Do Gênesis a Saint-Exupéry, milhares de vozes para uma meditação

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26 Fevereiro 2013

Os Exercícios Espirituais que o cardeal Gianfranco Ravasi pregou entre os dias 17 e 23 de fevereiro ao Papa Bento XVI estão carregados de significado. Acima de tudo, representam cronologicamente um dos últimos eventos de um pontificado que dará trabalho aos historiadores; em segundo lugar entram com força no nosso tempo. Ou, se você quiser, nos problemas que estão nos sufocando: por isso, soa forte o convite do purpurado a "desenterrar" a voz de Deus que muitas vezes é fraca em nós.

A reportagem é de Armando Torno, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ravasi, entre as inúmeras solicitações que se adensam nas páginas de O Encontro – o livro que reúne justamente os seus textos para os Exercícios e que será publicado pela editora Mondadori – convida, dentre outras coisas, a uma nova reflexão sobre a oração, a "reencontrar-se" nela, nos seus silêncios, nas sutis e fascinantes nuances que ela gera.

"A oração é uma arte, um exercício de beleza, de libertação interior; é compromisso rigoroso, mas também voo leve e livre da alma rumo a Deus. É ascese e ascensão."

Ascese: palavra que a muitos suscita uma espécie de suspeita. O purpurado, no entanto, a entende como caminho do nosso espírito rumo ao mistério ou, melhor, a Deus, do qual a oração manifesta os perfis que a fé consegue revelar.

A ascensão, ao invés, nos leva a intuir como a luz resplandecente do rosto de Deus iluminará as características do rosto humano. Em suma, divino e criatura, teologia e antropologia se encontram na desesperada busca de absoluto em uma encruzilhada chamada oração.

Na interpretação do cardeal Ravasi, os versículos selecionados do Saltério se alternam com referências tiradas das culturas de todas as épocas. Que vão da literatura à filosofia, passando pela música. Basta lembrar Leopardi, que, como conhecedor atormentado dos textos gregos e latinos, identificada na meditação um remédio para a alma. Ou Kierkegaard, que compara a oração à respiração do corpo. Há também Heidegger: ele define o pensamento como uma forma de agradecimento.

Também não faltam Baudelaire, que tem a coragem de dar voz a todos os sofredores e pecadores da terra e decide lançar invocações extremas a Deus. Ou Ésquilo, que, nos Persas, deixa cair no vazio toda resposta que vem de cima, do "segredo à sombra". E ainda: Simone Weil com a sua irrenunciável Espera de Deus, ou Antoine de Saint-Exupéry, célebre sobretudo pelo Pequeno Príncipe. Continuam fulgurantes alguns dos seus versos, que se referem justamente à sua oração, em que ele recorda que, no nosso tempo, "nada falta / exceto o nó de ouro / que mantém todas as coisas juntas. / Então falta tudo".

O Encontro, centrado em Deus e no ser humano, foi subdividido em duas partes: o rosto do Altíssimo e o da sua criatura. O texto nasce de um abraço prolongado de temas bíblicos e profanos, de versículos saídos da boca de Deus e de perguntas (e respostas) que em todas as épocas a cultura se fez. Uma corrida entre duas dimensões, que também é uma odisseia para a alma em busca daquele "ponto de apoio" no universo que a ciência jamais encontrou e que é possível identificar através da fé.

Exercícios, portanto, que descem à história e sobem para a dimensão onde o tempo não existe, nos quais Agostinho se alterna com versículos bíblicos, Borges a Paulo VI, que confiou o Salmo 8 aos astronautas norte-americanos para que o pousassem sobre os lábios lunares, Pirandello a Dostoiévski. Sim, Dostoiévski: os seus romances – chamados impropriamente dessa forma; na realidade, trata-se de diálogos filosóficos – são, por sua vez, exercícios espirituais para a pessoa que mendiga certezas. Escreve ele em Demônios: "Se há um Deus que me ama, eu também sou imortal!".

Ravasi reúne as milhares de solicitações que vêm de muitos autores e as coloca ao lado de uma passagem tirada dos profetas ou do Gênesis, do Evangelho de João ou do Apocalipse. Pergunta algo também a Nietzsche. Os Exercícios avançaram até ele para buscar aquilo que nós não hesitamos em definir como um novo "meditar": verbo que nos textos bíblicos é hgh, literalmente um "murmurar" dos lábios.

Inácio de Loyola ensinou ao mundo moderno essa prática ou, melhor, idealizou a primeira verdadeira academia para o espírito. Os filólogos se debruçam sobre os textos para demonstrar que é possível remontar até Eutímio, o Grande (falecido na Palestina em 473) e tentam recolher as provas, examinando até nos detalhes desde a vida que a ele dedicou Cirilo de Citópolis, mas se poderia retroceder ainda mais no tempo e interrogar estoicos romanos ou sábios gregos para descobrir algo que se assemelhe a eles.

Pierre Hadot, em Exercícios Espirituais e filosofia antiga, reconstrói a história de um sistema de práticas que formavam as almas ao invés de instruí-las, através de um trabalho sobre si mesmo que envolvia pensamento, imaginação, sensibilidade e vontade. Ravasi recorda com esse livro que os Exercícios Espirituais não têm fronteiras, e o seu objetivo é ajudar o ser humano contemporâneo a "reencontrar-se em oração", para sentir novamente a presença de Deus.

A antiga expressão "salvar a alma" deveria ser hoje atualizada para "deve-se informar a alma". Sobre o quê? Sobre o fato de que Deus se revelou. A indiferença e a superficialidade são a nossa condenação.

Inácio os entendia como "diversos modos de a pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas. E, depois de tirar estas, buscar e encontrar a vontade divina na disposição de sua vida". Um cardeal, que, além de ser um conhecido biblista, é um formidável comunicador escreveu o último capítulo desse livro aberto. Diante do papa. Antes de entrar em um conclave entre os mais singulares da história.

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