As duas crises. Artigo de Raniero La Valle

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08 Março 2013

Duas crises - política e eclesial - se reconjugaram e explodiram no esmorecimento da Europa pelo êxito das eleições italianas e na retirada do papa do seu ofício, casualmente coincidentes, mas que ressoaram juntos como grito poderoso, quase de último aviso, e como convite a mudar de caminho antes que seja tarde demais.

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano. O artigo foi publicado na revista Rocca, n.6, 15-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com grande força simbólica, em fevereiro deste ano da graça de 2013, irromperam contemporaneamente na cena pública as duas crises epocais que o catolicismo crítica havia identificado e denunciado nos anos 1940, no fim da Segunda Guerra Mundial: a catastroficidade da situação política e a criticidade da situação eclesial, duas crises especulares e que se alimentam reciprocamente.

A primeira se manifestava no fato de que, no nazismo, na guerra e em Hiroshima, havia se concluído tragicamente todo o ciclo cultural e político do Ocidente. A segunda era expressa pela dramática interrogação do arcebispo de Paris, cardeal Suhard, traduzido na Itália pela associação Corsia dei Servi e pela revista Cronache Sociali, sob o título "Agonia da Igreja?".

Foi sobretudo Giuseppe Dossetti que, sobre esse duplo diagnóstico de situação crítica da sociedade e da Igreja, falou com espírito de profecia e sistematizou todas as suas escolhas e a sua vida, da Constituinte ao Concílio, passando pela escolha monástica na Palestina, pelos Comitês para a Constituição.

A essas duas crises catastróficas foram opostos no século XX dois poderosos antídotos: o primeiro foi o constitucionalismo, os direitos humanos e o repúdio à guerra; o segundo foi o Concílio. Antídotos, não soluções. Teria sido necessário, para sair da crise, que o novo pensamento político e jurídico, e a novidade do Concílio prosseguissem, e não fossem abalados, interrompidos, mas realmente realizados. Não foi assim.

As esperanças políticas foram subvertidas pelo delírio de poder do capitalismo financeiro vencedor global após a "queda" do Muro de 1989; as eclesiais, pela interdição que, sob várias formas – hermenêuticas e de governo – o Concílio sofreu na sua implementação, pela chantagem dos tradicionalistas que chegaram até o cisma e pelas contradições e os medos da cúpula eclesiástica provenientes quase sempre daquela que havia sido a minoria conciliar.

Assim, as duas crises se reconjugaram e explodiram no esmorecimento da Europa pelo êxito das eleições italianas e na retirada do papa do seu ofício, casualmente coincidentes, mas que ressoaram juntos como grito poderoso, quase de último aviso, e como convite a mudar de caminho antes que seja tarde demais.

Nem tudo, de fato, está perdido. A crise de um sistema institucional, político e financeiro não é, de fato, o fim da civilização, não é a falta dos recursos humanos, não é a perda da inventividade e da força de mudança de eleitorados, povos, classes empobrecidas e jovens expropriados de futuro.

A crise do papado não é a crise da Igreja, que, contudo, até agora, tem se estendido sobre a sua suplência para todas as coisas, em uma subsidiariedade invertida; e a crise da Igreja, "governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele" também não é a crise da única Igreja de Cristo que, como diz a Lumen Gentium do Concílio, nela "subsiste" sem nela se exaurir. A poeira que Bento XVI (que ainda não havia se tornado "emérito") tinha visto se adensar diante do seu rosto, ou até mesmo a sua "sujeira" – termo brusco que, em italiano, tem um sabor moralista e impiedoso que talvez em alemão não o tenha –, além das divisões do corpo eclesial e o servir-se de Deus para fins de dinheiro e de poder são chagas de uma Igreja "neste mundo constituída e organizada como sociedade", não são refutações da "una, santa, católica e apostólica Igreja" professada no Credo.

A explosão contemporânea dessas duas crises é salutar se, para além das manifestações exteriores (as praças cheias de Grillo e a sacada vazia de São Pedro), vai-se ao encontro das realidade das quais elas são símbolo: a afasia da política institucional, há muito tempo incapaz de palavras e gestos da vida, e o silêncio de uma Igreja que, depois do Concílio, perdeu o seu encontro com o mundo.

Essas duas estranhezas, da política e da Igreja, colocaram as pessoas em uma condição de exílio, sem uma terra onde ficar: faltaram pontos de referência, objetivos políticos, laços sociais, éticas compartilhadas, esperança teologais e oração, e há a necessidade de que esse pano de fundo se reconstitua.

Se agora, descompaginando o sistema político, os resultados eleitorais produzirão uma mudança real na prática da democracia, nas relações parlamentares e no serviço do Estado, eles poderão ser considerados excelentes. Se, retirando-se da modernidade, como Jacques Le Goff interpreta a sua renúncia, Bento XVI fará desaparecer a renovada contradição acendida no seu pontificado entre a Igreja e uma modernidade rotulada como relativismo, esse retirar-se terá sido positivo. E se retomará a construção de uma comunidade democrática das nações. E, se o Concílio retomar o caminho da sua recepção na Igreja, se poderá reconstruir um traçado de esperança.

Isso é possível hoje porque a crise se abate não sobre abortos, mas sobre pessoas vivas em cujas mãos Deus "pôs os seus conselhos" e tornou capazes de agir com sabedoria em um momento em que "está em perigo o futuro do mundo" (Gaudium et Spes). Com a política, com o direito e com a fé.

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