O que Francisco pensa sobre capitalismo, emprego e globalização? Artigo de Thomas Reese

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04 Mai 2013

A crítica do Papa Francisco ao sistema capitalista não é apenas econômica e política; é também teológica, porque "ele domestica a religião para que não incomode tanto". Mas as suas palavras mais fortes aparecem na crítica ao tratamento dado pelo capitalismo aos trabalhadores.

A reflexão é do jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos EUA, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É bem sabido que Jorge Bergoglio, SJ, não era um fã da teologia da libertação, mas isso não significa que o Papa Francisco seja um defensor do capitalismo desenfreado. Em 2000, ele reconheceu em Sobre o Céu e a Terra (Companhia das Letras, 2013) o papel da propriedade privada, mas disse que ela carrega consigo "a obrigação de socializá-la em parâmetros justos".

Ele observou que a Igreja não é apenas contra o comunismo, mas também contra "o liberalismo econômico de hoje, selvagem". (...)

A sua crítica ao sistema capitalista não é apenas econômica e política; é também teológica, porque "ele domestica a religião para que não incomode tanto". Ele fomenta um espírito mundano que esquece que "um ato de adoração a Deus significa submeter-se à Sua vontade, à Sua justiça, à Sua lei, à Sua inspiração profética". O capitalismo, escreve ele, promove "uma civilização do consumismo, do hedonismo, do acordo político entre as potências ou sectores políticos, o reino do dinheiro".

Mas as suas palavras mais fortes aparecem na crítica ao tratamento dado pelo capitalismo aos trabalhadores: "Não há pior desapropriação", escreveu, "do que não poder ganhar o próprio pão, do que não ter a dignidade do trabalho". O que degrada o pobre, escreveu, "é não ter esse óleo que o unge de dignidade: o trabalho". Ele elogia sacerdotes, que, imitando Dom Bosco, ajudam as crianças nas favelas a se tornarem eletricistas, cozinheiras, alfaiates etc.

Em seu livro, Bergoglio também condena a fuga de capitais dos países em desenvolvimento: "O dinheiro também tem pátria, e aquele que explora uma indústria no país e leva embora o dinheiro para guardá-lo fora está pecando. Porque não honra com esse dinheiro o país que lhe dá a riqueza, o povo que trabalha para gerar essa riqueza".

De fato, ele tem sérios problemas com a globalização. Como arcebispo de Buenos Aires, ele aprovou uma "verdadeira globalização", em que "todos estão integrados, mas cada ator mantém as suas particularidades, que, ao mesmo tempo, enriquecem os outros". Mas uma globalização que torne tudo uniforme não é humana, mas "essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal. Em última instância, é uma maneira de escravizar os povos".

John Allen informou antes do conclave que Bergoglio havia se tornado uma voz da consciência e "um símbolo poderoso dos custos que a globalização pode impor sobre os pobres do mundo", devido ao papel de liderança que ele desempenhou durante a crise econômica argentina.

Mais recentemente, na sua homilia e na sua audiência semanal das quartas-feiras, na Festa de São José Operário, ele foi ainda mais duro na sua crítica. Quando ele ficou sabendo que os trabalhadores mortos no desastre da fábrica têxtil de Bangladesh recebiam apenas 38 euros por mês, ele chamou isso de "trabalho escravo".

Ele disse: "Não pagar um salário justo, não dar trabalho, só porque alguém está pensando nos resultados financeiros, no orçamento da empresa, em buscar apenas lucro, isso vai contra Deus". Ele criticou que "as pessoas são menos importantes do que as coisas que dão lucro para aqueles que têm o poder político, social, econômico".

Voltando ao tema do desemprego, ele observou que é "muitas vezes causado por uma concepção economicista da sociedade, que busca o lucro egoísta, fora dos parâmetros da justiça social". Ele pediu que os "responsáveis pela coisa pública façam todo o esforço para dar um novo impulso ao emprego".

"Quando a sociedade é organizada de tal forma que nem todos tem a possibilidade de trabalhar (…), essa sociedade não vai bem: não é justa! Vai contra o próprio Deus".

Ecoando os ensinamentos de João Paulo II e de Bento XVI, Francisco disse que o trabalho nos dá "a capacidade de manter a nós mesmos, a nossa família, de contribuir com o crescimento da nossa nação".

Mas o trabalho, para o Papa Francisco, é muito mais. Ele nos faz semelhantes a Deus, que trabalha na criação. Ele cita o Gênesis, em que Deus confia ao homem e à mulher "a tarefa de encher a terra e subjugá-la". Mas, como bom ambientalista, ele explica que isso "não significa explorá-la, mas sim cultivá-la e protegê-la, cuidá-la com a própria obra (cf. Gn 1, 28; 2, 15). O trabalho faz parte do plano de amor de Deus; nós somos chamados a cultivar e a cuidar de todos os bens da criação e, desse modo, participamos da obra da criação!".

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