A visão de um filósofo sobre Deus e a evolução

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19 Junho 2013

O conhecimento da verdade é uma marca do ser humano, mas (quase por extensão) também é uma vantagem evolutiva. Devemos entender totalmente os perigos para superá-los. Nós nos conhecemos uns aos outros a fim de cuidar uns dos outros. Compreender o mundo como ele é nos ajuda a sobreviver.

A opinião é de Chase Nordengren, estudante de filosofia da Universidade de Washington em Seattle, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 13-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O grande mistério do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, é um monólito preto de três metros de altura, uma imponente e animalesca torre que aparece ao longo das mudanças de tempo do filme. A torre e o seu guincho estridente parecem ter duas funções: transformar os macacos pré-humanos em seres humanos que empunham instrumentos e transformar o astronauta Dave Bowman em algo muito mais do que humano.

O monólito não é diferente da árvore do Jardim do Éden, criação de algum "outro" sobrenatural que impulsiona a evolução da humanidade.

Eu não pude deixar de pensar em ambas as coisas em abril durante uma palestra na Notre Dame University do filósofo Alvin Plantinga. Plantinga se tornou talvez o mais notável proponente acadêmico da evolução guiada por Deus, e o seu novo livro [Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism, Oxford University Press, 2011] leva esse argumento a dar um passo à frente ao afirmar que, em última análise, é a evolução naturalista, e não teísmo, que é incompatível com a ciência.

Plantinga diz que a evolução de Darwin – a descendência das espécies com modificações impulsionadas pela seleção natural – não sugere nem a viabilidade nem a inviabilidade da fé teísta. Deus poderia, dentro desse sistema, ter provocado que "as mutações certas surgissem no momento certo", orientando a evolução de modo que o ser humano fosse feito à imagem de Deus mesmo assim.

Ao contrário, é o "naturalismo", a crença em uma evolução que é aleatória e não guiada, que empurra os atuais limites do conhecimento científico e os limites das próprias ciências exatas.

Se esse argumento soa similar ao design inteligente, isso é compreensível. Embora Plantinga apoie o espírito do movimento, ele duvida da hipótese de que a ciência possa demonstrar Deus por trás da complexidade biológica. Para melhor ou para pior, o argumento de Plantinga se assenta firmemente na filosofia, e não na biologia.

O eixo da posição de Plantinga se refere ao valor evolucionário da verdade, compreendendo o mundo como ele é. De acordo com o naturalismo e a evolução, argumenta Plantinga, a probabilidade de que os seres humanos tenham faculdades confiáveis é bastante baixa. Não há nenhuma vantagem neurológica inerente à verdade, postula ele, e se os proeminentes naturalistas Richard Dawkins e Stephen Jay Gould forem tomados ao pé da letra há, portanto, pouca razão para suspeitar que a mutação aleatória produziu faculdades humanas com o poder de imaginar corretamente a metafísica.

Se essa ideia for verdadeira, todas as crenças humanas estão sujeitas à fraqueza, incluindo a crença no naturalismo e na evolução. Para o naturalista, argumenta Plantinga, a verdade é acidental. Portanto, se o naturalismo fosse verdade, nós, seres humanos, não teríamos a função cognitiva para saber disso.

Aqui, Plantinga está generalizando os seus oponentes. A crença no método científico, em sua raiz, é uma crença de que o conhecimento pode ser descontextualizado e avaliado objetivamente. Esse modelo de influência lógica se encontra fora das compreensões humanas individuais – em alguns aspectos, agregando-as em um sistema que fala a verdade quando possível e que permanece em silêncio quando as evidências sugerem menos do que isso.

No entanto, eu acho que o argumento também é teologicamente problemático. É característico de uma espécie de dualismo corpo-alma separar a verdade – em alguns aspectos, uma manifestação do Espírito Santo em nossas almas – do output neurobiológico dos nossos cérebros. Além disso, ele trata a verdade como essa realidade concreta e delineada, como se a verdade não fosse o acúmulo de fatos e de hábitos ao longo de gerações e instâncias.

A verdade, teologicamente, é Cristo em si mesmo e a bondade em si mesma. O conhecimento da verdade separa o ser humano nesse sentido, mas (quase por extensão) também é uma vantagem evolutiva. Devemos entender totalmente os perigos para superá-los. Nós nos conhecemos uns aos outros a fim de cuidar uns dos outros. Compreender o mundo como ele é nos ajuda a sobreviver.

Tanto da árvore do Éden quanto do monólito de Kubrick surge o conhecimento que faz a diferença para os seres humanos. Independentemente de quem (ou do que) os colocou lá, são os próprios seres humanos que, em última instância, alcançaram esse conhecimento e o aceitaram. A noção redutora de uma única causa desse salto – seja Deus ou a aleatoriedade – fracassa em considerar a amplitude de possibilidades evolutivas inexploradas.

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