Francisco critica uniformidade forçada, e reza em mesquita na Turquia

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01 Dezembro 2014

Ao visitar a antiga comunidade cristã que, hoje, é nada mais do que uma pequena minoria na Turquia de esmagadora maioria muçulmana, o Papa Francisco convocou a Igreja a sair da “zona de conforto” e a “abandonar o estilo defensivo” tendo em vista a superação das incompreensões e divisões.

Falando a uma congregação variada composta de católicos romanos do rito latino, católicos do rito oriental e cristãos ortodoxos numa homilia na pequena Catedral do Espírito Santo, de rito latino, em Istambul, Francisco elogiou a diversidade na Igreja e alertou contra as tentativas de se “domesticar” Deus forçando-se uma uniformidade.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 29-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As observações do pontífice vieram poucas horas depois de ter rezado junto de um líder muçulmano em uma das mesquitas mais famosas de Istambul. Mais tarde, Francisco visitou o Patriarca Ecumênico Bartolomeu – líder ortodoxo – e pediu-lhe uma bênção, curvando-se em sua frente para receber um beijo na cabeça.

“A tentação está sempre dentro de nós para opor resistência ao Espírito Santo, porque ele nos tira da zona de conforto, impele a Igreja a avançar”, disse o pontífice na igreja de rito latino.

“Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que põe de lado a pretensão de o regular e domesticar”, acrescentou. “E nós, cristãos, tornamo-nos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para nos deixamos conduzir pelo Espírito. Ele é frescor, criatividade, novidade”.

“No nosso caminho de fé e de vida fraterna, quanto mais nos deixarmos guiar humildemente pelo Espírito do Senhor, tanto mais superaremos as incompreensões, as divisões e as controvérsias, tornando-nos sinal credível de unidade e de paz”, continuou.

Estas falas do Papa Francisco vieram no segundo dia de sua visita à Turquia, durante uma missa com a comunidade católica de rito latino em Istambul, que conta com apenas 17 mil membros.

Bartolomeu esteve presente na missa de sábado, junto de um bispo metropolitano da igreja sírio-ortodoxa e de representantes das comunidades protestantes de Istambul.

País com cerca de 76 milhões de habitantes, a Turquia conta com 97% de muçulmanos.

Mais tarde, no sábado, Francisco visitou a igreja patriarcal de São Jorge, onde ficam Bartolomeu e o patriarcado ecumênico. Os bispos conduziram uma oração ecumênica conjunta antes de discursarem.

Após a sua fala, Francisco virou-se para Bartolomeu e disse que queria pedir-lhe um favor: “Abençoe a mim e a Igreja de Roma”.

Ao se dirigir em direção ao patriarca, Francisco fez reverência a Bartolomeu curvando-se diante dele, momento em que o líder ortodoxo deu um beijo no solidéu branco de Francisco.

Em seu discurso a Bartolomeu, Francisco meditou sobre a alegria e esperança dada por Deus ao seu povo, como profetizado pelo profeta Zacarias. O pontífice relacionou esta promessa aos papéis dos santos Pedro e André, irmãos e apóstolos de Jesus aos quais o pontífice romano e o patriarca constantinoplense remontam em suas respectivas linhagens.

“André e Pedro ouviram esta promessa; eles receberam este dom”, disse Francisco. “Eles eram irmãos de sangue, no entanto o encontro que tiveram com Cristo os transformou em irmãos na fé e na caridade também”.

“Que graça, Sua Santidade, poder ser irmãos na esperança do Senhor Ressuscitado”, disse o papa.

Para os católicos do rito latino na missa deste sábado pela manhã, a visita do papa foi, na prática, muito próxima, pessoal, dado o pequeno número de fiéis. Um participante da comunidade disse que a visita do papa lembrou-lhe que o grupo local faz parte de uma igreja maior.

“É bom saber que, embora sejamos um pequeno rebanho, não fomos esquecidos”, disse Arusyar Safa, falando antes da missa.

“Quando vivemos num país onde somos uma minoria, é como se, na maioria do tempo, a gente vivesse a Bíblia”, disse Safa, nascida em Istambul. “Além de apenas proclamá-la, a gente a vive. É assim que vivemos a nossa vida de cristãos”.

Talvez prevendo a homilia do papa, uma outra participante da comunidade local elogiou os diferentes ritos católicos e cristãos presentes em Istambul.

“Temos muitos e diferentes rostos, diferentes igrejas, diferentes comunidades, diferentes congregações”, afirmou Isabelle de Mannoury de Croisilles, francesa que vive em Istambul há 8 anos.

“Isso resulta em muitas diferenças, mas nos dá uma oportunidade de, juntos, discutirmos e compartilhar algo em comum”, declarou.

A visita a esta comunidade em Istambul acontece depois de ele ter passado a sexta-feira visitando a capital turca de Ancara, onde se encontrou e conversou com o presidente do país, Recep Tayyip Erdoğan.

Orações na mesquita, um acordo inter-religioso

As falas do pontífice na catedral católica vieram depois que ele visitou os dois dos lugares históricos de Istambul no sábado pela manhã: a Mesquita do Sultão Ahmed, comumente conhecida por Mesquita Azul, e a Hagia Sophia [ou Santa Sofia], basílica ortodoxa do século VI convertida numa mesquita no século XV antes de se tornar um museu no século XX.

Ao chegar na Mesquita Azul, Francisco foi cumprimentado por Mehmet Görmez, Grão Mufti de Istambul, junto de outro mufti e outros dois imãs. Seguindo o costume muçulmano, o pontífice removeu os calçados para entrar no local de culto.

O grupo andou junto pela mesquita. O padre jesuíta Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, disse que, ao ver a grandiosidade do local, Francisco disse a Görmez: “Não apenas devemos louvar a Deus e glorificá-lo, mas também adorá-lo”.

Acompanhado por dezenas de fotógrafos, os dois líderes religiosos pausaram por alguns instantes para aquilo que Lombardi classificou de uma “adoração silenciosa”. Por mais de três minutos, os dois ficaram imóveis em oração e contemplação diante do Mihrab da mesquita, um lugar na parede presentes nas mesquitas que ajuda os muçulmanos a identificarem a direção da cidade de Meca.

Francisco ficou com a cabeça abaixada e com as mãos entrelaçadas na altura da cintura. Görmez ficou com as mãos abertas, com as palmas para cima.

Lombardi falou que a adoração foi um “momento bonito de diálogo inter-religioso”. Segundo o porta-voz, a certa altura na breve visita dos líderes religiosos Görmez perguntou ao papa: “Deus é Deus de justiça e misericórdia. Estamos de acordo quanto a isso?”

“Certamente”, respondeu Francisco segundo Lombardi.

As medidas de segurança envolvendo a visita do papa têm sido extraordinariamente rígidas. As autoridades estimaram que aproximadamente 6 mil policiais foram mobilizados em Istambul para a visita do pontífice.

Enquanto a comitiva papal andava pela cidade, muitos carros de polícia mantiveram as portas abertas, com atiradores em pé enquanto os carros se moviam de forma que pudessem ver os arredores com mais facilidade.

Francisco é uma “revolução” para a unidade católico-ortodoxa

Francisco, o quarto papa a visitar a igreja patriarcal nos tempos modernos, irá visitar a igreja do patriarcado de São Jorge de novo no domingo. Aí participará na celebração ortodoxa da Festa de Santo André.

Alguns bispos ortodoxos disseram que a visita do Papa Francisco representa um novo espírito de colaboração e uma possibilidade entre as duas tradições, que se separaram uma da outra no ano de 1054.

Um bispo ortodoxo metropolitano, equivalente aproximado de um arcebispo católico, disse que a forma como Francisco vem agindo como papa está dando um grande passo na direção das relações católico-ortodoxas.

“Historicamente falando, eu chamaria [esta visita] de uma revolução”, disse o bispo metropolitano John Zizioulas, líder da comunidade ortodoxa oriental em Pergamon e destacado teólogo que copresidiu o diálogo entre as igrejas ortodoxas e a católica. “Este é um desenvolvimento muito, muito importante”.

Tomando o exemplo de que Francisco refere-se a si próprio muito mais como o Bispo de Roma do que como papa, Zizioulas falou que isto é “muito importante, tanto em termos teológicos quanto em termos eclesiológicos”.

“Isso coloca o papado muito próximo do entendimento ortodoxo, pois, para os ortodoxos, cada patriarca é um bispo em última instância”, disse Zizioulas durante uma coletiva de imprensa realizada pelo Patriarca Ecumênico na sexta-feira à noite.

“O principal é que ele é o Bispo de Roma e, portanto, a primazia não é o primado de um indivíduo, mas o primado do local da igreja e isto é extremamente importante”, acrescentou.

Zizioulas também disse que o recente Sínodo ocorrido em Roma sobre a família enfatizou o papel importante que os ortodoxos colocam na sinodalidade, ou a noção segundo a qual um bispo ou patriarca lidera, em comunhão, com seus irmãos bispos.

“Um dos problemas que temos de resolver em nossas relações é se o Sínodo tem um papel consultivo ou decisivo – precisamos ver até que ponto o Sínodo pode, realmente, decidir ou se ele é, simplesmente, um organismo que sugere ao papa certas ideias e este, então, decide”, disse Zizioulas.

“Creio que, da forma como as coisas estão se desenvolvendo, e particularmente com o atual papa, estamos nos movendo em direção de darmos ao Sínodo, à sinodalidade, um papel decisivo e não somente consultivo”, falou.
Os ortodoxos, complementou Zizioulas, “estão assistindo para ver como este Sínodo vem funcionado, e percebemos a apertura e liberdade de expressão (...), que são passos realmente muito positivos”.

Um outro bispo metropolitano ortodoxo, ao falar na coletiva de imprensa na sexta-feira, centrou-se nas lutas que a comunidade cristã local enfrenta em relação à liberdade religiosa na Turquia de esmagadora maioria muçulmana, em particular a tentativa em curso de reabrir o seminário histórico ortodoxo na ilha de Halki.

O seminário, que remonta ao primeiro milênio, foi fechado em 1971 quando o parlamento turco proibiu todas as instituições de ensino superior privadas.

“O seminário de Halki não é um problema de menor importância”, disse o bispo metropolitano Elpidophoros, líder da comunidade ortodoxa oriental em Bursa e abade da faculdade. “Não é apenas uma faculdade que é fechada. Este seminário é a possibilidade de esta igreja se renovar”.

“Se tivéssemos a liberdade de culto neste país (...), ela não seria o suficiente se a igreja não tiver a possibilidade de formar um padre que iria, então, liderar um culto, uma missa, um padre que pudesse pregar, abençoar os fiéis”, disse Elpidophoros.

“Se não há nenhuma chance de formarmos este sacerdote, então a liberdade de culto tem um limite de tempo que irá terminar com a vida do padre que lidera uma comunidade”, acrescentou.

A liberdade religiosa é uma questão-chave para os cristãos na Turquia. A Constituição do país protege a liberdade de crença, mas nos últimos anos alguns turcos críticos do governo do presidente Erdoğan disseram que tais proteções não são, na realidade, praticadas.

Um exemplo disso é que muitas igrejas cristãs não são designadas como locais de adoração e são, em vez disso, juridicamente instituídas como lugares culturais ou centros de associação. As igrejas ortodoxas, no entanto, nem sequer têm esta designação e não possuem nem mesmo um título legal para a maioria das igrejas e propriedades que mantêm.

“Esta instituição não existe juridicamente”, disse Elpidophoros. “Neste país, ela existe somente de facto. Inexiste uma pessoa jurídica para esta instituição. Este é o principal problema que, então, traz todos os demais relacionados ao exercício de nossa fé”.

“Quando os direitos humanos são violados, este se torna um problema para os nossos irmãos ocidentais”, continuou. “Não somos irmãos só em questões teóricas (...), mas também nos aspectos humanos da vida em nossos respectivos países onde exercemos nossa fé”.

Tanto Elpidophoros quanto Zizioulas disseram haver muito mais, hoje, elementos que unem os ortodoxos e os católicos romanos do que elementos que os separam.

Ao mencionar a violência e luta que os cristãos passam no Oriente Médio, onde centenas de milhares fugiram de antigos centros da religião em busca de refúgio de grupos tais como os assim-chamado “Estado Islâmico”,

Zizioulas disse que ninguém se importa em perguntar qual a denominação a que estes cristãos pertencem.
“As dificuldades que os cristãos estão enfrentando nos aproximam, porque nestas regiões (...) ninguém pergunta se você é católico ou ortodoxo”, segundo Zizioulas.

“É suficiente você ser cristão”, continuou. Portanto, aqueles do lado de fora do cristianismo nos consideram como uma família sem as divisões com as quais nós nos acostumamos (...) queiramos ou não, estamos nos aproximando uns dos outros”.

“Vivemos uma época muito importante ecumenicamente falando, com o atual papa e as atuais circunstâncias. Eu espero que tudo isso torne as coisas mais fáceis para nós nos unirmos também no nível teológico”, falou.

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