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Por: André | 09 Dezembro 2014

Seria preciso perdoar o observador casual que olhar o primeiro escalão do governo dos Estados Unidos e chegar à conclusão de que esse país chegou a algo parecido com a igualdade racial. O presidente Barack Obama e três de seus ministros são negros, incluindo o procurador-geral Eric Holder, de saída. A candidata de Obama para substituí-lo é Loretta Lynch, que seria a primeira mulher negra à frente do Departamento de Justiça.

A reportagem é de Tim Walker e publicada no jornal argentino Página/12, 06-12-2014. A tradução é de André Langer.

Mas, sob a superfície, a verdade é outra. Os afro-americanos constituem quase 14% da população dos Estados Unidos, mas, passados 50 anos da aprovação da Lei de Direitos Civis, apenas dois de cada 100 senadores são negros. Das empresas da lista Fortune 500, menos de 10 têm um presidente ou um diretor negro. Das 500 maiores fortunas do país, os únicos negros são Oprah Winfrey e Michael Jordan.

Em 2010, segundo o Centro Nacional da Pobreza, 27,4% dos negros vivia abaixo do nível da pobreza, comparados com 9,9% dos brancos não hispânicos. Um estudo de 2013 do Centro de Pesquisa Pew constatou que os homens negros eram seis vezes mais propensos a serem presos do que os brancos. E há também a questão que atualmente toma conta da América: a morte de vários homens negros desarmados nas mãos de policiais brancos.

É um tema que provavelmente complicará o processo de nominações de Lynch, depois que esta semana um grande jurado de Nova York se negou a processar um policial branco. O policial foi filmado em Staten Island asfixiando até a morte Eric Garner, de 43 anos de idade, desarmado e pai de seis filhos. A decisão provocou manifestações em todo o país e Lynch, que é a procuradora federal para o distrito de Nova York, ficou como responsável por uma investigação federal de direitos civis do caso.

O departamento de Justiça de Holder já está fazendo uma investigação de direitos civis nas práticas policiais em Ferguson, Missouri, após a morte de Michael Brown, de 18 anos de idade, que foi assassinado a tiros em agosto. O assassino de Brown, o oficial Darren Wilson, também foi absolvido por um grande júri na semana passada, provocando protestos em todo o país e duas noites de distúrbios violentos no subúrbio de St. Louis. As mortes de Brown e de Garner seguiram um padrão já familiar, que se repetiu em 22 de novembro em Cleveland, Ohio, quando Tamir Rice, de 12 anos, foi morto a tiros por um policial enquanto segurava uma pistola de brinquedo, e na terça-feira, em Phoenix, Arizona, quando Rumain Brisbon, de 34 anos, foi assassinado a tiros por um policial que acreditava que ele sacaria uma arma.

Darren Wilson escapou sem uma acusação formal, assim como o assassino de Garner, Daniel Pantaleo. George Zimmerman, um voluntário de vigilância de bairro que matou a tiros, na Flórida, em 2012, Trayvon Martin, de 17 anos e também desarmado, foi absolvido. Alguns fizeram com que os detalhes pouco claros destes casos dissimulassem o fato contundente de que os jovens negros são desproporcionalmente vítimas da violência armada, e em particular da polícia. Um relatório recente do ProPublica diz que entre 2010 e 2012 os dados federais mostraram que os homens negros de entre 15 e 19 anos morreram em tiroteios da polícia em uma porcentagem de 31,17 por milhão, quase 20 vezes mais que os brancos da mesma idade.

Um dos manifestantes pacíficos em Ferguson disse ao The Independent, na semana passada, que se sentiram abandonados pelo sistema. “Uma grande quantidade de jovens negros sente honestamente que sua vida não tem sentido, assim que, o que importa se fazem disparos entre si, jogam coisas à polícia, destroem prédios?”, disse Chris, de 34 anos, que não quis identificar seu sobrenome. Os distúrbios em Ferguson formam outro dos piores marcos na história dos direitos civis nos Estados Unidos, que demonstrou que as divisões raciais no país seguem sendo grandes e profundas. A cadeia inclui o assassinato de Martin Luther King, o Furacão Katrina, a absolvição, em 1992, dos quatro agentes brancos da polícia de Los Angeles que atacaram Rodney King, o que provocou dias de distúrbios que deixaram 55 mortos.

Entre os pontos positivos da segunda metade do século estão a eleição de Obama, em 2008. Nas primárias desse ano, Obama fez um célebre discurso em Filadélfia, no qual disse: “Na realidade, nós nunca abordamos as complexidades de raça em nosso país”. E acrescentou: “Nunca fui tão ingênuo a ponto de acreditar que podemos superar as nossas divisões raciais em um único ciclo eleitoral ou com uma única candidatura”.

Mas sua vitória alimentou as esperanças dos progressistas de poder propor uma sociedade pós-racial, o que fez com que os direitistas da Fox News proclamassem o fim do racismo. O comediante negro Chris Rock, comentarista honesto e vital sobre racismo encarou o significado da presidência de Obama em uma recente entrevista à revista New York. “Dizer ‘Obama é progresso’ é dizer que ele é o primeiro negro que está qualificado para ser presidente”, disse. “Isso não é progresso negro. Isso é progresso branco. Houve gente negra qualificada para ser presidente há centenas de anos; meus filhos são inteligentes, educados, bonitos. Houve crianças negras educadas, inteligentes, bonitas durante centenas de anos. A vantagem que os meus filhos têm é que eles estão se encontrando com os brancos mais encantadores que este país jamais tenha produzido. Esperamos que siga produzindo os brancos mais encantadores”.

Isto é, talvez não seja a comunidade negra que deveria ser objeto de escrutínio, mas a branca. Nesse discurso, em Filadélfia de 2008, Obama sugeriu: “O caminho para uma união mais perfeita significa reconhecer que o que afeta a comunidade afro-americana não existe apenas na mente dos negros; que o legado da discriminação e dos atuais incidentes de discriminação – embora menos evidentes que no passado – são reais e devem ser atendidos”.

É uma mensagem que segue enviando até hoje. Falando após os distúrbios de Ferguson, Obama desafiou os responsáveis pela violência, mas acrescentou: “As frustrações que a gente tem estão enraizadas em duras verdades que é preciso abordar. O problema não é só um problema de Ferguson; trata-se de um problema dos Estados Unidos”. Foi no Twitter que se expressou muito bem, com mensagens que se converteram em virais, com nomes como #MãosParaCimaNãoDisparem e #NãoPossoRespirar, que se referem, respectivamente, à morte de Brown e de Garner. Em outro, #CometendoCrimesSendoBranco, os brancos reconheceram seus privilégios no trato com a polícia, relatando sua falta de castigo quando se veem sujeitados violando a lei.

Após a decisão de não processar o assassino de Garner, o comediante John Stewart pareceu ser a consciência dos Estados Unidos brancos, quando disse no Daily Show que “definitivamente não vivemos em uma sociedade pós-racial. E imagino que há um monte de gente que se pergunta se realmente vivemos em uma sociedade”.

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