''Há um clima histérico na França. Os reacionários buscam um mártir''. Entrevista com Jean-Yves Camus

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24 Maio 2013

"É um gesto excepcional que nunca tinha sido visto na história da política francesa contemporânea". Para um estudioso da extrema direita como Jean-Yves Camus, o nome de Dominique Venner certamente não é novo. "Ele era considerado uma figura mítica dentro de certos ambientes. E tornou-se uma referência ideológica de muitos grupos da 'nova direita' nos anos 1980. Nos últimos tempos, ele também soubera construir um séquito entre os jovens graças à web", diz Camus, que assinou vários ensaios no Front National e é um dos autores do Dicionário crítico do racismo, recém-publicado na França.

A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 22-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

A batalha contra o casamento de casais gays é realmente a causa desse gesto extremo?

Eu seguia Venner no seu blog. Ele também tinha uma página no Facebook muito frequentada. É verdade que, nas últimas semanas, o seu tom contra a reforma do governo havia se tornado mais virulenta. Ele ficou favoravelmente impressionado com essa "primavera" de mobilização em defesa dos valores que ele obviamente compartilhava.

Uma França reacionária que, de repente, acordou?

Eu não acredito que se possa dizer com certeza que a reforma do governo foi a única motivação de Venner. Seria preciso ser mais prudente antes de tirar conclusões fáceis, porque, como eu dizia, trata-se de um gesto excepcional, algo nunca visto antes no nosso país. Toda comparação é enganosa. Até mesmo os seus amigos e o seu editor foram pegos de surpresa. Todos aqueles que lhe eram próximos estão agora fazendo declarações contraditórias.

O senhor leu o seu último post?

O casamento gay é um dos seus muitos alvos. Mas ele não se limita a isso. Ele também fala muito de imigração, da chamada identidade nacional. Com certeza, Venner estava convencido de que a França já havia entrado em uma fase de decadência irreversível. Uma situação que ele, tendo às costas um certo tipo de passado, considerava intolerável. Mas ele também era um homem doente e muito orgulhoso. Eu não descartaria que ele também cometeu suicídio por razões pessoais.

Contudo, ele não era um tolo.

Na carta que ele deixou, ele teria alegado que agiu em plena posse das suas faculdades. Sobre isso, não podemos especular. Os conteúdos de uma ou mais cartas ainda são secretos. Haverá uma investigação, e saberemos mais nas próximas horas. Enquanto isso, no entanto, muitos grupos de extrema direita tentam fazer dele um mártir. Isso não me admira: faz parte do clima de histeria dentro do qual a França caiu nos últimos meses.

Marine Le Pen logo elogiou Venner.

É uma declaração grave e, além disso, imprecisa. Venner desprezava o atual Front National, do qual havia se afastado há muito tempo. Ele não pertencia a nenhum partido. Era um típico expoente da geração formada politicamente nos anos 1960 pela defesa da Argélia francesa e depois elaborou a "nova direita" que tem as suas referências culturais não só na França mas também na Itália. Da forma como eu o conheci e pelo que ele escrevia nos seus livros, ele se considerava intelectualmente superior aos atuais dirigentes do Front National.

Os seus apelos são uma tentativa de fomentar um clima de ódio?

Venner era um ponto de referência para uma velha guarda da extrema direita francesa. Mas, apesar dos seus 78 anos, ele não era nada marginal, como agora alguns defendem. Através da internet, ele conseguira fazer circular as suas ideias, até mesmo entre os mais jovens, que até compravam os seus livros.

A contestação corre o risco de se radicalizar?

Infelizmente, durante as últimas manifestações contra o casamento gay, assistimos a confrontos cada vez mais frequentes com a polícia. Não é uma boa imagem para uma direita que, ao menos em palavras, deveria ser "lei e ordem".

François Hollande não tinha previsto essa escalada?

Mais do que para a esquerda, eu acho que estourou uma armadilha para a direita que tem de forma irresponsável deixou o campo aberto para alguns grupos radicais. Agora, a situação corre o risco de fugir de controle. O secretário do UMP, Jean-François Copé, foi obrigado a cancelar a sua participação na nova manifestação contra o casamento gay, prevista para o domingo. É o que acontece quando se aciona uma engrenagem, sem se preocupar como será possível pará-la depois.

* * *

O adeus no seu blog: "São necessários gestos espetaculares"

O que Dominique Venner escreveu no seu blog (www.dominiquevenner.fr) no dia 21 de maio de 2013:

Os manifestantes do dia 26 de maio [que foram às ruas contra a legalização do casamento gay] terão razão em gritar a sua impaciência e sua cólera. Uma lei infame, uma vez votada, sempre pode ser revogada.

Acabei de ler um blogueiro argelino: "De todas as formas", dizia ele, "em 15 anos os islamitas estarão no poder na França e suprimirão essa lei". Não para nos agradar, eu suspeito, mas porque ela é contrária à sharia (lei islâmica).

É o único ponto comum, superficialmente, entre a tradição europeia (que respeite a mulher) e o Islã (que não a respeita). Mas a afirmação peremptória desse argelino me faz tremer. (...)

Certamente serão necessários gestos novos, espetaculares e simbólicos para acordar os sonolentos, sacudir as consciências anestesiadas e despertar a memória das nossas origens. Nós entramos em um tempo em que as palavras devem ser autenticadas por atos.

Devemos nos lembrar também, como Heidegger formulou genialmente (Ser e Tempo), que a essência do homem está na sua existência, e não em um "outro mundo". É aqui e agora que se joga o nosso destino até o último segundo. E este último segundo tem tanta importância quanto o resto de uma vida. É por isso que devemos ser nós mesmos até o último instante. É decidindo a nós mesmos, querendo realmente o nosso destino, que derrotamos o nada. E não há escapatória a essa exigência, porque só temos esta vida, em que somos chamados a ser inteiramente nós mesmos ou a não ser nada.

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