Nos esportes, Mandela encontrou uma forma de unir seu país

Revista ihu on-line

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

Edição: 531

Leia mais

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

Edição: 529

Leia mais

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

Edição: 531

Leia mais

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

Edição: 529

Leia mais

Mais Lidos

  • "Os jovens mudaram, e a escola não acompanhou". Entrevista com Miriam Abramovay

    LER MAIS
  • As tranças de Greta e a encíclica do Papa Francisco

    LER MAIS
  • Morre Fernando de Brito, frade dominicano

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

13 Junho 2013

Inúmeros líderes políticos de todo o mundo sabem como cortejar a popularidade dos esportes. Mas nenhum deles tem uma melhor sensação disso ou um entendimento mais genuíno, porém simples, do potencial dos esportes para a construção de uma nação quanto Nelson Mandela.

A reportagem é de Rob Hughe, publicada no jornal Herald Tribune e reproduzida no Portal Uol, 12-06-2013.

Desde a infância, ele adorava correr. Na juventude, aprendeu a lutar boxe. Na prisão na Ilha Robben, partidas de futebol mantinham ele e seus colegas prisioneiros sãos. E assim que foi libertado, assim que recebeu o mandato para reconstruir uma África do Sul despedaçada pelo apartheid, Mandela usou o que chamou de poder dos esportes para ajudar a unir seu povo.

É um legado fenomenal, o verdadeiro poder de compreender que, ao jogarem juntos e vestirem a mesma camisa, os sul-africanos poderiam aprender a ser uma "Nação Arco-Íris".

Aqueles entre nós que foram afortunados em conhecê-lo nos anos 90 passaram a acalentar sua confiança incrivelmente ousada, quase infantil, nos esportes para curar divisões horrendas.

A Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, a Copa das Nações Africanas de 1996, a Copa do Mundo de Críquete de 2003, e, então, a maior --a Copa do Mundo da FIFA em 2010-- foram todas realizadas em solo sul-africano. Esses eventos forjaram e emolduraram uma filosofia de que, ao jogarem juntas e torcerem juntas, as pessoas poderiam perceber que a noção de dividir homens, mulheres e crianças segundo a cor de sua pele era tão tola quanto repulsiva.

É claro, não era apenas a visão de um homem. Mandela cresceu em uma nação esportiva antes de se tornar um lutador contra o apartheid, mas após passar 27 anos na prisão, seu espírito e razão permaneceram indomados.

Nós somos privilegiados pelos esportes terem sido um princípio, uma ferramenta, se preferir, para a forma de Mandela perdoar, se não esquecer.

"O esporte tem o poder de mudar o mundo", disse ele. "Ele tem o poder de unir os povos de uma forma como poucas outras coisas conseguem. Ele fala aos jovens em uma linguagem que eles entendem. O esporte pode criar esperança onde antes havia apenas desespero." Ele usou esse discurso várias vezes, lapidado e desenvolvido para posteriormente incluir uma abertura clara à derrubada das barreiras raciais e toda forma de discriminação. Mas isso foi dito, é claro, com a mente de um advogado e com o senso de oportunidade de um político.

O momento em que a equipe de rúgbi da África do Sul venceu a Copa do Mundo em casa em 1995 --apenas um ano após Mandela ter sido eleito o presidente do país-- será para sempre apresentado com o quadro supremo do esporte superando o apartheid.

Quando Mandela vestiu a camisa verde e boné da equipe e entregou o troféu para François Pienaar, aquilo se transformou no símbolo da unificação.

Ali estava o líder negro, o combatente da liberdade transformado em chefe de Estado, abraçando intencionalmente o capitão loiro de um esporte, o rúgbi, que até aquela altura era singularmente branco na África do Sul.

Mas não foi só isso o que aconteceu. Pienaar foi convidado a tomar chá com o presidente antes da final. O capitão do rúgbi ficou --e ainda fica-- emocionado com aquela experiência definidora de vida de aceitação e amizade de Mandela.

Não foi uma exibição para o público. Mandela agiu do mesmo modo, e de modo igualmente genuíno, com os jogadores jovens de várias formações na menos badalada Copa das Nações Africanas.

O futebol era por acaso o esporte praticado em Soweto e outros distritos. Mas os brancos nunca foram barrados, nunca foram excluídos dessas partidas. Eles podiam --e uma ou duas almas corajosas o faziam-- jogar futebol juntos mesmo nos piores tempos do governo discriminador. E eram aceitos por seu talento.

Assim o futebol, certa vez eu tive a temeridade de dizer a Mandela, merecia o direito de ser o esporte da África do Sul, porque ele evitava o preconceito.

Ele respondeu que a África do Sul se candidataria aos Jogos Olímpicos e à Copa do Mundo de futebol assim que tivesse recursos para fazê-lo.

A Cidade do Cabo se candidatou às Olimpíadas de 2004, mas perdeu para Atenas.

A África do Sul tentou realizar a Copa do Mundo de 2006, mas foi rejeitada em prol de uma opção mais segura, a Alemanha. Mas a África do Sul perseverou. Mandela esteve pessoalmente envolvido, como era preciso, para conquistar os votos, para dar aqueles discursos do "poder de mudar o mundo" quando fez seu apelo pessoal ao comitê executivo da FIFA.

Mas Mandela não podia cuidar da candidatura em tempo integral, ou conduzi-la pela política interna que motiva o desagradável processo de seleção da FIFA de onde jogar seu torneio bilionário.

Mandela escolheu Danny Jordaan, assim como ele um ativista antiapartheid de seus tempos de estudante, para liderar a candidatura bem-sucedida para realização da Copa do Mundo na África do Sul em 2010.

Quando a presença de Mandela era necessária, ele sempre esteve lá. Quando a aposta foi vencedora e a decisão foi tomada seis anos antes do torneio, Mandela disse que se sentia como um menino de 15 anos que realizou um sonho.

Já velho e sempre delegando, Mandela sabia que aquele seria o maior teste da nação que seu país poderia e enfrentaria em sua vida.

A África – e não apenas a África do Sul – foi testada por todas as exigências de contar com 32 países participando de um torneio com duração de um mês: construindo os hotéis, aeroportos e estradas necessários; recebendo milhões de turistas estrangeiros; e erguendo os novos estádios imensos que o país mal podia pagar.

"Ke nako", disseram o povo e Mandela. "É hora."

Durante a Copa do Mundo, ocorreu a tristeza infeliz --a morte trágica em um acidente de carro da bisneta dele de 13 anos, Zenani, na véspera da abertura– lembrando a Mandela quão cruel o destino podia ser. Pouco antes disso, os convidados faziam visitas breves à casa de Mandela em Johannesburgo: Cristiano Ronaldo, foi um deles, e Zenani estava dançando, literalmente, de alegria com a visita do ídolo do futebol ao seu bisavô.

E então ela partiu. Mandela não participou da cerimônia de abertura na noite seguinte. Mas ele compareceu ao estádio na final. Foi sua última grande aparição pública.

Mandela já estava frágil na ocasião, mas não em espírito. Ele disse uma última vez, "Ke nako". A essência de seu discurso de despedida foi "nós conseguimos".

E nós suspeitamos que, sem ele, talvez nunca tivesse ocorrido um evento esportivo semelhante em solo africano. Os esportes são simples, mas às vezes é preciso grandes líderes, seres humanos excepcionais, para que isso seja visto.

‘A fome existe devido a escolhas políticas’

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Nos esportes, Mandela encontrou uma forma de unir seu país - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV