Bem-aventuranças: tempo dos últimos, herança futura

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23 Julho 2013

A arte ocidental tem representado Jesus incessantemente, como nenhum outro personagem da história. Ela o pintou, esculpiu, adaptou aos estilos, perseguindo-o em todas as fases da sua vida. Talvez a imagem mais frequente foi a de evocá-lo como um rabi, um mestre.

A reportagem é de Armando Torno, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Beato Angelico, em uma obra conservada no convento de San Marco, em Florença (imagem ao lado), se concentra na figura terrena do Filho de Deus: o único apelo ao céu está na mão direita indicando o alto, e, ao mesmo tempo, esse seu gesto chama a atenção dos ouvintes. Os discípulos o circundam, como se fossem adeptos de um filósofo grego. De fato, o artista o pinta de costas, de modo que eles mesmos observem a cena: nisso, ele também torna discípulo quem olhar para a sua obra nos séculos vindouros, violando as regras do espaço e do tempo. A paisagem é rochosa. O afresco está dedicado ao Sermão da Montanha, quando Jesus fala das bem-aventuranças.

Provavelmente o Beato Angelico tocou a verdade com essas figuras, já que todos aqueles que virem a sua obra já não conseguirão mais esquecê-la. Por exemplo, o dinamarquês Carl Heinrich Bloch buscou também uma solução para dar forma às palavras do sermão – ele se dedicava às pinturas da Capela do Castelo de Frederiksborg, entre 1865 e 1879 –, mas não conseguiu deixar de retomar esse modelo adicionando a ele uma gestualidade mais solene, envolvendo os ouvintes chegando até a oferecer rostos extasiados a alguns presentes (imagem abaixo).

Na realidade, se tivéssemos que fixar geograficamente o lugar onde ocorreu o célebre discurso, poderíamos lembrar a região de Tabqa (hepta Pegon, sete fontes), a cerca de dois quilômetros de Cafarnaum. É rica em água, verdejante, desértica e bela ao mesmo tempo. Os textos que falam do acontecimento encontram-se em dois evangelhos: em Mateus (5, 1-12) e Lucas (6, 20-23).

No primeiro, a cena é representada em um monte: "Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e, sentando-se, os seus discípulos aproximaram-se dele". No segundo, lembra-se que Jesus "parou em um lugar plano" e que "havia uma grande multidão de seus discípulos e uma grande multidão do povo de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidônia".

As duas indicações não mudam, no entanto, as coordenadas geográficas: o Senhor pode ter falado sobre uma colina ou no meio daquele oásis, mas ambas as exposições – observa um biblista como Gianantonio Borgonovo – "remontam quase seguramente a uma tradição que localizava naquele ambiente a característica pregação de Jesus na Galileia". E acrescenta: "As palavras de Jesus expressam o êxito da existência daquele que vive segundo a Torá: é uma ideia presente nos Salmos. O Filho de Deus a retoma e a aplica à figura do discípulo".

Observações estas que nos ajudam a compreender a distância entre a mensagem evangélica e a cultura da época. Mateus evidencia que são bem-aventurados os "pobres em espírito", os "aflitos", os "mansos", aqueles "que têm fome e sede de justiça", "os misericordiosos", "os puros de coração", os "promotores da paz", "os perseguidos por causa da justiça". Acrescenta na parte final: "Bem-aventurados são vocês, quando os injuriarem e os perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vocês por causa de mim".

Por outro lado, para o pensamento antigo, a bem-aventurança é o sumo bem que satisfaz adequadamente a nossa vontade. Varrão, retomando as doutrinas platônicas e aristotélicas, calcula mais de 300 soluções para identificar esse estado, o mesmo que, para os mestres gregos crescidos sob a Acrópole de Atenas, era conjugado com a felicidade. Não por acaso Platão defendia que ela só pode ser encontrada na contemplação da ideia suprema, a do bem. Por isso, nós a encontraremos na outra vida (Aristóteles discordaria e diria que a verdadeira bem-aventurança é apenas a da nossa existência).

Mas, voltando ao texto evangélico, Lucas oferece algumas variações. Depois de recordar que "toda a multidão procurava tocá-lo, porque dele saía uma força que curava a todos", são lembrados "os pobres", "vocês que agora tem fome", "vocês que agora choram", "vocês, quando os homens os odiarem e quando os banirem e insultarem e amaldiçoarem, por causa do Filho do Homem". Depois disso, as bem-aventuranças dão lugar – a partir do versículo 24 do capítulo 6 – às admoestações, que começam com estas palavras: "Mas ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação". O versículo 27 amplia ainda mais o discurso, encerrando também as lembradas advertências: "Mas eu digo a vocês que me escutam: amem os seus inimigos, e façam o bem aos que odeiam vocês".

A diferença entre os dois evangelhos, além do número das bem-aventuranças, deve ser buscada no fato de que Lucas interpreta tanto o aspecto positivo quanto o negativo, ou seja, o daqueles que não seguem o estilo jesuânico; Mateus, ao invés, escolhe um aspecto absoluto que enfatiza a relação com os discípulos, naquele momento diante do Senhor. Acrescentemos que Mateus elenca oito bem-aventuranças mais uma; Lucas, quatro (e outras quatro admoestações). Também deve ser lembrado que a primeira de Mateus, ou seja, "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus" (5, 3), fez com que alguns Padres da Igreja – por exemplo, Tertuliano em Adversus Marcionem – escrevessem que nela estão encerradas todas as outras.

Aqui se abre uma vasta literatura. Santo Ambrósio, para dar outro exemplo, na sua Exposição do Evangelho de Lucas, vincula as quatro bem-aventuranças desse texto às quatro virtudes cardeais; Bernardo de Claraval, em um sermão seu para a festa de Todos os Santos, vê nas bem-aventuranças de Mateus muitas virtudes, dispostas em gradação não hierárquica, mas cronológica com relação à experiência ascética dos monges. Nesse caso, a voluntária paupertatis vilitas é remédio à soberba, a mansidão ou obediência cura da rebelião do pecado, e assim por diante.

É difícil seguir as infinitas influências das palavras de Jesus, porque se deveria passar da Divina Comédia aos grandes romances que fizeram a literatura, de filósofos como Pascal a místicos como o Mestre Eckhart. Dostoiévski, em Os Demônios, escrevendo que "os homens são maus porque não percebem que são bons", pensou talvez em alguns temas das bem-aventuranças.

Mas, mais do que qualquer outro assunto, foi a pobreza que fez refletir. Santa Teresa de Jesus escreveu em Caminho de Perfeição que "os verdadeiros pobres não fazem barulho". Mesmo que as palavras de Cristo continuam gritando nas consciências.

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