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Por: André | 03 Dezembro 2014

“Desencadeou-se outra guerra pelo petróleo? É uma pergunta que se soma a outras guerras, a monetária, a comercial, ou outras que animam a continuidade da crise mundial do capitalismo. Em definitiva, a discussão dos anos 1970 volta em outro cenário, de agravamento da crise mundial do capitalismo, com seu capítulo energético, que impacta em múltiplos processos, sejam da agricultura, da indústria, do comércio e dos serviços, e, obviamente, no conjunto do modelo produtivo e de desenvolvimento que impacta no meio ambiente e na vida da Terra.” A reflexão é de Julio C. Gambina, economista argentino, em artigo publicado no seu blog, 29-11-2014. A tradução é de André Langer.

Julio C. Gambina é doutor em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais da UBA. É professor de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Rosario, presidente da Fundação de Pesquisas Sociais e Políticas (Fisyp) e fez parte do Comitê Diretor do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais – Clacso (2006-2012). Participa também do Conselho Acadêmico da ATTAC-Argentina e dirige o Centro de Estudos Formação da Federação Judicial Argentina.

Eis o artigo.

Em julho de 2008, o barril do petróleo chegou a 150 dólares e agora beira os 70 dólares (1), com um prognóstico instável, embora para o longo prazo a Agência Internacional de Energia (AIE) projete a recuperação dos preços e os vaivens da liderança produtiva entre os Estados Unidos e o Oriente Médio. (2).

O pano de fundo é constituído pela crise energética, dos Estados Unidos na década de 1970, que disparou os preços do petróleo e com ele o fenômeno da especulação financeira e o deliberado superendividamento dos países do Sul do mundo. Junto com esses fenômenos, desenvolveu-se o aumento da militarização mundial na disputa pelos hidrocarbonetos, pelos territórios e a dominação das populações, especialmente a partir de Washington.

A resposta estadunidense à sua crise energética (os Estados Unidos a mundializaram) foi resolvida comprando e ocupando, manipulando e tentando a dominação militar, econômica e ideológica sobre o mundo, enquanto buscava respostas para a sua crise produtiva de hidrocarbonetos, exacerbada por um aumento gigantesco do consumo energético ilimitado, convalidando o esbanjamento e a contaminação depredadora da natureza. Ao mesmo tempo, fomentou-se a agroenergia e 30% do milho estadunidense, o maior produtor mundial do setor, é destinado à produção de combustíveis, competindo com a capacidade de alimentação e associando a crise energética à crise alimentar, e junto com elas a crise ambiental.

Assim, a produção de hidrocarbonetos e de alimentos transformou-se em produção e comercialização de "commodities”, tendo como objetivo central o lucro e a acumulação, desviando a energia e os alimentos de seu sentido principal de satisfazer as necessidades sociais. De um direito a uma mercadoria como processo sem fim. Ambas as crises são a parte mais visível de um fenômeno que é social, político e cultural, estrutural e sistêmico, que só pode ser solucionado superando o capitalismo e que, claro, as classes dominantes impelem no sentido da liberalização.

A crise energética tornou-se mundial na presente crise desde 2007-8, pelo que não surpreendeu a escalada dos preços diante do pico de produção e questionamento da capacidade mundial para descobrir, explorar e apropriar reservas de hidrocarbonetos. A busca de hidrocarbonetos tornou-se mais cara, especialmente com os não convencionais (shale), que multiplicam o custo de produção em relação aos convencionais. Estes têm um custo que pode oscilar em torno dos 10 ou 20 dólares o barril, segundo informa a AIE, enquanto que aqueles podem elevar os custos acima dos 70 ou 80 dólares, em valores atuais.

São todas cifras que variam de um território a outro, de acordo com a maior ou menor dificuldade para a exploração, o que convida a pensar em que para a produção dos não convencionais há a necessidade de um fortíssimo suporte econômico-financeiro de subsídios, que só pode ser mantido pelo poder do Estado. É algo que o keynesianismo resolveu há mais de oito décadas e mesmo quando se sustenta a liberalização da economia, ninguém duvida na ordem capitalista sobre a importância da intervenção estatal para sustentar a produção de gás e de petróleo. Não existe limite ideológico para subsidiar as transnacionais do petróleo, especialmente para defender a geopolítica do imperialismo. É o que fazem os Estados Unidos e é o que ocorre em toda a geografia do mundo.

Com a exploração do shale, os hidrocarbonetos não convencionais e a fratura hidráulica (fracking), os Estados Unidos desafiaram seus limites energéticos e pretendem no curto e médio prazo resolver sua crise energética, não apenas aumentando sua produção, mas transformando-se no maior produtor mundial de petróleo em 2015, segundo o citado recente informe da AIE. O tema foi analisado há algum tempo pelo especialista mexicano John Saxe-Fernández na Revista da Fisyp (3), colocando grandes interrogações sobre o custo de produção e os gigantescos subsídios estatais para assegurar a hegemonia estadunidense desde o controle da produção do insumo estratégico por excelência.

Mas o que acontece na atualidade, com preços em baixa, dificultando a produção dos hidrocarbonetos não convencionais. O tema incita a atenção mundial e existem análises de conspirações cruzadas.

Por outro lado, os Estados Unidos, com a alta da produção associada ao amparo da elevada extração da OPEP, pretende afogar econômica e financeiramente países dependentes do ingresso de sua fatura de hidrocarbonetos; que é o caso da Rússia, da Venezuela ou do Irã. Claro que isso conspira contra sua própria estratégia associada ao shale, com custos em um novo limite para baixo do preço do cru nestas horas. Nessa estratégia poderia arrogar-se a Arábia Saudita, atualmente o maior produtor mundial, que, por outro lado, visa impedir a concorrência global dos Estados Unidos no período de 2015-2020, que, segundo a AIE, poderiam converter-se no principal produtor mundial de hidrocarbonetos. A OPEP acaba de definir a continuidade da produção de acordo com os parâmetros atuais, em acordo com a Arábia Saudita e contra as aspirações da Venezuela ou do Irã. A decisão aponta no sentido de enfraquecer os seus competidores, especialmente os Estados Unidos.

Desencadeou-se outra guerra pelo petróleo?

É uma pergunta que se soma a outras guerras, a monetária, a comercial, ou outras que animam a continuidade da crise mundial do capitalismo. Em definitiva, a discussão dos anos 1970 volta em outro cenário, de agravamento da crise mundial do capitalismo, com seu capítulo energético, que impacta em múltiplos processos, sejam da agricultura, da indústria, do comércio e dos serviços, e, obviamente, no conjunto do modelo produtivo e de desenvolvimento que impacta no meio ambiente e na vida da Terra.

Um problema singular é a Argentina, com uma fatura de importação de combustíveis de 12 bilhões de dólares anuais e um balanço comercial com um déficit próximo aos 7 bilhões de dólares. A queda do preço do petróleo reduz o custo das importações, embora afaste a expectativa assentada na exploração dos não convencionais, rentáveis a um preço superior ao atual.

É uma má notícia para os que esperavam resolver com investimentos oriundos do petróleo os limites do capitalismo local diante da ausência de divisas por inversões ou empréstimos.

Trata-se de um problema estrutural, e convoca para discutir a crise mundial e local do petróleo a partir da discussão do modelo produtivo e de desenvolvimento, questionando o para quê da energia e do petróleo, e a partir dali definir o sentido de um novo modelo sustentado na satisfação das necessidades sociais e não na expectativa de lucro e acumulação das transnacionais da energia e do petróleo.

Não é apenas a Argentina que precisa discutir o impacto da crise energética e dos preços internacionais, mas toda a região latino-americana e caribenha deve estruturar uma resposta comum com o centro na defesa da soberania energética, articulada com uma proposta de soberania alimentar e financeira para um outro projeto de país e região na perspectiva da emancipação e da libertação.

Notas:

[1] http://www.preciopetroleo.net/

[2] http://www.iea.org/newsroomandevents/pressreleases/2014/november/signs-of-stress-must-not-be-ignored-iea-warns-in-its-new-world-energy-outlook.html

[3] John Saxe-Fernández, Explotación de fósiles no convencionales en Estados Unidos. Lecciones para América Latina. En Periferias 21, Revista de la Fisyp.

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