Bonhoeffer, o teólogo que encarnou as próprias ideias

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04 Novembro 2014

O livro Bonhoeffer, de Fulvio Ferrario, supre uma falta no panorama das publicações em italiano. A figura de Bonhoeffer recebeu um grande interesse de estudos nos últimos anos, mas sem que a esse interesse tenha se seguido, na Itália, uma obra exaustiva sobre o seu pensamento e a sua biografia.

A reportagem é de Claudio Paravati, publicada na revista Confronti, de novembro de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ferrario realizou isso de maneira atenta, documentada, rica e também extremamente agradável. O leitor é convidado a seguir um único percurso, ao mesmo tempo biográfico e conceitual do teólogo alemão. As etapas, os capítulos, são as obras, as do próprio Bonhoeffer e as da sua vida.

Dessa forma, a elaboração teológica e os eventos biográficos vivem em um emaranhado e em uma referência recíproca, sem que haja, por isso, qualquer tipo de falsa mistura: a obra de Ferrario é uma verdadeira biografia diltheyana, em que os âmbitos da vida de Bonhoeffer são não apenas relatados com extrema competência, mas também apresentados no seu significado recíproco, em um quadro único em que vida e pensamento emergem na sua trama.

A obra de Ferrario é um texto de referência precioso para aqueles que querem conhecer o teólogo alemão, tanto para o amador e o apaixonado, quanto para o especialista e o pesquisador.

Eis a entrevista.

Professor Ferrario, na Premissa, o senhor se refere à interpretação dada ao pensamento de Bonhoeffer no seu livro a partir de um diálogo simpático, mas também crítico, com a de Alberto Gallas. Justamente a ele o livro é dedicado. Em que consiste esse diálogo, nos seus pontos de encontro e de distanciamento?

Gallas publicou, há cerca de 20 anos, a mais importante obra italiana sobre Bonhoeffer, Ánthropos téleios, uma profunda interpretação abrangente do teólogo, centrada no itinerário que é resumido em uma carta do cárcere do dia 21 de agosto de 1944 (um dia após o atentado frustrado contra Hitler), em que o discipulado cristão é descrito em termos "mundanos": sujar-se as mãos nas ambiguidades da história, renunciando a buscar uma "pureza" abstrata, para servir aos outros na responsabilidade arriscada, contando apenas com o perdão de Deus. Já em um livro anterior, Non santi ma uomini, depois republicado pela editora Claudiana, Alberto tinha sintetizado a sua leitura.

Mas eu discordo de Gallas em um ponto, que ambos consideramos decisivo, ou seja, a relação de Bonhoeffer com Lutero. De acordo com Gallas, Bonhoeffer se afasta do reformador. A meu ver, ele o relê, certamente de forma criativa, mas profundamente fiel. Justamente opondo-se ao que Bonhoeffer chama de "pseudoluteranesimo", ele valoriza a lição de Lutero, que, não por acaso, na carta citada, é indicado como um exemplo do que o teólogo pretende dizer. Essa discordância, para mim normal e nada dramática, foi vivida por Alberto em termos bastante intensos também no plano pessoal.

É verdade, porém, que, falando de Bonhoeffer, Alberto e eu também discutimos sobre o fato de ele ser católico e da minha escolha protestante. Como eu disse na Premissa à qual você alude, não estou certo de que Alberto Gallas gostaria do meu livro. Mas eu o escrevi, em diversos sentidos, graças a ele. Infelizmente, a sua morte prematura modificou dramaticamente as formas do nosso diálogo, mas eu gosto de pensar que ele não se interrompeu.

Bonhoeffer tornou-se um "santo protestante", um "mito religioso": o que dizer sobre esse tipo de recepção, que às vezes se inclinou mais sobre a sua "biografia" do que sobre a sua "teologia"?

De fato, existe aquilo que se poderia chamar de "Bonhoeffer-kitsch": os cartões postais, um filme bastante enganoso, as famosas frases fora de contexto e mal interpretadas, a ridícula catolicização e a exploração apologética protestante. Dito isso, em uma figura como Bonhoeffer, não podem ser separadas biografia e teologia, e justamente nessa síntese reside o seu fascínio quase único. Bonhoeffer foi um verdadeiro e grande pensador, e bastaria um só dos seus livros, mesmo antes do episódio que lhe custou a vida, para lhe conferir um lugar não insignificante na história da teologia do século XX. Mas não é frequente, temo eu, que a vida de um teólogo constitua a interpretação viva da sua obra, e precisamente tal elemento faz com que Bonhoeffer, justamente como pensador, seja uma testemunha. Ao menos para mim, isso reavalia um pouco também o "Bonhoeffer popular": eu gosto muito, por exemplo, do canto eclesiástico alemão composto com as palavras do seu último poema, Potências boas.

Quais são os elementos mais significativos da sua reflexão, ou seja, em que sentido Bonhoeffer pode ser definido, como o senhor escreve no livro, como um "teólogo barthiano-liberal"?

De Karl Barth, Bonhoeffer deriva a ideia da palavra de Deus como evento que realmente entra na história, permanece indisponível e soberana, mas molda a vida e a carne, porque é carne em Jesus Cristo. Nesse sentido, ele compartilha com o teólogo suíço a crítica a uma fé que crê que deve se "justificar" perante o tribunal do senso comum cultural. Ao mesmo tempo e especialmente nas cartas do cárcere, Bonhoeffer retoma da tradição liberal a paixão pela crítica impiedosa, pela honestidade intelectual audaz e arriscada, e afirma que Barth, na sua reação ao liberalismo, está exposto ao risco de uma certa rigidez doutrinal. Não sei se a crítica bonhoefferiana faz justiça a Barth, mas certamente atinge grande parte do "barthismo" daqueles anos e do imediato pós-guerra, um pouco inclinado a utilizar a noção de "palavra de Deus" como uma espécie de bazuca para se disparar contra qualquer adversário.

O que, do seu pensamento, continua a interrogar a Igreja, a sociedade, a cultura contemporâneas?

Naturalmente, a reflexão sobre a noção de responsabilidade e sobre o compromisso do cristão na história permanece central. Igualmente importantes parecem-me ser, no contexto daquela que alguns chamam de "arreligiosidade" europeia, as considerações bonhoefferianas sobre uma fé desprovida do chamado apriori religioso. Por décadas, dissemos, nas pregações e nos catecismos, que o evangelho responde à "busca de sentido" das mulheres e dos homens.

Hoje, gerações inteiras parecem viver bastante tranquilamento sem nenhuma "busca de sentido", exatamente como afirma Bonhoeffer. Pergunto-me se o "retorno do religioso" não é – na Europa, naturalmente: em escala global, o discurso é muito diferente – um fenômeno secundário dentro de uma megatendência que vai da secularização à arreligiosidade. Seria infantil pedir a Bonhoeffer respostas "baratas" – para usar uma expressão dele mesmo –, mas certamente as perguntas que ele faz, a partir do dia 30 de abril de 1944 [data da famosa carta escrita da prisão nazista de Tegel], parecem-me – não "ainda hoje", mas hoje mais do que à época – absolutamente pertinentes.

O que será valioso do pensamento de Bonhoeffer para 2017, o ano do cinquentenário da Reforma?

Talvez seja simplista, mas – desculpando-me justamente de Alberto Gallas – sinto-me tentado a responder: "Lutero". Não o Lutero estereotipado do turismo eclesiástico, muito menos o ícone do protestantismo, embora ele me seja caro e por mais que as notas de Forte Rocha – pois sim, mesmo na versão romântica de Mendelssohn – sempre consigam me emocionar infantilmente.

Ao contrário, o Lutero "fora do tempo", contra o qual Nietzsche se lança em uma formidável página do Anticristo. Aquele que, no alvorecer da modernidade – para nós, no coração do pós-modernismo; seja o que isso for –, talvez não tenha captado a sua novidade filosófica, mas monta criativamente a história, correndo riscos e errando, mas abandonando a estéril respeitabilidade eclesiástica que discursa professoralmente ao mundo, para depois deixá-lo tal como ele é. Mas, acima de tudo, o Lutero que, com profética ingenuidade, mergulha neste mundo que muda com uma paixão única e febril: anunciar Cristo. Uma paixão anacrônica, já à época, como nota Nietzsche justamente; mas que, com grande raiva daquele filho de pastor, transforma a Igreja e a Europa.

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