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13 Novembro 2014

"Sabemos que a sociedade pode até estar satisfeita com a formação técnica dos médicos, mas é notório como está insatisfeita com a falta de humanização desses profissionais, cuja prerrogativa é promover saúde, não a mera ausência de doenças. Tentam preencher essa deficiência pelo currículo formal, mas se esquecem do currículo oculto - práticas e culturas -, que molda sujeitos do início ao fim da faculdade", escreve Felipe Scalisa Oliveira, 22 anos, aluno do 3º ano da FMUSP - Faculdade de Medicina da USP, coordenador de cultura da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina e um dos depoentes da audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para averiguar casos de violação de direitos humanos na FMUSP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 13-11-2014.

Eis o artigo.

Nesta terça-feira (11) veio à tona na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) o grande número de estupros, de agressões homofóbicas, de assédios e de trotes na Faculdade de Medicina da USP. Casos que, pela repetição, demonstram o lado sistemático da violência e seu caráter estrutural, que se encontra na maioria das faculdades de medicina do país.

Em audiência pública, oito relatos de violência - pontuais e culturais - foram expostos, entre os quais dois casos de estupro em eventos organizados por outros alunos e realizados nas dependências da universidade. Foram relatadas também iniciativas anteriores da faculdade de omitir os casos, a fim de preservar a imagem da instituição e evitar constrangimentos.

Foi demonstrado também, pelo volume de documentos e registros, como uma cultura de tradições e hinos que fazem alusão ao machismo pode tornar reais as intenções de estupro e como trotes são utilizados para manter hierarquias e redes de poder que vão desde as relações entre alunos até aquelas entre docentes e profissionais mais influentes.

A audiência pública buscou não se restringir apenas ao agressor como responsável final pela violência, mas falar do que aumenta os riscos de esses atos se efetivarem.

Vimos como nosso maior ensinamento na graduação é o pacto de silêncio, o consentimento passivo como grande instrumento de manutenção de estruturas nas quais aprendemos a lidar e a conviver com a corrupção do mundo.

Práticas sórdidas, desde a "pasta" - segurar à força um colega e enfiar pasta de dente em seu ânus como forma de punição por algum descumprimento de ordem - até a contratação de prostitutas para servir a homens dentro dos espaços da faculdade, foram relatadas na audiência. O desfecho não poderia ser outro: a cultura da faculdade prejudica nossa formação humana. E estamos falando de educação médica.

Sabemos que a sociedade pode até estar satisfeita com a formação técnica dos médicos, mas é notório como está insatisfeita com a falta de humanização desses profissionais, cuja prerrogativa é promover saúde, não a mera ausência de doenças. Tentam preencher essa deficiência pelo currículo formal, mas se esquecem do currículo oculto - práticas e culturas -, que molda sujeitos do início ao fim da faculdade.

Ainda assim, há severa resistência entre os alunos da faculdade a aceitar críticas ao que eles reproduzem. Certamente, a vida universitária é impactante e há amor verdadeiro pelo que se vive nesse ambiente. Conseguir absorver críticas, nesses casos, é um ato de coragem.

Para alento da democracia, entretanto, pode-se debater o significado das práticas relatadas pelos estudantes que conseguiram romper as leis de silêncio da faculdade. Algumas verdades, contudo, precisam ser assumidas.

A principal delas é que expor o que fazemos nos traz vergonha. Sentimos que nessa exposição manchamos a imagem de uma faculdade que é orgulho nacional. Entretanto os relatos das vítimas de estupro, trote e agressões são apenas uma face oculta. Temos de assumir os problemas e enfrentá-los.

Espero que meus colegas, vendo-se como agentes da realidade, possam captar essa verdade e transformá-la em algo positivo. Ficar no saudosismo melancólico da realidade que se esvai pode nos cegar para o novo, que pretende ser muito melhor. Ficou ainda mais claro, enfim, que a faculdade precisa da ajuda da sociedade civil para conseguir se espelhar em ética. O isolamento da universidade é algo pernicioso.

A educação médica humanizada é de interesse de todos e merece o olhar coletivo para a sua construção. A sociedade deve dizer que tipo de médico quer ver sair dessas instituições e, a partir daí, analisar se certas práticas são adequadas ou não. A transparência acaba sendo, portanto, a chave para esse projeto.

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