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11 Janeiro 2013

Uma coisa é certa: os autores do Novo Testamento não conhecem a Jesus de Nazaré. As únicas fontes que eles têm são as orais e fortemente influenciadas pelo pensamento teológico cristão. É preciso prestar atenção para historiar e materializar os eventos narrados. O objetivo dos autores bíblicos é de testemunhar a sua fé no Cristo Ressuscitado.

A reflexão é de Raymond Gravel (+1952-2014), padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do Domingo do Batismo do Senhor. A tradução é de Susana Rocca.

Referências bíblicas:
1a leitura: Is 40,1-11
2a leitura: Tt 2,11-14: 3,4-7
Evangelho: Lc 3,15-16.21-22

Eis o texto.

Neste trecho sobre o batismo de Jesus, Lucas é o único que utiliza a fórmula seguinte: “Tu és o meu Filho amado! Em ti encontro o meu agrado" (Lc 3,22). De onde vem essa fórmula? Ela vem do Salmo 2,7; era uma fórmula que se utilizava no momento de consagrar um rei em Israel. O que quer dizer que para Lucas, no batismo, Jesus devia ser rei. Ele foi gerado por Deus e adotado como seu Filho amado. Mas não foi em Natal que Jesus nasceu de Deus? Como pode ser que aqui, no seu batismo, no início da sua vida pública, entorno dos trinta anos de idade, Lucas pareceria querer dizer que foi lá que Jesus foi gerado por Deus?

É evidente que o texto de Lucas é teológico, sendo escrito depois da Páscoa e dentro da fé cristã. Com certeza, Jesus foi batizado por João Batista que pregava um batismo de conversão. Mas o batismo de João é diferente daquele de Jesus: “Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Com João Batista é o anúncio de um mundo novo, com Jesus é a realização desse mundo novo: A pomba faz referência à primeira criação do mundo quando o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2) e à segunda criação do mundo, após o dilúvio, quando a pomba voltou à arca com um ramo de oliveira no bico (Gn 8,11). E o céu que se abre nos diz que nós entramos nesse mundo novo, pois depois de séculos o céu se fechou e Deus não falou mais aos homens como o fazia nos tempos dos profetas.

A narrativa do batismo de Jesus, no evangelho de Lucas, esclarece dois pontos importantes: Jesus foi batizado por João, como todo o povo com o qual ele é e quer ser solidário. Mas uma grande novidade é, ao mesmo tempo, manifestada. O céu se abre; na Bíblia isso significa que Deus se comunica com a terra. O Espírito, sob forma de pomba, nos fala da entronização de Jesus como rei e como Messias de Deus. Ao mesmo tempo, esse relato de Lucas nos diz algo sobre nós cristãos: O batismo de Jesus é também o nosso: no nosso batismo, somos submergidos na morte de Cristo para ressuscitar com ele. E como ele, nós somos filhos e filhas de Deus, gerados por Deus. O batismo de Jesus é feito de água, de conversão, mas também de fogo (isso faz referência ao Pentecostes quando o Espírito Santo nos deu e nos confirmou como filhos e filhas de Deus).

O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “‘Tu és meu Filho: eu hoje te gerei....’ Estranha via do alto que abre o céu e desce como um Pentecostes, pois é uma pomba que vê os olhares do coração. Jesus deve estar com uns trinta anos. Então, por que o Pai do céu lhe fala de ser gerado hoje?”.

O evento material-histórico da morte de Jesus de Nazaré, no dia 6 ou 7 de abril do ano 30, em Jerusalém, é a base dos escritos do Novo Testamento. Os autores não nos contam a história do Nazareno que eles não conheciam, mas a história do Cristo da Igreja primitiva na sua diversidade: as comunidades cristãs de Paulo, de Marcos, de Mateus, de Lucas, de João e dos autores do Novo Testamento. Seus relatos são Palavra de Deus, pois eles têm por finalidade testemunhar a fé na Ressurreição de Cristo, nos contextos dados, em momentos e em lugares precisos da história. É por isso que não se fala da historicidade dos eventos, mas sim da historialidade (historialité) (expressão do exegeta francês Pierre Grelot), para falar da releitura dos eventos e simplesmente da reconstituição dos eventos à luz da fé dos que escrevem.

Uma coisa é certa: os autores do Novo Testamento não conhecem a Jesus de Nazaré. As únicas fontes que eles têm são as orais e fortemente influenciadas pelo pensamento teológico cristão. Não é por nada que o relato mais velho, próximo da morte do Nazareno, é bem pouco preciso sobre o evento propriamente dito. São Paulo, que escreve primeiro nos anos 50, não fala nada do nascimento de Jesus, nem da sua infância e tampouco da sua mãe. Ele não se interessa mais senão na ressurreição e após a ressurreição, de maneira que, para ele, Jesus se constituiu Cristo e Senhor no momento da sua morte-ressurreição: “O Evangelho de Deus, que por Deus foi prometido através dos seus profetas nas Santas Escrituras, se refere ao Filho de Deus que, como homem, foi descendente de Davi, e, segundo o Espírito Santo, foi constituído Filho de Deus com poder, através da ressurreição dos mortos: Jesus Cristo nosso Senhor” (Rom 1,2-4).

Para São Marcos, o primeiro evangelista, pelos anos 70, ele também reconhece, como São Paulo, que a ressurreição é o momento-chave do seu evangelho, mas, ao mesmo tempo, ele vai chegar até o batismo de Jesus no Jordão, para dizer que o Espírito Santo está agindo, como no momento da ressurreição. Então, para São Marcos, Jesus se fez Filho de Deus, Cristo e Senhor, no momento do seu batismo, feito por João Batista no Jordão: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’” (Mc 1,10-11).

São Lucas e São Mateus, que escreveram entorno de 85-90, remontam a intervenção do Espírito Santo ao momento da conceição de Jesus (Mt 1,2; Lc 1-2), enquanto São João, pela sua parte, que escreve pelos 95-105, fala de Jesus, o Verbo de Deus, que ele preexistiu antes da criação do mundo desta forma: “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus“ (Jo 1,1). E mais ainda, porque São João fala que nós, os cristãos, fomos criados da mesma forma que o Verbo: “Ela, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberam, isto é, àqueles que acreditam no seu nome. Estes não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus (Jo 1,12-13).

Vemos claramente que tudo é teologia; é preciso prestar atenção para historiar e materializar os eventos narrados. O objetivo dos autores bíblicos é de testemunhar a sua fé no Cristo Ressuscitado.

Para terminar, gostaria de citar um velho comentário de um professor universitário, Maurice Boutin, publicado na revista Communauté chrétienne, n. 122, 1982: “O texto bíblico é perigoso mais do que subversivo; sobretudo se ele se identifica totalmente com a Palavra de Deus... Pode ser que os cristãos façam da Palavra de Deus exatamente o que os adversários de Jesus fizeram dele: identificar a tal ponto a Bíblia com a Palavra de Deus, que Jesus toma a figura de um intruso a ser eliminado, ou que seria supérfluo se perguntar ainda quando e como a Palavra de Deus acontece, porque ela estaria presa na gaiola dourada do texto bíblico? Identificar a Bíblia com a Palavra de Deus é tentar possuir Deus e tirar proveito da Palavra de Deus para os seus próprios interesses. Mas um Deus possuído não é mais que um ídolo, e uma Palavra de Deus que se torna disponível a todas as causas, mais ou menos nobres, é apenas um palavreado. O texto reporta a outra coisa, fora dele mesmo; não algo que chamaríamos Deus, mas um novo texto a ser escrito, isto é sua culpa...”. Eu acrescentaria: É o que nós devemos fazer nas nossas homilias para que a Palavra de Deus chegue a todos hoje...

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