Papa Francisco adverte: “A burocracia está esmagando a Europa”

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26 Novembro 2014

A era de filosofia e “grandes ideias” da Europa foi substituída pelo “tecnicismo burocrático” das instituições da Unirão Europeia, advertiu o Papa Francisco.

Num discurso altamente crítico da cultura política contemporânea, o papa disse ao Parlamento Europeu que a União Europeia está perigando ser vista como “prejudicial” aos povos da Europa.

A reportagem é de Bruno Waterfield, publicada por The Telegraph, 25-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“Pode-se também constatar que, no decurso dos últimos anos, a par do processo de alargamento da União Europeia, tem vindo a crescer a desconfiança dos cidadãos relativamente às instituições consideradas distantes, ocupadas a estabelecer regras vistas como distantes da sensibilidade dos diversos povos, se não mesmo prejudiciais”, disse aos eurodeputados.

“Daí que os grandes ideais que inspiraram a Europa pareçam ter perdido a sua força de atração, em favor do tecnicismo burocrático das suas instituições”.

Durante uma visita-guiada a Estrasburgo, o segundo acento francês da assembleia da União Europeia, pontífice criticou um continente que está sendo “cada vez menos protagonista” num mundo que reconhece a Europa como “um pouco envelhecida e empachada”.

Na qualidade de primeiro pontífice vindo do novo mundo e de o primeiro não europeu a ocupar o cargo em quase 1300 anos, o Papa Francisco rompeu com o apoio tradicionalmente incondicional da Igreja Católica Apostólica Romana à União Europeia.

O último papa a discursar aos membros do Parlamento Europeu foi João Paulo II em 1988, também falando em Estrasburgo 26 anos atrás. Na ocasião, o pontífice polonês elogiou a União Europeia como um “farol de civilização”.

Quase uma geração mais tarde, o atual papa adverte que a democracia precisa ser defendida, usando palavras que implicam uma crítica à antipopular “uniformidade” das políticas da eurozona, que ditam os níveis de gastos públicos para países da moeda única da União Europeia, tais como a Itália.

“Não escapa a ninguém que uma concepção de unidade vista como uniformidade afeta a vitalidade do sistema democrático, depauperando do que tem de fecundo e construtivo o rico contraste das organizações e dos partidos políticos entre si”, afirmou.

“Isto conduz ao risco de se viver no mundo das ideias, da mera palavra, da imagem, do sofisma… acabando por confundir a realidade da democracia com um novo nominalismo político”.

Ao empregar palavras que poderiam igualmente ser endereçadas às empresas multinacionais ou instituições poderosas da União Europeia, tais como o Banco Central Europeu, o Papa Francisco descreveu a democracia como estando correndo o risco de se tornar “impérios nunca visto antes”.

“A verdadeira força das nossas democracias – entendida como expressões da vontade política das pessoas, dos povos – não deve ser posta de lado face à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios nunca visto antes”, declarou o papa.

“Este é um desafio que hoje vos coloca a história”.

O papa também relacionou instituições remotas e intocáveis da União Europeia a uma “solidão” existencial dos europeus que tratam o outros, ou que eles próprios são tratados pelas outras pessoas, como objetos.

“A meu ver, uma das doenças que, hoje, vejo mais difusa na Europa é a solidão, típica de quem está privado de vínculos. Vemo-la particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados à sua sorte, bem como nos jovens privados de pontos de referência e de oportunidades para o futuro”, disse.

“Vemo-la também nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades; vemo-la no olhar perdido dos imigrantes que vieram para cá à procura de um futuro melhor. Uma tal solidão foi, depois, agravada pela crise econômica, cujos efeitos persistem ainda com consequências dramáticas do ponto de vista social”.

Em um ataque à “cultura do desperdício”, o papa latino-americano condenou o egoísmo europeu juntamente com a indiferença “especialmente para com os mais pobres” e imigrantes.

“O ser humano corre o risco de ser reduzido à mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado, de modo que a vida – como vemos, infelizmente, com muita frequência –, quando deixa de ser funcional para esse mecanismo, é descartada sem muitas delongas, como no caso dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem cuidados, ou das crianças mortas antes de nascer”, declarou.

“É necessário enfrentarmos juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda”.

Num apelo final ao “espírito humanista”, o Papa Francisco exortou os europeus cada vez mais seculares a não se esquecerem da história de dois mil anos que unem o continente e o cristianismo.

“Vemo-lo na beleza das nossas cidades e, mais ainda, na beleza das múltiplas obras de caridade e de construção comum que constelam o continente”, disse.

“Esta história ainda está, em grande parte, ainda por ser escrita. Ela é o nosso presente e também o nosso futuro. É a nossa identidade. E a Europa tem uma necessidade imensa de redescobrir o seu rosto para crescer, segundo o espírito dos seus Pais fundadores, na paz e na concórdia, já que ela mesma não está ainda isenta dos conflitos”.

A viagem de quatro horas ao parlamento nesta terça-feira é a visita mais curta ao exterior feita por um papa. A sua primeira visita europeia foi em setembro à Albânia.

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