Com Paulo Evaristo Arns, uma grande esperança

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Por: André | 13 Agosto 2013

Cheguei há alguns dias em São Paulo, e minha primeira conversa foi sobre a Igreja: “Não temos bispos”, me disse H. F., um clérigo sábio, de grande experiência.

A reportagem é de Xabier Pikaza, teólogo espanhol, e publicada em seu blog, 11-08-2013. A tradução é de André Langer.

“Não contamos com bispos que saibam levantar o Evangelho diante de políticos e donos da vida e a sorte dos pobres; faltam-nos bispos que possam ou queiram expor com sua vida a mensagem de Jesus e abrir caminhos para a Igreja... Contamos apenas com funcionários submissos a um sistema de poder sagrado”.

 
Fonte: http://bit.ly/14Fq8mO  

Perguntei-lhe: “Mas, como deveriam ser os bispos?”. H. F me cortou dizendo lapidarmente: “Como aqueles que vieram imediatamente depois do Concílio Vaticano! Homens como Paulo Evaristo Arns e tantos outros, ministros da Palavra, criadores de comunidade, encarnados no povo..., antes que chegasse este rolo de poder que tudo comprime, iguala e nivela...”. A maioria morreu, dom Evaristo está aposentado, em uma lúcida velhice... Mas, talvez, Jorge Mario Bergoglio possa ser o novo Arns.

Isso me disse H. F. assim que cheguei em São Paulo. Aquelas palavras me levaram a escrever a reflexão e proposta que agora segue. Boa semana a todos, no Brasil, na Espanha, ali onde estiverem.

Evaristo Arns: uma recordação, uma oportunidade perdida

Fiquei em silêncio. Não precisava dizer mais nada, pois carrego há 35 anos a “ferida” de Paulo Evaristo Arns (na foto) no coração. Sei que ele nasceu em 1921, no sul do Brasil, filho de imigrantes alemães. Era franciscano, estudou na Sorbonne de Paris e foi professor de Filosofia e Letras nas faculdades franciscanas do Brasil. Era um grande cristão, um homem de cultura universal: alemã, francesa, portuguesa... Estava com apenas 44 anos quando o fizeram bispo auxiliar de São Paulo (1966) e pouco depois arcebispo da grande cidade (1970) e cardeal de Roma (1973). Poderia ter sido Papa em 1978, em vez de Karol Wojtyla, mas alguns cardeais não tiveram a coragem de votar pela América Latina. Foi uma oportunidade perdida.

Era simplesmente um bispo, mas um bispo cristão de verdade, como queria o meu amigo H. F., na linha do Vaticano II. Enfrentou a ditadura militar defendendo os direitos humanos e a liberdade dos homens, cristãos e judeus, crentes e não crentes, homens e mulheres. Promoveu uma pastoral da igualdade cristã e da fraternidade, aberta a todos, uma reforma criadora, curadora e libertadora, multiplicando os estudos bíblicos e animando milhares de comunidades de base, com novas formas de presença pastoral e de ação cristã, na linha da liberdade e da justiça, da autonomia pessoal e da comunhão social.

Foi uma imensa luz, e dessa maneira muitos o viram nos últimos anos do pontificado de Paulo VI (1963-1878), quando vários temas do Vaticano II (Humanae Vitae, ministério de homens casados, ordenação de mulheres...) ficaram pendentes e ameaçados. Pensávamos que ele (Paulo Evaristo Arns) seria (deveria ser) o Papa da realização do Concílio, a partir da Igreja da Grande Promessa que era, então, o Brasil (a mais rica e criadora de todas as Igrejas do momento). Foi uma grande oportunidade, era um momento de Evangelho.

João Paulo II e Bento XVI: 35 anos de interregno

Mas os bispos dos conclaves de 1978 tiveram medo, elegendo, primeiro, um carismático de “fora” do sistema, que morreu imediatamente (Albino Luciani, João Paulo I), e, depois, um homem do sistema forte do anticomunismo da Polônia (Karol Wojtyla, João Paulo II), que foi sucedido por Joseph Ratzinger (Bento XVI), representante de uma ordem ainda mais forte de segurança teológica e eclesial, dogmaticamente segura e pastoralmente infecunda. Foram 35 anos de interregno, de freio e medo. Ainda posso sentir isso na minha pele revivendo a primeira impressão que tive, quando me disseram (em 1978), retornando para casa, da janela: “Não foi o Arns, mas Wojtyla”. Foi o que muitos me disseram agora no Brasil.

Não tenho nada contra Wojtyla, pelo contrário. Tinha, além disso, na minha biblioteca dois de seus livros, já traduzidos do polonês; eu o admirei, estudei e lhe quis bem desde o começo do seu pontificado. Mas, na minha opinião, não era a resposta para a crise, nem representava a promessa e a tarefa de liberdade e amor do Evangelho. O anticomunismo e a segurança dogmática não criavam Evangelho.

Dessa forma, ficou truncada, na minha opinião (em um plano oficial), a grande aposta de Evangelho representada por Paulo Evaristo Arns, em gesto de liberdade criadora, a partir da base da vida e da mensagem de Jesus, na Igreja emergente do Brasil. Certamente, Karol Wojtyla foi uma grande pessoa, um grande atleta do cristianismo, mas não era a proposta que a Igreja universal necessitava desde o Concílio Vaticano II, na linha do Evangelho.

De uma forma “lógica” (com toda a boa intenção?), Paulo Evaristo Arns foi marginalizado, sua linha de base eclesial foi rechaçada e seu trabalho episcopal em São Paulo foi corroído (especialmente em 1980, com a divisão da sua diocese e a nomeação de bispos de outra linha). Certamente, Paulo E. Arns seguiu exemplarmente ativo até sua renúncia (1996), mas já não representava a linha oficial da Igreja, que foi se escorando em outra direção.

Trinta e cinco anos depois Bergoglio: uma nova oportunidade para Paulo E. Arns?

Várias pessoas me disseram no Brasil: “O que não foi possível fazer em 1978 (com Wojtyla), talvez seja agora, 35 anos depois, com o Papa Bergoglio, que vem da América Latina e que parece disposto a retomar verdadeiramente e sem retórica o bom discurso do Vaticano II”. Este é o argumento:

— Talvez em 1978 ainda não se podia fazer em todas as partes aquilo que Paulo E. Arns queria, pois muitas Igrejas não haviam aceitado o espírito e a caminhada do Vaticano II (1962-1965), apesar de que uma parte considerável da Igreja da América Latina, a partir de Medellín (1968) e de Paulo VI (Evangelii Nuntiandi, 1975), havia assumido um caminho de libertação e de transformação eclesial que parecia impossível de ser detido, como sabia na Espanha o cardeal Tarancón. Muitos cristãos queriam então que a Igreja promovesse verdadeiramente o surgimento de espaços de libertação humana (inclusive econômica e social) para que os pobres e oprimidos do continente pudessem viver e se desenvolver; muitos queriam uma Igreja libertada, em sintonia radical com o Evangelho. Mas o conjunto da Igreja oficial sentiu medo.

— Esse medo expressou-se nos 35 longos e duros anos de João Paulo II e Bento XVI (1978-2013). Certamente, esses anos tiveram muitas coisas boas, mas, com efeito, em chave eclesial, o balanço foi negativo. Estamos pior que em 1978, com mais feridas e receios, com mais medos e descréditos; os mais idosos perdemos parte da nossa esperança e os jovens se sentem manipulados (muitos preferem ser manipulados!). Em 1978, era, talvez, muito cedo para a grande travessia. Agora (2013), com o Papa Bergoglio pode ser muito tarde, a não ser que o Espírito sopre forte, pois temos pressa.

— Por isso, quis falar de uma nova oportunidade para Paulo E. Arns, não para ele pessoalmente, que já está bem idoso, mas para o seu “espírito”, para o que ele e sua família e seus amigos (e seguidores) representam. Nessa linha, apesar dos novos prelados (o cardeal Pedro Scherer é, atualmente, o arcebispo de São Paulo), quero dizer que o espírito de Paulo E. Arns segue vivo, e senti isso constantemente no Brasil. O impulso da sua opção seguiu latente em Aparecida (2007) e tudo nos permite supor que o Papa Francisco (2013) está empenhado em assumir muitos elementos valiosos de seu grande tempo eclesial, depois de 35 anos. Evidentemente, as coisas já não podem ser o que foram, mas o “espírito de Arns” perdura não apenas na América Latina, mas em todo o mundo católico.

Significativamente, o novo Papa não veio de São Paulo, como esperávamos há 35 anos (nem teria sido bom que viesse dali hoje). Mas veio de alguns quilômetros mais ao sul, isto é, de Buenos Aires. Estou certo de que o Papa Bergoglio retomará elementos do projeto de Paulo E. Arns. Escrevo estas linhas com essa convicção.

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