Comemoração "despercebida" indica como Mandela transformou-se em inspiração

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06 Julho 2013

No turbilhão de paixão e memória que cerca o declínio de Nelson Mandela, uma comemoração mais modesta passou despercebida há uma semana, que diz muito sobre o papel que ele exerceu como uma inspiração em seus longos anos na prisão, quando a dura batalha diária contra o apartheid coube a outros que a travaram em seu nome.

A reportagem é de Alan Cowell, publicada no jornal Herald Tribune e reproduzida pelo Portal Uol, 05-07-2013.

Foi também um lembrete de que a batalha para colocar um fim ao governo branco foi travada em muitos níveis, do ativismo dos exilados antiapartheid aqui em Londres à guerra oculta brutal na África do Sul, que não oferecia descanso para aqueles que buscavam uma nova ordem.

Os eventos de 27 de junho de 1985 oferecem um entendimento particular.

Naquela data, uma equipe de oficiais da polícia secreta –brancos e negros– assassinaram quatro ativistas antiapartheid de Cradock, um pequeno assentamento no interior remoto do Cabo Oriental, realizando uma emboscada contra o carro deles tarde da noite, antes de espancá-los com cassetetes, atirarem, esfaqueá-los e queimá-los até a morte.

Após o martírio eles passaram a ser conhecidos como os Quatro de Cradock, emblemas de uma época em que as autoridades brancas buscavam desmanchar esses núcleos de resistência com uma tática que eufemisticamente chamavam de "remoção permanente" da sociedade.

Mas a morte de Matthew Goniwe, um proeminente líder comunitário e diretor de escola, e as de Fort Calata, Sparrow Mkhonto e Sicelo Mhlauli tiveram sua própria repercussão.

No dia em que o funeral deles atraiu impressionantes 35 mil pessoas enlutadas e ativistas ao estádio de futebol de terra e cemitério em Cradock –marchando sob emblemas que iam da bandeira vermelha do proibido Partido Comunista Sul-Africano às cruzes das igrejas cristãs–, o governo de P.W. Botha declarou o primeiro de dois estados de emergência.

Ao recorrer a esses poderes, Botha minou sua própria legitimidade diante da crescente revolta que forçou as autoridades a negociarem com seus adversários mais amargos. Como o próprio Mandela comentou quando visitou os túmulos dos Quatro de Cradock uma década depois, a morte deles "marcou o momento de virada na história de nossa luta. O regime nunca mais poderia governar do modo antigo. Eles foram os verdadeiros heróis da luta."

Assim que Mandela foi solto em 1990, é claro, sua estatura moral e generosidade em relação aos seus captores inspiraram o espírito de reconciliação que teceu um manto comum para a maioria e a minoria na muito alardeada Nação Arco-Íris.

"Daqui um século os historiadores ainda escreverão sobre o papel espetacular de Mandela em trazer liberdade, estabilidade e democracia à África do Sul", escreveu o colunista Max du Preez nesta semana no jornal "The Mercury", de Durban. "Eles ainda lembrarão aos seus estudantes que ele se tornou um ícone internacional como homem de grande integridade, com enorme capacidade de perdoar, de curar e superar divisões aparentemente impossíveis."

Durante seu encarceramento, entretanto, coube a outros, como Goniwe e seus companheiros, carregar as duas tochas do confronto e da resistência, celebrando seus líderes distantes na prisão ou no exílio, e cantando os slogans e hinos que evocavam figuras como Mandela e Oliver Tambo, na época o líder exilado do Congresso Nacional Africano (CNA).

Na ortodoxia atual, disse Dennis Goldberg, um ativista branco antiapartheid que foi julgado com Mandela em 1963, há a visão de que Mandela "nos trouxe a liberdade com as próprias mãos, como um salvador, um messias. Mas isso não é verdade. Sua grandeza está em sua capacidade de mobilizar a população da África do Sul em prol da liberdade".

A remodelação da lenda da África do Sul tem repercussões até hoje.

Quando a liderança exilada do CNA voltou para casa após a libertação de Mandela, muitas das figuras que travaram as batalhas nas cidades em seu nome nos longos anos de banimento foram relegadas a papéis secundários, ou ao esquecimento, com suas contribuições mal reconhecidas.

Mesmo hoje, na figura do presidente Jacob Zuma, a elite política da África do Sul é composta em grande parte por exilados que lutaram de bases nos Estados da "linha de frente" do sul da África, tanto para manter uma insurgência discreta quanto para buscar um esforço diplomático internacional para desafiar as autoridades brancas.

Mas figuras como Goniwe pagaram um alto preço pelo seu compromisso com a resistência dentro do país, deixando indistinta a linha entre desafio cívico e apoio à luta armada violenta antes defendida por Mandela –mesmo enquanto as autoridades brancas consideravam respostas que variavam de cooptar seus adversários, para vigilância e controle, à repressão brutal.

Como escrevi em um artigo após minha expulsão pelas autoridades brancas da África do Sul no início de 1987, cerca de 2.300 manifestantes morreram e 22 mil foram detidos sem julgamento em meados dos anos 80, em conflitos locais, e prepararam o caminho para a libertação de Mandela.

A batalha foi muito além do que era legal. Quando o estado de emergência foi declarado à meia-noite de 20 de julho de 1985, ele buscava espalhar um verniz judicial sobre as ações das autoridades, oferecendo proteção legal aos policiais por suas ações para sufocar os distúrbios. Mas seu impacto mais amplo foi o contrário: na percepção dos estrangeiros em Londres, Washington e outros lugares, a África do Sul governada pelos brancos se transformou em pária internacional. A campanha no exterior para a retirada de investimentos e sanções ganhou força. O apartheid implodiu.

Sim, os frutos finalmente chegaram para pessoas como Zuma, o ex-chefe de inteligência do CNA que atuava no exílio, em países que incluíam Moçambique e Zâmbia.

E, nas mais de duas décadas desde a libertação de Mandela, a promessa da luta deu lugar à disseminação da corrupção e de um caminhar pouco velado na direção da autocracia.

Alguns críticos até mesmo detectam uma campanha maior por parte do CNA de reivindicar a autoridade exclusiva pela derrota do apartheid. "Todo mundo, exceto Mandela e o Congresso Nacional Africano, foi apagado da história", disse o autor Martin Plaut. "Como diz o velho ditado, ao vitorioso, os espólios."

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