'Eu não tive escolha a não ser ir trabalhar', diz sobrevivente de tragédia em Bangladesh

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21 Mai 2013

Uma sobrevivente da fábrica que desabou recentemente em Bangladesh descreve o dia da tragédia e a pressão constante para trabalhar mais rápido sob condições horríveis. Sua história oferece um vislumbre das vidas difíceis e empobrecidas das pessoas que produzem roupas baratas para o Ocidente.

Mushamat Sokina Begum, 27 anos, estava em sua máquina de costura na fábrica no quinto andar quando o edifício Rana Plaza, onde ela trabalhava na cidade de Savar, perto da capital de Bangladesh, Dacca, desabou na manhã de 24 de abril, matando mais de mil pessoas. Begum foi retirada dos escombros três horas depois, com uma perna ferida. Ela falou com o editor da Spiegel Online, Hasnain Kazim, sobre suas esperanças para seu futuro e os de seus dois filhos.

A matéria é da revista Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 20-05-2013.

Confira o relato.

Eu realmente não quero começar a trabalhar novamente. A maioria das pessoas aqui se sente da mesma maneira. Estamos com medo. Acabei de saber de outra fábrica onde há rachaduras nas paredes. E sei de outro edifício pouco seguro que também dizem pertencer a Mohammed Sohel Rana (o proprietário do edifício Plaza Rana). Na semana passada, houve outro incêndio numa fábrica e pessoas morreram. Coisas assim acontecem constantemente. Eu creio que Deus quer nos punir por algo. Eu só não sei pelo quê ainda.

Nossas condições de trabalho são horríveis. Basicamente nunca temos um dia de folga. Se há uma morte na família, os patrões dizem: "bem, ninguém pode fazer nada a respeito. Se alguém está morto, está morto. Por que você quer ir lá? Você não pode fazer nada, de qualquer forma. Se você realmente quer tirar o dia de folga, então tire. Mas não ganhará nada nesse dia."

Nós só recebemos dinheiro se estamos na fábrica. Não há férias pagas. Às vezes trabalhamos até as 23h, sempre sob pressão, sempre ouvindo que devemos trabalhar mais rápido para que os pedidos sejam terminado a tempo. Nós trabalhamos até bem tarde antes do prédio desabar – muito embora muitas de nós tenhamos filhos. Quanfo falamos para os nossos superiores que queremos ir para casa porque nossos filhos estão esperando por nós, eles dizem, "por que você está vindo para trabalhar se você tem filhos? Fique em casa e cuide deles! Mas se você quer ter filhos, você não pode trabalhar para nós!" Ouvimos comentários desse tipo o tempo todo.

Fora isso, o calor também é insuportável! Na sala onde eu trabalhava havia apenas quatro pequenas unidades de ar condicionado para várias centenas de pessoas. Nós ficávamos perguntando quando eles iriam pelo menos comprar ventiladores. Os gerentes respondiam: "A produção não está indo bem. Se tivermos lucro, então poderemos comprar ventiladores. Trabalharem mais, daí poderemos falar sobre isso."

É assim que eram as coisas na nossa empresa, que eu acho que se chamava Ether Texas. O nome estava escrito no meu cartão de funcionário, em inglês. Mas eu não sei ler nem escrever, então eu não lembro o nome. Eu só estava na empresa havia algumas semanas.

As condições de trabalho no nosso setor são ruins. Nossa fábrica não era muito limpa. Muitos dos funcionários fumavam e cozinhavam, muito embora não devessem. Havia um depósito de lixo atrás do prédio e ele fedia. Sempre havia funcionários nos vigiando. Eles nos repreendiam quando tínhamos que ir ao banheiro. Eles ficavam lá o tempo todo e nós não tínhamos autorização para fazer nenhuma pausa, nem mesmo para ir até a janela por um momento e tomar um pouco de ar fresco. De vez em quando eles nos batiam.

Nós aturamos tudo isso. Eu não quero reclamar – nós ganhávamos o suficiente para sobreviver. Os donos da fábrica são ricos e investem muito dinheiro nas máquinas. Nós somos apenas os trabalhadores pobres. Vivemos como podemos viver. Nós não temos uma escolha. Por que eu deveria ter inveja das pessoas ricas? Eu não espero ser rica um dia.

Mas deveríamos pelo menos receber nossos salários em dia. Infelizmente, muitos dos donos de fábricas pagam com atraso. Então entramos em greve de vez em quando, às vezes por várias semanas. Por que deveríamos trabalhamos se não recebemos dinheiro? Temos de pagar o aluguel até o dia 10 de cada mês. Isso é difícil de fazer quando não recebemos nosso salário.

Nós não recebemos nada para o mês de abril e agora que a fábrica já não existe, ninguém sabe se vamos receber o dinheiro algum dia. Até agora eu não vi nenhum representante da empresa nos oferecer o nosso salário ou qualquer indenização.

Como todas as mulheres na fábrica, eu trabalhava das 8h às 17h. Eu ganhava 4 mil taka (cerca de 39 euros) por mês. Depois das 17h, recebíamos horas extras. Ao todo, meu salário mensal podia chegar até 5.500 taka (53 euros). Eu não sinto nenhuma raiva das empresas estrangeiras de comércio e vestuário. Elas fazem os pedidos e pagam por eles, e parte deste dinheiro vem para nós.

Seria terrível se os pedidos parassem de chegar e as fábricas fechassem. Como poderíamos ganhar a vida, então? Temos famílias grandes, e queremos mandar nossos filhos para a escola. Precisamos de empregos.

A vida numa cidade grande como Dhaka é incrivelmente cara. O aluguel é muito alto. Somos quatro em um cômodo: meu marido, eu e nossos dois filhos, de 11 e 9 anos de idade. Pagamos 1.850 taka (18 euros) por mês pelo quarto. Meus filhos dormem no chão, meu marido e eu temos uma cama. Há uma cozinha compartilhada com dois fogões no nosso andar. Há dois lavabos no corredor e um banheiro para todos.

No nosso andar, ao todo há sete famílias que vivem em oito quartos. Os proprietários vivem em dois quartos e os outros seis são alugados. Temos água encanada, gás e eletricidade. Gosto do nosso quarto. Não seria nada mal ter um quarto para nossos filhos, é claro, mas quem pode pagar isso? Meus filhos vão para a escola e isso custa 500 taka (4,80 euros) por mês por criança, além dos materiais escolares. A educação é mais importante do que um segundo quarto. Meu marido dirige um riquixá, transportando de mercadorias. Ele não ganha muito.

Nós, mulheres, temos poucas escolhas além da indústria têxtil. Claro que os acidentes nos assustam. Eu conheço muitas pessoas que dizem: preferimos voltar a viver na aldeia e não ganhar nada a que ir encontrar a morte nas fábricas da cidade. Na minha fábrica, que ficava no quinto andar, só havia três saídas. Duas delas estavam sempre fechadas. As outras fábricas em que trabalhei não eram muito melhores. Nós costumávamos reclamar e perguntar: "e se houver um incêndio?" Mas eles não se importavam. As melhorias que queríamos eram pequenas – mais espaço nas salas da fábrica, ventiladores, mais saídas e escadas. E queríamos ser tratadas de foram justa.

Pessoalmente, eu não tenho expectativas para o futuro. O que os trabalhadores devem esperar? Tudo depende dos caprichos dos donos das fábricas. Por exemplo, bastava chover um pouco para que houvesse lama e a água chegasse a meio metro de altura. Quantas vezes dissemos aos gerentes que eles tinham que fazer alguma coisa? Chegávamos ao trabalho molhadas e ficávamos doentes. Eles nos prometeram que iriam cuidar disso. Mas é claro que nada mudou. do curso nada mudou.

Seria bom ter a minha própria máquina de costura. Isso seria uma forma de garantir o meu sustento. Então eu poderia aceitar pedidos e trabalhar em casa – conheço mulheres que fazem isso. Mas eu não tenho dinheiro para comprar uma máquina de costura. O salário do meu marido está longe de ser suficiente. Eu gostaria de ganhar o bastante para pagar a educação dos meus filhos. Eu quero oferecer um futuro melhor possível para eles. Eles não deveriam ter que trabalhar na indústria têxtil, ou dirigir um riquixá como meu marido. Então eu preciso encontrar um emprego, porque senão meus filhos terão que trabalhar e eles não conseguirão à escola, o que significa que eles nunca encontrarão bons empregos. Esta é a minha maior preocupação.

Quero que meus filhos tenham menos preocupações do que meu marido e eu. Nós não temos boa escolaridade. Eu só frequentei a escola pouco tempo. Muito pouco. Quero proteger meus filhos do mesmo destino. O melhor de tudo seria se eles poderiam encontrar empregos no governo.

A pessoa que eu mais culpo por toda essa calamidade é o dono do prédio, Sohel Rana. Ele não tinha uma permissão para construir um prédio tão alto. Ele próprio estava no prédio no dia em que este desabou. Ele sobreviveu milagrosamente, mas em vez de ajudar a resgatar os outros, ele simplesmente desapareceu. Isso é algo que eu gostaria de perguntar a ele: por que você foi embora? Outras pessoas do bairro, pessoas sem nenhuma conexão com o prédio, vieram e ajudaram.

O dia do desastre não começou bem para mim. Meu pai tinha ficado doente à noite, tão doente que tivemos que levá-lo ao hospital. Eu também estava doente. Mas não tive escolha a não ser ir trabalhar, porque eles haviam ameaçado não me pagar se eu não fosse.

Naquela manhã, antes de o prédio desabar, muitas pessoas estavam do lado de fora. Ninguém ousava entrar. Todos tinham um pressentimento de que era perigoso. Cerca de 8h10, os gerentes vieram e ordenaram que começássemos a trabalhar. Eles disseram que não devíamos nos preocupar, tudo estava seguro. "Também estamos aqui", disseram eles, e havia um monte de encomendas e estávamos sob muita pressão para terminá-las. Eu tinha ligado a minha máquina de costura quando o prédio desabou atrás de mim. Corri em direção a saída, mas o chão cedeu sob meus pés. De repente, eu estava enterrada até a cintura numa pilha de concreto.

Mas se nós não tivéssemos subido para a fábrica, teríamos perdido nossos empregos. Então obedecemos.

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