''O feminicídio deve ser freado: a responsabilidade é da mídia''. Entrevista com Michela Murgia

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17 Maio 2013

Nos jornais destes dias, entrecruzam-se notícias de violência: algumas urbanas, sociais, e algumas, como acontece cada vez mais, contra as mulheres. Conversamos a respeito com a escritora Michela Murgia, autora com Loredana Lipperini de L'ho uccisa perché l’amavo. Falso [Matei-a porque a amava. Falso] (Ed. Laterza).

A reportagem é do jornal Il Fatto Quotidiano, 15-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Há uma escalada de feminicídios?

Os dados do ISTAT falam claramente de um crescimento do fenômeno. Há uma diminuição global dos homicídios, mas um aumento dos feminicídios, que não são simples homicídios de pessoas do sexo feminino. São homicídios de mulheres por razões de posse. Dentre outras coisas, não é tão fácil ter números certos, porque, na Itália, não existe um observatório: é provável que os números sejam maiores.

Do que depende o aumento?

Em momentos de recessão econômica, a emancipação feminina regride. Quando o homem perde a segurança econômica, ele tende a consolidar a segurança relacional e sofre mais com a perspectiva do abandono. A outra razão é estrutural: quando você põe em discussão o domínio de um gênero sobre o outro, quem perde poder reage com violência.

Os meios de comunicação muitas vezes usam expressões quase justificacionistas, como "crime passional" ou "acesso de ciúmes".

Se você criar um título como: "Matou a esposa: 'Ela nunca me deixava falar'", você já está construindo uma narrativa, em que o protagonista é ele, e a sua razão domina a da morta, que não pode mais falar. Eu acredito que é errado decidir que, quando se trata dessas mortes das mulheres, todas as leituras sejam possíveis. Mas isso também acontece no site do jornal Fatto, onde foram publicadas mais de uma intervenção de dois blogueiros aos quais foi permitido dizer que o assassinato de mulheres por parte de homens que reivindicam a sua posse não é um fenômeno específico: assim, renuncia-se a procurar as suas causas. Eu penso que fazer jornalismo responsável significa dar as notícias pensando, porém, sobre as suas causas.

Os blogs são tradicionalmente um lugar de livre expressão. A esses dois opinadores se juntaram outros na direção oposta. E, acima de tudo, essa é a linha do jornal Fatto, onde, dentre outras coisas, foi aberta uma seção "Donne di Fatto", que certamente não trata de maquiagem e de moda.

Se, dentro de um debate, machismo e feminismo têm dignidade igual, certamente não se está protegendo a parte frágil, que é a que morre. É como dizer que, em um debate sobre o racismo, racismo e antirracismo são consideradas opiniões igualmente legítimas.

Desde que houve o primeiro episódio de ataque com ácido muriático, seguiram-se outros: é certo dar relevância à notícia ou seria melhor não fazê-lo para evitar o efeito-dominó?

Seguramente, com relação ao ácido, houve um efeito-dominó: nunca foi um uso ocidental. Mas a modalidade não faz toda essa diferença. A desfiguração é uma variante da reivindicação da posse do objeto. Desfigurar a beleza, a coisa que os homens consideram mais "própria", porque suscita o desejo, equivale, do ponto de vista simbólico, a suprimir uma pessoa.

Popper enfatizava o papel negativo da televisão como veículo de uma violência nem sempre proposta como "má". Isso ainda é verdade?

Sim: na Itália, confunde-se o conflito com a violência. Se discutimos, podemos levantar a voz, mas não dar socos e insultar: basta olhar os talk-shows. E depois há tipos de violência mais subterrâneas, das quais é mais difícil se defender. Eu vi um cartaz que anunciava carros de luxo usados. Ao lado, havia uma mulher muito jovem e muito bonita. O slogan era: "Você sabe que não é o primeiro, mas isso não importa". Esse manifesto lhe diz que carros e mulheres são intercambiáveis, que nesse objeto há um valor. Se alguém já o usou, ele vale menos, mas se a carroceria está intacta, isso não importa. Mas, se não estivesse, o que aconteceria?

A violência urbana, como o episódio de Milão-Niguarda, causa um desconforto que condiciona os cidadãos na fruição das cidades.

Isso depende do desaparecimento das relações de proximidade. Se alguém pode matar três pessoas a golpes de picareta na rua durante 62 minutos sem que ninguém chame a polícia, isso significa que ninguém acredita que o perigo dos outros lhe diga respeito. Não é o aumento da polícia que pode nos salvar, mas sim o aumento da atenção social.

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