dez anos, de 1966 a 1976. Minhas principais atribuições eram animar o trabalho socioeducativo da Arquidiocese de Natal e, aos domingos, integrar a equipe de irmãs que assumiam, como vigárias, a paróquia de Nísia Floresta. Era uma iniciativa pioneira de valorização da mulher como integrante do clero.

Durante dois anos, travei uma intensa luta para decidir entre permanecer padre ou me casar. Sentia-me grávido de dois buchos, ambos queridos, ambos fonte de realização e de felicidade - mas incompatíveis. Qual dos dois sacrificar? Para complicar, havia o peso de minha estrutura familiar. Meus dois irmãos bispos fizeram de tudo para preservar minha condição de padre. Ao final, optei por deixar o ministério e me sinto realizado na minha família.

Como leigo, me dediquei à educação, sobretudo de jovens e adultos. Por 12 anos, atuei como Diretor Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi). Em 1978, casei com a Juciara e tivemos dois filhos, Emmanuel e Raissa.

Permaneço ligado à Igreja, sobretudo aos valores. Colaboro com dioceses e paróquias no que me solicitam. Não aspiro voltar ao exercício do ministério sacerdotal. A esclerose das estruturas é paralisante e deformadora. Impede a afirmação do batismo como o sacramento fundante da Igreja.

O papa Francisco representa uma primavera no mundo e na Igreja. Sua inspiração de vivificar o cotidiano das pessoas com valores evangélicos encanta a todos. Cria pontes, não ergue muros. Já que fui reduzido ao estado leigo - na triste expressão do rescrito romano que me dispensou do ministério sacerdotal - aqui permanecerei, embora respeite os colegas que desejam voltar a ser padre."

Progressista, grupo começou em 79 com 11 ex-sacerdotes

A primeira reunião do Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados foi realizada em julho de 1979, em Nova Iguaçu (RJ). Participaram do encontro 11 ex-sacerdotes e suas mulheres. A ata daquela reunião inaugural já deixava clara a preocupação central do grupo: continuar sendo útil à sociedade.

"Muitos padres casados se afastaram da Igreja por causa de uma certa visão oficial, que os marginaliza. Mas essas pessoas não se afastaram do compromisso com o povo", diz um trecho do documento. "O padre casado ainda pode fazer algo a esta igreja oficial: ele pode colocar nela a sua luta junto com o povo."

Os participantes da reunião frisaram que não deveriam abrir mão de atuar com os oprimidos e que o trabalho deles deveria ser "sério" e "coerente".

Fortemente baseado na Teologia da Libertação, o documento que inaugurou o movimento também registrou que os participantes queriam uma Igreja como "instrumento para a luta de classes".

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