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02 Agosto 2013

No Brasil, o novo papa entusiasma uma multidão de 3 milhões de fiéis. Convida os jovens a se fazerem ouvir, a "fazer bagunça", a lutar contra "o egoísmo e a corrupção". Denuncia a tentação burocrática que reina na sua Igreja.

A reportagem é de Henri Tincq, publicada no sítio Slate.fr, 29-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Jornada Mundial da Juventude do Rio foi um eco distante dos grandes desfiles midiáticos aos quais o Papa João Paulo II, ator carismático que foi o seu fundador, tinha acostumado o mundo e aos quais havia conectado o seu próprio nome. Em torno do Papa Francisco, encontramos, na célebre praia de Copacabana, a mesma afluência incrível (de 2 a 3 milhões), a mesma alegria, o mesmo fervor superexaltado, um gigantesco coquetel de festa, música e recolhimento, um momento único para a juventude católica do mundo inteiro – 175 países estavam representados, incluindo uma esmagadora maioria americana do Norte e do Sul –, para se regenerar, rezar, manifestar uma fé sem complexos e um desejo de comunhão universal.

Ao contrário de um Bento XVI mais tímido e reservado, o Papa Francisco domina a multidão, sorri, abraça, acaricia, beija e se deixa beijar. É o modo de ser espontâneo, popular, jovial, humilde do "pastor" latino-americano. No Rio, ele visita um centro para toxicodependentes, uma favela pacificada pela polícia, uma prisão e jovens detidos. A sucessão desses encontros imprime nessa primeira viagem um forte tom social. O nome "Francisco", inspirado em Francisco de Assis, não foi escolhido por acaso.

É em meio aos jovens que ele está mais à vontade. Ele sabe que os jovens são o elo frágil da sua Igreja, também no Brasil, onde os grupos evangélicos e pentecostais, em plena expansão, recrutam o melhor dos jovens nas camadas mais pobres. A sua missão, portanto, se volta sobretudo para aqueles que deixaram a Igreja ou nunca entraram nela. Os jovens católicos não são, como com João Paulo II, cobertos com referências à disciplina e à norma moral.

Durante a longa vigília do sábado com os jovens, o papa argentino não disse uma única palavra sobre temas discutidos de moral familiar e sexual: contracepção, relações pré-matrimoniais, aborto, relações homossexuais.

Só no avião de retorno a Roma, diante dos jornalistas, ele alertou contra aqueles que julgam os homossexuais e disse que se recusa a julgar os gays que se dizem católicos. "Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, mas quem sou eu para julgá-la?", perguntou, considerando que o problema é "fazer lobby": "Os lobbies não são bons".

A uma pergunta sobre a abertura do casamento a pessoas do mesmo sexo e sobre o aborto, o papa se limitou a responder, com uma certa irritação: "Vocês sabem perfeitamente a posição da Igreja".

No Rio, ele convidou os jovens a uma "fé revolucionária". Os jovens devem ser os "protagonistas da mudança", disse. Eles têm que "fazer barulho", se necessário "fazer bagunça". Eles têm razão em serem desconfiados das "instituições políticas" em que descobrem "egoísmo e corrupção".

O Papa Francisco denuncia os ídolos modernos e cita o dinheiro, o poder, o sucesso mundano, o prazer, a droga. "Não sejam cristãos pela metade, nem cristãos 'engomados'", diz ele ao seu público. O que Jesus oferece "algo superior à Copa do Mundo!", diz, divertido, esse torcedor do futebol argentino.

A missão dos jovens é "sem fronteiras, sem limites": "Não tenham medo de ir e levar Cristo a todos os ambientes, até as periferias existenciais, também àqueles que parecem mais distantes, mais indiferentes".

O papa surpreende. Ele apresenta uma visão fraterna da sociedade, um desaparecimento de "barreiras" entre as gerações, entre governantes e governados, entre ricos e pobres. Não teme ser envolvido na crise social que sacode o Brasil há semanas: "Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, sempre há uma opção, o do diálogo". Ou ainda: "Não haverá nem harmonia nem felicidade para uma sociedade que marginaliza e abandona na periferia uma parte de si mesma".

A Igreja, talvez, não é acima de tudo um instrumento de "reconciliação"? A sua mensagem aos jovens se enraíza na visão original do catolicismo desenvolvida por Jorge Mario Bergoglio no Rio. Nunca um papa dos tempos modernos tinha denegrido a tal ponto a tentação burocrática que reina dentro da sua Igreja, até no seu modo de governar. O seu diagnóstico é impiedoso.

Interrogando-se sobre a fuga dos fiéis para grupos evangélicos e pentecostais, ele fez uma rara autocrítica: "A Igreja Católica tenha se mostrado muito fraca, muito distante de suas necessidades, muito pobre para responder às suas inquietações, muito fria para com eles, muito autorreferencial, muito prisioneira das suas próprias linguagens rígidas".

Incapaz de responder aos novos problemas da pós-modernidade, a Igreja aparece como uma "coisa do passado". A sua tarefa, no entanto, é "tirar para fora da noite" homens e as mulheres de hoje. E, por isso, é preciso pôr todos ao trabalho, começando pelos jovens e pelas mulheres: "Perdendo as mulheres, a Igreja corre o risco da esterilidade".

É uma indicação nova da vontade do papa jesuíta, que entusiasma os progressistas, de virar a página, de superar os enrijecimentos, de fazer crescer a colegialidade (ou seja, superar o centralismo vaticano) e a solidariedade. Para que os fiéis voltem ao aprisco "é preciso uma Igreja que saiba aquecer os corações".

A Jornada Mundial da Juventude, uma fórmula que parecia ameaçada, ao invés, está confirmada. O Papa Francisco deu-lhe um novo impulso, e a próxima Jornada Mundial da Juventude irá ocorrer em Cracóvia, na Polônia, em três anos. Mas, durante a sua primeira viagem fora da Itália, o papa reafirmou de forma espetacular a prioridade do seu pontificado, para a qual ele foi eleito e que já levanta resistências conservadoras: a reforma da Igreja.

No Rio, ele usou esta expressão que ressoa por si só como um programa de governo: "A Igreja deve se livrar de todas as estruturas caducas que não favoreçam a transmissão da fé". Espera-se que, em breve, ele as defina e ponha em prática os meios para atingir o objetivo.

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