Conversas criptografadas fizeram nascer uma grande história

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14 Junho 2013

A fonte havia instruído seus contatos na mídia para que viessem a Hong Kong, visitassem um canto particularmente fora do caminho de um determinado hotel e perguntassem - em voz alta - como chegar à outra parte do hotel. Se tudo corresse bem, a fonte passaria por ali segurando um cubo mágico.

A reportagem é de Charlie Savage e Mark Mazzetti, publicada pelo The New York Times e reproduzida pelo Portal Uol, 12-06-2013.

Assim, três pessoas - Glenn Greenwald, que escreve sobre liberdades civis e recentemente transferiu seu blog para o "The Guardian", Laura Poitras, documentarista especializada em vigilância, e Ewen MacAskill, repórter do "The Guardian" - voaram de Nova York a Hong Kong cerca de 12 dias atrás. Eles seguiram as instruções. Um homem com um cubo mágico apareceu.

Era Edward J. Snowden, que tinha uma aparência ainda mais jovem do que seus 29 anos. Greenwald lembrou em uma entrevista em Hong Kong, na segunda-feira, que ficou chocado porque esperava alguém muito mais velho, tendo em vista os programas de vigilância secretos aos quais o homem tinha tido acesso. Snowden entregou arquivos de "milhares" de documentos, de acordo com Greenwald, e "dezenas" são dignos de notícia.

A capacidade de Snowden de se enterrar profundamente no aparato de segurança nacional dos Estados Unidos e reemergir em posse de alguns dos seus segredos mais bem guardados é, em parte, uma história da era pós-11 de setembro, enquanto a expansão por parte do governo dos sistemas de vigilância informatizados deu aos técnicos especialistas tremendo poder.

Enquanto alguns congressistas em Washington acusam Snowden de traição, ele se considera alguém que conta a verdade. Como o soldado Bradley Manning e Daniel Ellsberg, a quem ele admira por revelar segredos do governo, Snowden explicou suas ações em uma entrevista ao "The Guardian", dizendo que o povo americano tem o direito de saber sobre os abusos cometidos pelo governo que têm sido mantidos escondidos.

Ele disse ter selecionado cuidadosamente o que divulgar, procurando evitar as críticas de imprudência que atingiram Manning. Manning, que confessou o vazamento de centenas de milhares de documentos secretos que foram tornados públicos pelo WikiLeaks, enfrenta uma possível sentença de prisão perpétua em uma corte marcial.

"Ele não sente nenhum arrependimento de qualquer tipo, não há nenhuma sensação do tipo: 'Nossa, o que foi que eu fiz? Agora não há como ser desfeito'", disse Greenwald sobre Snowden. "Ele está tão convencido de que fez a coisa certa. Ele não é delirante, é completamente racional. Ele entende que provavelmente vai terminar como Bradley Manning ou pior. No entanto, ele está tranquilo."

Não está claro como Snowden conseguiu os documentos secretos. Sua transformação de um funcionário de confiança da Agência Nacional de Segurança para delator ainda parece um quadro impressionista.

No ano passado, ele doou dinheiro para a campanha de Ron Paul, o candidato presidencial republicano que era crítico de longa data do crescente alcance do governo. Pessoas que conheciam Snowden quando era adolescente dizem que ele adorava computadores. Joyce Kinsey, que morava em frente a Snowden, em Maryland, uma década atrás, disse que muitas vezes o via pela janela trabalhando em seu computador à noite.

"Ele estava sempre no computador, sempre", disse ela. "Ele era apenas um garoto tranquilo, muito tranquilo".

Snowden, que cresceu na Carolina do Norte, não terminou o ensino médio e frequentou aulas esporádicas na faculdade comunitária Anne Arundel, em Arnold, Maryland. Registros militares mostram que ele se alistou na Reserva do Exército como recruta das Forças Especiais em maio de 2004 e foi dispensado menos de quatro meses depois, supostamente depois de quebrar as pernas em um acidente no treinamento.

Em algum lugar ao longo do caminho, ele recebeu permissão de acesso a dados ultrassecretos e, com sua experiência de computador, entrou para o establishment de segurança nacional. Por mais de uma década, as agências de inteligência dos Estados Unidos têm estado desesperadas em busca de indivíduos com aptidões tecnológicas que possam administrar redes de computadores cada vez mais complexas, e que sejam aprovados em rigorosas análises de antecedentes.

Snowden saltou entre postos de trabalho dentro do governo e como funcionário terceirizado da CIA na Suíça e na Agência de Segurança Nacional (ASN), no Japão, em Maryland e no Havaí, de acordo com seu relato. Eventualmente, ganhando quase US$ 200.000 (em torno de R$ 400.000) por ano em instalações secretas como administrador de sistemas de computador, ele teve acesso a enormes quantidades de informações secretas.

Em uma entrevista em vídeo realizada por Greenwald e gravada por Poitras, Snowden contou ter visto "regularmente" coisas "perturbadoras" e, ao fazer perguntas sobre o que considerava como abuso, descobriu que ninguém se importava. Com o tempo, concluiu que sua vida confortável estava ajudando a construir uma "arquitetura de opressão".

Snowden contou ao "The Guardian" que foi durante seu trabalho em Genebra como técnico de informática para a CIA que pensou pela primeira vez em divulgar segredos do governo. Mas ele disse que se segurou, em parte porque esperava que a eleição do senador Barack Obama como presidente, em 2008, pudesse reverter o crescimento do estado de vigilância.

Mas o fato de Obama ter adotado muitas das políticas antiterrorismo do governo Bush o "endureceu", e ele disse ao "The Guardian" que entendeu que uma pessoa não pode esperar os outros para agir. "Eu estava buscando líderes, mas percebi que liderança é ser o primeiro a agir", disse ele.

Snowden, segundo Greenwald, procurou Poitras pela primeira vez em janeiro. Seu trabalho concentrou-se em questões de segurança nacional, como vigilância, incluindo um pequeno documentário para a página Op-Ed do "New York Times" em agosto. Ela e Greenwald, junto com Ellsberg, também estão ajudando uma nova organização dedicada a delatores e transparência, chamada Freedom of the Press Foundation.

No mês seguinte, Snowden entrou em contato com Greenwald por meio de um e-mail enigmático, identificando-se como leitor, dizendo que queria conversar sobre uma história de potencial usando criptografia. Greenwald respondeu que não tinha esse tipo de software. Então Snowden lhe enviou um vídeo caseiro com instruções passo a passo de como instalá-lo. Greenwald assistiu ao vídeo, mas não concluiu a instalação do programa.

Frustrado, Snowden teria dito a Poitras que tinha uma grande história sobre a Agência de Segurança Nacional que exigia tanto conhecimento técnico quanto legal, e propôs que eles trabalhassem juntos com Greenwald. Poitras, que não respondeu a um pedido de entrevista, disse a Salon na segunda-feira que entrou em contato com Barton Gellman, um ex-repórter do "Washington Post", para ver se ele achava que a suposta fonte parecia legítima.

No início de março, Poitras ligou para Greenwald e disse que precisava conhecê-lo pessoalmente. Em um hotel de Nova York, ela compartilhou os e-mails de Snowden que diziam, nas palavras de Greenwald, que "a vigilância estatal estava fora de controle e se tornou abusiva, e que ele estava disposto a arriscar a própria vida e liberdade para expor o problema". "Naquela altura, nenhum de nós sabia o nome dele."

No final de abril ou início de maio, ele e Snowden começaram a conversar com um programa de bate-papo criptografado.

"Ele meio que disse: 'Meu plano é, em algum momento, ir para um lugar bem distante, e aí queria que você fosse lá e me entrevistasse, pegasse os documentos e analisasse-os'", disse Greenwald.

Cerca de uma semana mais tarde, Snowden enviou uma amostra de cerca de 20 documentos, incluindo slides para uma apresentação sobre um programa chamado Prism, sob o qual a ASN estava coletando informações sobre os estrangeiros no exterior, de empresas de internet como a Google. Em seguida, cerca de duas semanas atrás, Snowden indicou que estava pronto para o encontro.

Separadamente, em meados de maio, Snowden procurou Gellman. Greenwald disse que Poitras concluíra que "seria bom ter o 'Washington Post' envolvido no vazamento", para que não fossem só os dois, e escolheu Gellman. Snowden enviou a Gellman o mesmo conjunto de amostras de documentos. Em seu relato, Gellman contou que Snowden usava o codinome de "Verax" - quem conta a verdade, em latim -, pseudônimo usado por um escritor britânico do século 17 e por outro do século 19, um dos quais morreu na Torre de Londres e foi muito honrado pelo outro.

Na última semana de maio, Greenwald voou do Brasil, onde mora, para Nova York para se encontrar com os editores do "The Guardian" e analisar os documentos preliminares. No dia seguinte, ele, Poitras, e MacAskill partiram para Hong Kong. Pouco antes da viagem, Snowden tinha dito a Poitras seu nome e enviado a ela o primeiro de três grandes arquivos de documentos, que eles leram no avião.

Após o encontro do cubo mágico, os três seguiram Snowden até seu quarto no hotel e passaram seis horas "revisando sua vida do início ao fim, como se estivessem conduzindo um depoimento", lembrou Greenwald, que antes praticava advocacia. No final, ele estava convencido de que Snowden era quem dizia ser.

John Schindler, ex-agente no combate à espionagem da ASN e hoje professor da Escola de Guerra Naval, disse que na era pós-11 de setembro os "administradores de sistemas" passaram a ter acesso a enormes quantidades de informações secretas e podem representar riscos de segurança.

"Eles podem ser uma brecha de segurança crítica porque veem tudo", disse ele. "Eles são como os agentes responsáveis pelos códigos do século 20. Se um administrador de sistemas inteligente for desonesto, você estará em apuros."

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