Na viagem do Papa à Turquia, o diálogo com os muçulmanos se torna o principal tema

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27 Novembro 2014

O Papa Francisco irá passar por uma complexa variedade de assuntos ecumênicos, inter-religiosos e políticos em sua visita, neste fim de semana, à Turquia.

Porém, uma questão que será central na viagem – que verá o pontífice parar, na sexta-feira, na capital Ancara antes de rumar ao centro histórico cristão de Istambul no sábado e domingo – é o diálogo entre cristãos e muçulmanos.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 26-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Dos 76 milhões de pessoas que vivem na Turquia, 97% se identificam com a fé islâmica. E dada a sua localização na Ásia (fazendo fronteira com a Síria e Iraque no lado leste) e na Europa (fazendo fronteira com a Grécia, no lado oeste), o país é visto como um importantíssimo teste para um encontro inter-religioso, especialmente diante da violência perpetrada pelo grupo Estado Islâmico.

Após cumprimentar o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, em Ancara na sexta-feira pela manhã, Francisco deve se encontrar com o chefe da “Presidência para Assuntos Religiosos” do país, um ministério governamental conhecido comumente como responsável por fornecer e regular os serviços religiosos no território turco.

Um acadêmico turco disse que a visita do papa pode ser uma oportunidade para reparar aquilo que vem sendo 8 anos de pouco diálogo entre cristãos e muçulmanos no país. Disse que, a partir daqui, diálogos mais amplos poderão ser provocados na região.

Hakan Olgun, professor de Teologia na Universidade de Istambul, disse que Francisco tem, antes de tudo, a chance de costurar as divisões criadas no diálogo católico-islâmico após o discurso de Bento XVI em 2006 em Regensburgo, na Alemanha.

Nesta ocasião, o papa citou um imperador bizantino do século XIV que criticara as conversões forçadas de cristãos ao Islã, e então generalizou que a esta religião em si era “má e desumana”.

A fala de Bento causou “profunda mágoa nos muçulmanos”, e sua visita, mais tarde em 2006 à Turquia, “não foi suficiente para superar esta decepção”, disse Olgun, um muçulmano pesquisador da Reforma Protestante e que conduziu o projeto de diálogo inter-religioso em 2006 junto de outros 30 acadêmicos no ministério da Presidência para Assuntos Religiosos, conhecido como Diyanet.

“O processo de diálogo inter-religioso na Turquia, iniciado pelo Papa João Paulo II, terminou com Bento XVI”, disse. “Esta questão também foi abandonada aos poucos não só na agenda pública como também no campo acadêmico”.

Olgun que as realidades sociais e econômicas na América Latina do Papa Francisco são “muito similares” às realidades turcas.

“O Papa Francisco pode virar uma nova página na forma de diálogo”, acrescentou.

Francisco “pode criticar a secularização, o consumismo ilimitado, a liberdade sem limites, a partilha injusta dos bens, a injustiça e ditaduras... Ele pode, portanto, fornecer um denominador comum para o diálogo com os muçulmanos novamente”.

A. Rashied Omar, professor nos Estados Unidos e líder muçulmano, também disse que esta visita do papa pode servir para fortalecer o diálogo entre as duas religiões. Destacou, porém, a necessidade de os líderes religiosos islâmicos serem recíprocos para com os esforços do Papa Francisco.

Falando que as relações entre cristãos e muçulmanos “atingiram um de seus pontos mais baixos de todos os tempos” por causa da “geopolítica global injusta e do consequente aumento do extremismo religioso”, Omar disse que a viagem do papa ao país “poderia servir como uma fonte de cura e reconciliação entre os cristãos e muçulmanos”.

“No sentido de maximizar esta oportunidade inestimável de envolvimento dialógico (...), os líderes muçulmanos precisam, em particular, fazer mais, engajarem-se e abraçar o convite do Papa Francisco ao diálogo inter-religioso e à solidariedade”, disse Omar, professor de estudos islâmicos e construção da paz no Instituto Kroc para Estudos Internacionais da Paz, da Universidade de Notre Dame, EUA.

Omar, que também serve como imã na Mesquita Claremont Main Road, na Cidade do Cabo, África do Sul, disse que o foco do Papa Francisco em seu papado de falar em nome dos empobrecidos e daqueles que sofrem com a violência pode criar uma abertura singular nos esforços inter-religiosos.

“Este papa inaugurou uma plataforma construtiva para que os líderes muçulmanos entrem num diálogo renovado com os católicos a respeito da questão fundamental das interpretações das Sagradas Escrituras e das origens da violência em nosso mundo contemporâneo”, disse.

“Ao localizar um tal diálogo dentro do contexto mais amplo da teologia da compaixão pelos pobres do Papa Francisco, que oferece uma crítica social poderosa da nossa cultura global de consumismo, cobiça e opulência, o diálogo inter-religioso irá encontrar uma ressonância ainda maior entre os muçulmanos”, continuou.

Durante a visita do papa a Ancara na sexta-feira, ele irá se encontrar somente com autoridades governamentais. Após visitar a Mesquita Azul e a Hagia Sophia [Basílica de Santa Sofia] em Istambul no sábado, Francisco irá rezar uma missa para a pequena comunidade católica romana do Rito Latino na Catedral do Espírito Santo.

Na sequência destas visitas, o pontífice participará de uma oração ecumênica e, então, terá uma reunião privada com o líder cristão ortodoxo ecumênico, o Patriarca Bartolomeu I.

O encontro será o terceiro entre Francisco e Bartolomeu, considerado o “primeiro entre iguais” no cristianismo ortodoxo oriental, depois da visita histórica do patriarca a Roma em 2013 para a inauguração do papado de Francisco e da viagem conjunta à Terra Santa em maio.

Os dois devem se encontrar novamente no domingo para um almoço e assinar uma declaração conjunta sobre a visita.

Ao mencionar a sua viagem na Audiência Geral desta quarta-feira no Vaticano, Francisco pediu aos presentes na Praça de São Pedro que rezassem para que esta “visita de Pedro ao seu irmão André possa trazer frutos de paz, um diálogo sincero entre as religiões e uma harmonia para a nação da Turquia.

Os católicos remontam a linhagem do papa à fundação da Igreja em Roma por São Pedro. Os cristãos ortodoxos remontam a linhagem de seu patriarca à fundação da Igreja em Constantinopla (hoje Istambul) pelo irmão de Pedro, Santo André.

Apesar de todo este simbolismo presente na visita entre Francisco e Bartolomeu, um teólogo ortodoxo disse que um dos impactos deste momento pode ser também com relação ao diálogo junto aos muçulmanos.

Ao trazer presente as tenções passadas ocorridas entre os cristãos ortodoxos e católicos após a separação destas igrejas em 1054, Aristotle Papanikolaou disse que este encontro moderno dos dois líderes mostra como a reconciliação pode ser alcançada.

“A instabilidade na região não será grandemente impactada por esta visita. Mesmo assim ela, a visita, aponta em direção aos tipos de esforços que aqueles que certa vez foram ‘inimigos’ podem assumir no sentido da reconciliação”, disse Papanikolaou, destacado professor-pesquisador e cofundador do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos, da Universidade de Fordham.

“Neste caso, trata-se de um chamado não só aos cristãos, mas a todos os povos para perceberem que se reconciliar é possível aos humanos”, disse.

Omar, imã muçulmano e teólogo, relacionou a viagem do papa aos relatos segundo os quais São Francisco de Assis, no século XIII, viajou através do Oriente Médio na era das cruzadas para encontrar-se com um líder muçulmano e dar continuidade ao diálogo entre as tradições.

“Espero sinceramente que os líderes muçulmanos aceitem este convite dialógico e esta solidariedade num espírito comparável de reverência e hospitalidade com o qual o líder muçulmano do século XII, o sultão al-Kamil, acolheu o santo de Assis, de quem o atual papa leva o seu nome”, disse.

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