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Por: André | 15 Junho 2013

Barbara Ledermann conheceu Anne Frank em 1933, antes da invasão alemã aos Países Baixos. Mas só soube muito tempo depois que a família havia estado refugiada em um quarto. Esteve em Buenos Aires para o quarto aniversário da Casa de Anne Frank na Argentina.

A reportagem está publicada no jornal argentino Página/12, 13-06-2013. A tradução é do Cepat.

Barbara Ledermann nunca imaginou que sua amiga de infância fosse capaz de escrever o que finalmente escreveu. Muito menos pode imaginar a importância mundial que seus escritos, que deixou quase inocentemente, teriam. Por isso, quando leu pela primeira vez, em 1947, O Diário de Anne Frank, sentiu-se comovida. Essa menina inquieta e travessa com quem havia compartilhado sua infância em Amsterdã deixava um legado que seria considerado tempos depois um dos livros mais significativos em nível mundial em matéria de direitos humanos. A Casa de Anne Frank na Argentina convidou Ledermann para comemorar um novo aniversário de sua inauguração e os 84 anos do nascimento da jovem vítima do nazismo. A Câmara de Vereadores de Buenos Aires, além disso, declarou Ledermann membro da resistência holandesa durante a ocupação alemã, Hóspede de Honra da cidade.

Em 1933, as famílias de Barbara e de Anne, ambas judias, fugiram da Alemanha e se instalaram nos Países Baixos. Barbara tinha nessa época oito anos. “Nós vivíamos em Berlim e quando Hitler chegou ao poder decidimos nos mudar para a Holanda. Os Frank, que moravam em Frankfurt, fizeram o mesmo. Pouco tempo depois de terem chegado a Amsterdã, minha irmã e eu já estávamos brincando com Anne Frank e sua irmã maior, Margot. Éramos vizinhos e vivíamos em uma zona que dava de frente para um rio. Com Margot, além disso, íamos juntas à escola, tínhamos a mesma idade, assim que passava muito tempo com ela ou com a Anne, que tinha três anos a menos”, conta Barbara ao Página/12.

“Margot – recorda, quase 80 anos depois destes fatos – era uma menina muito inteligente, que me ajudava quando não entendia alguma coisa na escola, por exemplo, em matemática. E Anne era uma jovem muito madura para a idade que tinha, sempre estava inquieta e agitada”. As meninas compartilharam oito anos de sua infância quando o contexto político e social que as rodeava tornou-se intolerável.

Em 1941, intensificou-se a perseguição dos judeis por parte do regime alemão que havia ocupado a Holanda. Entre outras medidas, foram proibidos de utilizar o transporte público, frequentar determinados espaços públicos e submetidos a um toque de recolher noturno. Nesse estado de situação, os Frank decidiram, em julho de 1942, esconder-se no quarto posterior de um prédio de oficinas, onde Anne começaria a escrever seu diário.

Barbara relata que naquela época teve que se separar definitivamente da sua família. Com apenas 16 anos, começou a colaborar, junto com aquele que na época era o seu noivo, na resistência ao regime nazista nesse país: transferiam pessoas de um esconderijo a outro, distribuíam publicações clandestinas e vendiam provisões contrabandeadas. Contra a vontade de seus pais, Barbara saiu de casa. “Em 1942, já não vi mais a Anne nem a minha família. Nesse tempo, por proteção, usava uma identificação falsa e ajudava como podia na resistência. Às vezes, fazia longas filas para obter alguns cupons e dar comida a todos os que estavam refugiados em esconderijos. Outro dia fazia outra coisa. Foi então que me inteirei de que tinham levado a minha família”. Os Ledermann foram transferidos a um campo de concentração em Westerbork, nordeste da Holanda, e, em novembro de 1943, morreram em Auschwitz, o maior centro de extermínio da história.

Quanto às irmãs Frank, Barbara conta que a única coisa que pode averiguar nesse ano foi que se haviam mudado para Basileia, onde supostamente viviam alguns familiares. “Fui até sua casa, toquei a campainha e alguém abriu a porta e me disse que tinham ido para a Suíça”, recorda Barbara. Depois de terminada a guerra, quando se reencontrou com Otto Frank, o pai de Anne e único sobrevivente dessa família, Barbara pode saber do esconderijo onde haviam estado os Frank e outra família judia durante quase dois anos. Otto Frank entregou-lhe uma primeira versão do diário que sua filha havia escrito até que foram encontrados pelos alemães em agosto de 1944.

Anne morreu no campo de Bergen-Belsen em março do ano seguinte. O diário seria publicado, após várias reflexões de Otto, em 1947, e anos mais tarde seria traduzido para mais de 20 idiomas, convertendo-se em símbolo mundial dos direitos humanos.

“Quando li pela primeira vez o diário me surpreendi. Eu conheci a Anne quando ela era uma menina e travessa, e depois tomei conhecimento de que escreveu um livro maravilhoso. Foi realmente surpreendente. Admiro-a pelo como era e pelo livro que escreveu. Depois tomei conhecimento de que havia mais. E queria lê-lo, óbvio. Pouco a pouco, por sorte, foi sendo publicado, embora o Otto Frank tenha cortado algumas coisas”, explica Barbara, de 87 anos, que atualmente mora nos Estados Unidos.

Em novembro de 1947, dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Barbara emigrou para esse país. “Durante dois anos fiquei na Holanda esperando que meus pais e minha irmã voltassem. Tinha essa esperança até que soube, por meio da Cruz Vermelha, de que tinham morrido. Nesse momento eu trabalhava para uma companhia de balé. Uma das minhas grandes paixões sempre foi a dança. Inclusive durante a resistência dancei para uma companhia alemã que era dirigida por uma mulher nazista e muitos me chamavam a atenção para o enorme perigo que isso representava para mim”. Nos Estados Unidos conseguiu diferentes trabalhos, continuou dançando enquanto pode, e viveu um tempo em Nova York, antes de se mudar para Maryland, onde conheceu o biólogo Martin Rodbell. Casaram-se em 1950 e Rodbell conseguiria, em 1994, o Prêmio Nobel de Fisiologia. Voltaria a ver algumas vezes Otto Frank antes da sua morte, em 1980, aos 91 anos. Desde 2000, Barbara mora na Carolina do Norte.

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