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18 Janeiro 2013

Ao final da minha leitura de O Evangelho à Luz da Psicanálise, de Françoise Dolto, republicado depois de cerca de trinta anos por uma nova pequena casa editorial de Milão, et al./Edições, eu pensei: “eis aqui uma joia!”.

A análise é do psicanalista e ensaísta italiano Massimo Recalcati, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 14-01-2013. A tradução é de Anete Amorim Pezzini.

Eis o texto.

Diversas razões suscitaram o meu entusiasmo. A primeira é sua autora: Françoise Dolto (1). Amiga e aluna de Jacques Lacan, originalíssima psicanalista com uma propensão especial para cuidar de crianças, profundamente interessada nos processos de humanização da vida e nos principais polos desde o desenvolvimento psicológico do sujeito (infância e adolescência), até as angústias e a responsabilidade que afetam os pais, mas também atenta às transformações da vida coletiva e aos virtuosismos do desejo e à sua decadência feminina, Dolto não se refugiou jamais em uma linguagem esotérica ou especializada, mas sempre procurou fazer com que o próprio pensamento fosse transmissível. A sua originalidade no mundo da psicanálise é constituída também pelo fato de que não escondeu jamais a sua fé cristã e a sua militância católica. Fato raro para um psicanalista que recorreu aos ensinamentos de Freud, embora tomada por Lacan. Para o Pai da Psicanálise, de fato, o homem religioso está cego por uma ilusão narcisista.

A partir de Freud — talvez com a única exceção significativa de Lacan —, a tradição psicanalítica sustentou compactamente a ideia da religião como “neurose” ou, até mesmo, como “delírio da humanidade”. O homem religioso é o homem que recusa a responsabilidade de enfrentar as asperezas reais da vida, para refugiar-se na crença ilusória de um “mundo por trás do mundo” – como diria Nietzsche —, regredindo ao estado de um menino que transfere para Deus todos esses traços de infalibilidade e de perfeição que antes atribuía ao próprio pai. Em relação a esse esquema, Dolto representa uma importante alternativa.

Essa é a segunda razão do meu entusiasmo de leitor. Dolto não entra jamais no mérito de uma defesa de atribuição da religião contra a psicanálise. Ela pensa e raciocina como psicanalista interessada não tanto pelo fenômeno do homem religioso ou pela crença religiosa — interesse que, contrariamente, atraiu o pensamento de Freud —, mas pela leitura direta dos Evangelhos. O seu discurso vira-se, assim, para uma psicanálise do sentimento religioso, em geral, da palavra de Jesus. A leitura dos Evangelhos vem descrita como “uma onda de choque” que faz uma confusão da nossa representação comum da realidade. Dolto coloca firmemente a ênfase em Jesus como o mestre do desejo: “Jesus ensina o desejo e arrasta para ele”, para o que Dolto define provocativamente como “uma nova economia de egoísmo”. O que isso significa? Jesus ensina-nos a não ter medo de aceitar o poder e a transcendência do desejo que habita em nós e que impulsiona a vida humana além do campo animal da satisfação das necessidades. O egoísta não é quem segue fielmente a chamada de seu desejo, mas aquele que pretende que os outros se conformem ao seu. Aqueles que, ao contrário, seguem firmemente o chamamento do próprio desejo, como o faz, na iminência da fraude, o fator desonesto, contado em uma parábola de Lucas, o Evangelista, não é um egoísta no sentido depreciativo, mas alguém que sabe fazer a sua vida geradora. Por isso, Dolto vê no completamento cristão da Lei Hebraica uma subversão radical da relação entre Lei e desejo. A forma mais alta e libertadora das Leis não entra em conflito repressivo com o desejo, porque coincide, na realidade, com o próprio desejo.

Nesse sentido Jesus ensina o desejo, ensina a não desistir do próprio desejo. Como é libertadora essa versão da palavra de Jesus a respeito da sua redução a uma advertência moral! Eis agora a última razão — a decisiva — pela qual a leitura desse livro-joia me entusiasmou. É o modo como Dolto derruba as interpretações mais canônicas das parábolas, aplicando a arte do analista às próprias palavras de Jesus. Tomemos como exemplo aquela passagem, conhecida por todos, a do bom samaritano. A interpretação catequista a reduz ao fato de que todos nós devemos dedicar tempo a quem jaz indefeso e ferido ao longo de nosso caminho, ao nosso próximo mais desafortunado. Dolto, ao contrário, identifica o próximo não como o desventurado que pede a ajuda, mas com quem oferece abnegadamente a sua ajuda. Surpreendente!

O próximo é o bom samaritano! E é por isso, e é por como nos tem socorrido e doado o seu tempo sem exigir reconhecimento algum nem fazer-nos sentir em débito que precisa amá-lo, amar o samaritano como nosso próximo. Por essa razão, o amor cristão não tem nada de consolador, não é um refúgio ilusório, não é uma negação do caráter tenso do real. O amor em Jesus é — como acontece no encontro com o Bom Samaritano — uma força que nos sacode e que traz consigo a necessidade da lágrima e da separação. Na célebre parábola do filho pródigo, entre os dois irmãos, o pecado maior — o único que conta — foi feito por aqueles que esperavam que a hereditariedade fosse simplesmente uma questão de clonagem, de fidelidade passiva ao passado. O filho que permanece ao lado do pai é o filho em pecado, porque não aceita a Lei do desejo que é a Lei da separação. Jesus é a encarnação pura dessa força separadora (“Não vim trazer a paz, mas a espada!”).

Muitas das parábolas comentadas por Dolto colocam o dedo na ferida, mostrando o risco que os laços familiares deslizam para um laço incestuoso que impede o desenvolvimento pleno da vida. É esse o caso dos contos de ressurreições, como o do filho da viúva de Naim, da filha de Jairo, ou do próprio Lázaro. A palavra de Jesus desperta da morte, porque arranca a vida das ligações mortíferas que não a fazem acessar o poder gerador do desejo. “Vem para fora!” — o grito de Jesus dirigido a Lázaro — deve ser tomado com um novo imperativo categórico que entrega a vida humana à lei do desejo. “Vem para fora!” significa não ficar no repouso incestuoso, não evitar o risco de perda, não delegar o teu desejo àquele Outro não perder a sua vocação mais singular.

É essa a face de Jesus retratada por Dolto que derruba outro lugar-comum que queria liquidar a verdade do cristianismo como um evitamento do encontro com o real (a morte, o sexo, a doença, a ansiedade etc.). A leitura de Dolto inverte também essa tendência, mostrando como o real jorra exatamente do encontro com a palavra de Jesus, porque essa palavra impulsiona cada um de nós a assumir a Lei do próprio desejo. Jesus não deseja proteger a vida das queimaduras da realidade, não se oferece como abrigo consolador, nem ao menos pretende guiar as nossas vidas. Ele é a encarnação da Lei do desejo, não o guia, mas nos atrai para si.

É o motivo do desejo e não emissário de uma Lei sádica, que oprime o desejo.

Nota:

1.- Françoise Dolto (1908-1988): médica e psicanalista francesa, defendeu tese em Medicina sobre o tema das relações entre a psicanálise e a pediatria. Em 1938, conhece Jacques Lacan, que acompanhou ao longo da sua carreira de psicanalista. Durante 40 anos, Lacan e Dolto seriam o casal "parental" para gerações de psicanalistas franceses. Publicou diversos livros, todos eles ligados à psicanálise de crianças e adolescentes e fez vários estudos e tratamentos longitudinais de adolescentes com problemas. Entre suas obras citamos Psicanálise e pediatria: as grandes noções da psicanálise; Como educar os nossos filhos: compreensão e comunicação entre pais e filhos; Transtornos na infância: reflexões sobre os problemas psicológicos e emocionais mais comuns na criança; e o polêmico A Psicanálise dos Evangelhos. (Nota da IHU On-Line).

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