A volta do ateísmo? Artigo de Giannino Piana

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24 Julho 2013

A rejeição das religiões não está ligado apenas à consideração dos crimes por elas cometidos ao longo da história. Investe, de forma mais radical, contra o fenômeno religioso como tal, que é considerado como uma forma de mistificação da realidade, com resultados gravemente contraproducentes (e regressivos) para o gênero humano.

A análise é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas. O artigo foi publicado na revista Rocca, n. 14, 15-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O integralismo não é apenas uma prerrogativa de grupos que se inspiram na tradição das grandes religiões, particularmente daquelas que descendem da cepa abraâmica comum (cristianismo e islamismo em primeiro lugar). É também uma atitude (e um comportamento) que caracterizou (e caracteriza) o mundo laicista e que se apresenta dentro dele com conotações formalmente muito semelhantes (embora com conteúdos de sinal diametralmente oposto) aos próprios do mundo religioso. Trata-se de uma forma de clericalismo invertido, que reage aos absolutismos clericais com a mesma determinação e absolutez.

O século XIX e o início do século XX conheceram, a esse respeito, momentos de particular intensidade, com a afirmação, em particular, do positivismo cientificista, que permeou por si só, desde o nascimento, as ciências humanas, empurrando-as para formas de ateísmo radical. Basta lembrar aqui os "mestres da suspeita" (assim definidos por Paul Ricoeur) – Marx, Freud e Nietzsche (aos quais é necessário acrescentar Darwin) – que exerceram um papel de primeiro plano na crítica da religião.

A batalha contra o fenômeno religioso adquiria, desse modo, um caráter científico, enquanto se desenvolvia paralelamente (ao menos até as primeiras décadas da segunda metade do século passado) uma forma de ateísmo militante, particularmente vulgar – pense-se apenas (para permanecer na Itália) na revista Asino di Podrecca – que visava à difamação do fato religioso, refutando as suas afirmações e ridicularizando as suas manifestações.

As religiões sob processo

Esse processo, no entanto, parecia sofrer um revés com o avanço do fenômeno da secularização, que, a partir dos anos 1960, se transformou de fenômeno elitista a fenômeno de massa. O resultado não podia deixar de ser – era essa a opinião de muitos especialistas em sociologia religiosa – o acantonamento da religião em geral (e da cristã em particular), que não precisa mais ser combatida, tendo-se tornado totalmente irrelevante.

A mentalidade secular, alimentada pela mídia, de fato, é caracterizada por uma visão do ser humano e do mundo que prescinde de qualquer referência religiosa. O que é exaltada é a autonomia das ordens mundanas como reação a formas indevidas de sacralização, que por muito tempo tinham assujeitado o ser humano a uma ordem transcendente, destituindo-o, de fato, da sua própria responsabilidade histórica.

No entanto, apesar dessas premissas, o ateísmo militante não desapareceu, ao contrário, parece ter quase sido tomado, na primeira década do novo milênio, por uma vingança radical. O que contribuiu no favorecimento do seu relançamento, certamente, foi o trágico episódio da queda das torres gêmeas em Nova York no dia 11 de setembro de 2001. A justa execração do que ocorreu – uma horrível carnificina com alguns milhares de mortos, com o acréscimo de um golpe mortal infligido contra a credibilidade dos sistemas de segurança norte-americanos – desembocou, nos Estados Unidos, em uma campanha de difamação contra a religião islâmica, considerada responsável, em razão do seu fanatismo, pelo ato criminoso.

A revolta, no entanto, não se limitou apenas ao Islã, mas acabou envolvendo todo o mundo das religiões, como se pôde inferir do texto que se tornou um best-seller de Sam Harris, The End of Faith, que o autor começou (como ele relata) no dia mesmo do colapso e que representa um ato de acusação contra todas as religiões que são definidas como "absolutamente prejudiciais" à humanidade.

Desde então – e especialmente nos anos de 2004 a 2009 – foi desenfornada uma grande série de textos que retomam a tese de Harris, enriquecendo-a de vez em quando com a lista das bem conhecidas (e, na verdade, não injustificadas) acusações movidas contra as religiões em geral (e a algumas em particular), como a responsabilidade por ter alimentado (e por alimentar) a violência, por perpetuar a sujeição da mulher, por constituir um freio ao progresso, especialmente no âmbito das questões referentes à esfera da bioética e o reconhecimento dos direitos civis, por contribuir para marginalizar categorias inteiras de pessoas – pense-se particularmente nos homossexuais – e assim por diante.

Também são conhecidos por nós, a propósito, por causa da ressonância editorial que tiveram (graças à tradução em língua italiana), livros como Quebrar o feitiço, de Daniel Dennett, e Deus não é grande, de Christopher Hitchens. Mas a palma de ouro de corifeu do desmantelamento das razões da religião talvez deva ser atribuída a Richard Dawkins, que, além de ser o autor de um livro de sucesso de título emblemático Deus, um delírio, também inaugurou em 2009 uma campanha publicitária de grande difusão popular, que desembarcou nos ônibus norte-americanos, sob a insígnia do slogan "Provavelmente Deus não existe, então pare de se preocupar e aproveite a vida".

Assiste-se, assim, a incursões nos Estados Unidos de uma agressão antirreligiosa por parte de uma ampla e aguerrida gama de "missionários", cuja ação não se contenta em denegrir os conteúdos doutrinais e as práticas religiosas das diversas religiões, mas direciona as suas próprias flechas também contra todos aqueles – agnósticos ou ateus mornos – que, mesmo professando publicamente o seu distanciamento da religião, manifestam respeito por aqueles que aderem às crenças religiosas.

A rejeição das religiões não está ligado, portanto, apenas à consideração dos crimes por elas cometidos ao longo da história (e em alguns casos ainda em curso); investe, de forma mais radical, contra o fenômeno religioso como tal, que é considerado como uma forma de mistificação da realidade, com resultados gravemente contraproducentes (e regressivos) para o gênero humano. O já citado Richard Dawkins, por exemplo, denuncia abertamente a "idiotice total" da fé e, por isso, a exigência do seu radical repúdio "não só por ser falsa, mas sobretudo porque é um mal em si mesma".

A rejeição da "teologia política"

Essa luta sem quartel contra o fenômeno religioso como tal não se reduz, no entanto, unicamente ao âmbito da sociedade norte-americana. A Itália também conheceu nas últimas décadas (e ainda conhece) a presença de abcessos de ateísmo militante de extração positivista – pense-se apenas em Piergiorgio Odifreddi ou em alguns expoentes da bioética "laica" – que olha com desconfiança para toda referência religiosa, julgando-a aprioristicamente como anacrônica e, principalmente, como anticientífica.

Os estereótipos, que nesses casos são geralmente evocados, apoiam-se em uma visão da realidade em que são preconceituosamente excluídas questões como as da verdade e do sentido, que constituem, contudo, o pressuposto fundamental de grande parte da reflexão filosófica de todos os tempos.

Nesse contexto, também se insere o recente livro de Rosario Esposito, Due. La macchina della teologia politica e il posto del pensiero (Ed. Einaudi, 2012), no qual se coloca radicalmente sob processo o conceito de "teologia política", considerado como uma categoria portadora (e desviante) da cultura ocidental, um paradigma que marcou profundamente em si mesma a interpretação da realidade (com particular referência à atividade humana no mundo), até determinar negativamente toda a evolução da civilização do Ocidente.

Como prova da persistência e da pervasividade desse conceito, que se tornou uma forma imprescindível de pensar, Esposito sublinhava, em uma entrevista recente concedida ao jornal La Repubblica, como as mesmas categorias de secularização, de desencanto, de relativismo e de ateísmo, através das quais se tende a expressar a emancipação do ser humano do discurso religioso, não são, na realidade, nada mais do que conceitos teológicos negativos ou invertidos, que são afetados, portanto, da dependência da sua origem religiosa.

Sem falar, depois, no conceito de "paternidade", retirado diretamente da paternidade divina, que se tornou o modelo principal no qual se inspirou (e ainda se inspira, em parte) a ação política e que se traduz em uma forma verticalista de entender e de exercer o poder, que tem pouco a ver com as dinâmicas da democracia, cujo pilar portador deveria ser, ao invés, o conceito de "fraternidade". A crítica de Esposito apenas retoma, além disso, dando a ela plena justificação através da indicação de algumas referências significativas, a tese formulada a seu tempo por Carlo Schmitt, segundo a qual "todos os conceitos políticos são conceitos teológicos secularizados".

A contestação do fenômeno religioso e da sua incidência negativa sobre a condução da vida coletiva atinge aqui o nível mais radical. De fato, o que é posto sob processo é o papel determinante da tradição cristã na elaboração da cultura (e da linguagem) do mundo ocidental, um papel que, aliás, não pode ser cancelado sem que se proceda ao cancelamento de uma parte relevantes das estruturas básicas, principalmente de valores, próprias da história do Ocidente.

Qual julgamento?

A radicalidade dessas posições, caracterizadas por acentos dogmáticos e por motivações sectárias, mais do que pelo recurso a argumentações sérias de caráter racional, fez com que John Gray, aluno de Isaiah Berlin, dissesse que a atual pregação da incredulidade, paradoxalmente, tem uma marca religiosa.

O forte senso de ressentimento que surge nos escritos dos "novos ateus" – como são definidos às vezes – não pode deixar de estimular naqueles que creem um severo exame de consciência acerca das razões que produziram tais formas de reação e de rejeição.

Sem dúvida, as religiões, não excluindo a cristã, foram (e são) responsáveis por erros (e por culpas) das quais devem se encarregar, pedindo perdão publicamente aos seres humanos. E isso não é só com relação ao que ocorreu em épocas distantes (e obscuras), mas também com relação a fatos recentes: pense-se apenas, para permanecer no âmbito da Igreja Católica, no episódio dos padres pedófilos ou, embora sob uma perspectiva diferente, da confusão provocada em muitos – crentes ou não – pela atitude de forte hostilidade por ela assumida contra algumas batalhas civis – a do reconhecimento dos casais de fato (particularmente homossexuais) em primeiro lugar – ou contra questões levantadas pelas novas fronteiras abertas pelos desenvolvimentos da tecnologia em campo biomédico.

Tudo isso não justifica, no entanto (e não pode justificar), a dureza das intervenções, muitas vezes totalmente gratuitas que têm um propósito meramente depreciativo e que não levam em consideração alguma a contribuição positiva que as religiões ofereceram à sociedade, alimentando a coesão social através de uma ética (além disso, nos seus elementos essenciais bastante homogênea, para além das diferenças próprias das diversas tradições religiosas) centrada no controle dos impulsos egoístas e no desenvolvimento de formas de solidariedade enraizadas em uma concepção transcendente da vida, bem como fornecendo respostas plausíveis a perguntas essenciais (e inquietantes), como as que se referem à dor e à morte, que marcam a vivência pessoal de cada um.

Assim como não justifica, por outro lado, o ataque, voltado neste caso ao cristianismo, de ter contribuído, em nome do conceito de "paternidade", para desenvolver no Ocidente formas de governo autoritárias, quando se sabe muito bem que o conceito de "fraternidade" constitui, para todos os efeitos, um dos pilares fundamentais da mensagem evangélica e que a sua fundação na paternidade de Deus apenas reforça o sentido de pertencimento comum e favorece, também no campo da vida social, formas de relação marcadas pelo reconhecimento da igualdade e da igual dignidade de cada pessoa humana, por isso, favoráveis ao desenvolvimento da democracia.

Além disso, existem laicos de grande seriedade intelectual – basta lembrar aqui, dentre outros, Massimo Cacciari – que não só reconhecem a preciosa contribuição exercida pelo cristianismo na maturação de valores fundamentais para o desenvolvimento da vida democrática – valores que ainda persistem, seja também em forma laica, como fatores essenciais para cimentar o tecido social –, mas que consideram, mais radicalmente, que a referência às raízes teológicas representa um recurso decisivo para a construção de uma sociedade ordenada e justa.

Não faltam, portanto, boas razões para sustentar, fora de qualquer pretensão apologética, que o discurso sobre as religiões é um discurso complexo, que deve ser enfrentado, por todas as partes, com rigor e honestidade, colocando em evidência com franqueza as suas sombras, mas não negligenciando as suas luzes. Não esquecendo, em outras palavras, a preciosa contribuição por elas oferecida para o amadurecimento da consciência dos indivíduos e para a enucleação de instâncias de valores que constituem uma referência indispensável para o desenvolvimento de uma madura convivência civil.

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