O mundo ao avesso do Magnificat. Entrevista com Mariapia Veladiano

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09 Outubro 2014

"A história de uma Igreja sem a palavra, a responsabilidade, a autoridade das mulheres é simplesmente uma história de infidelidade ao Evangelho. Quando rezamos com o Magnificat, acolhemos como dom e ao mesmo tempo como tarefa aquele 'derrubou os poderosos de seus tronos' que nos leva para fora do mundo da dominação e para dentro do mundo da reciprocidade. Conhecemos bem, a partir dos estudos históricos, a condição de marginalidade política e social da mulher contemporânea a Jesus. No Evangelho, não há nada que diga algo apenas somente em contiguidade com essa geometria das posições de gênero. Há um mundo 'de fato' invertido, de mulheres e de homens que se levantam e caminham, falam, tocam Jesus, mostram um outro mundo possível, fato novo". Jornalista e escritora, professora de Letras e reitora há pouco tempo, Mariapia Veladiano retoma o cântico mariano por excelência como chave de leitura.

A reportagem é de Laura Badaracchi, publicada no jornal Avvenire, 08-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O Papa Francisco parece ter uma espécie de imprinting sobre o tema do poder, do escândalo do poder que crava três quartos do mundo na injustiça e atravessa a Igreja, e a marginalidade da mulher na Igreja está dentro desse escândalo. Que é pecado, para quem crê", observa.

E ela volta novamente ao texto evangélico depois de ter enunciado as suas referências espirituais: "Encontrei Bonhoeffer e Santo Inácio no momento certo e nunca mais os deixei. O momento certo, para mim, foi ao redor dos 20 anos, quando aquilo que se recebeu como óbvio se torna nosso por escolha ou é abandonado, talvez pouco a pouco, sem que haja uma decisão. Bonhoeffer me trouxe a fé como liberdade e rigor. Inácio acrescentou aquele tanto de loucura que chega à fé quando a vida nos é restituída como nem mesmo podíamos imaginar ou esperar antes. Se a partir de uma vida assim fora das linhas pode vir aquele milagre de sabedoria e medida que são os Exercícios espirituais, então há esperança para todos! E, além disso, ambos me remeteram ao Evangelho, e isso basta".

Eis a entrevista.

Quais são as figuras bíblicas femininas, santas, místicas as quais você está particularmente ligada?

Judite. Ficamos sem fôlego ao ler o seu enfrentamento solitário de uma situação que parece colocar contra a parede até mesmo a fé. E nos perguntamos de onde vem a sua força. Primeiro, ela vai ao encontro dos chefes de Betúlia, envolvidos em uma fé amedrontada e chantageadora. Depois, ela reza com uma oração extraordinária: "Infunde sobre esta viúva a força para fazer o que eu decidi". E aqui se entende que a sua força vem de Deus. Judite não se isenta daquilo que acontece. Não tem escrúpulos. O escrúpulo muitas vezes é falta de fé. Não crer que Deus pode onde nós não chegamos. Ela pode falar assim porque não está sozinha. Nós nunca estamos sozinhos. E depois há o corpo. Na história de Judite, a salvação do povo passa pela sua fé e pelo seu corpo de mulher da beleza que seduz. A salvação de todos nós passa pela encarnação. Porém, Judite se apossou de um imaginário masculino que a fixou no estereótipo da beleza ou da violência.

Você considera que a mídia tem uma visão estereotipada da fiel mulher?

Em geral, acredito que prevalece hoje uma visão simplificada de tudo. E, portanto, também da mulher e da fiel mulher. Há um defeito de pensamento que vive de velocidade, de pobreza de linguagem, de – chamemo-los assim – debates que do parlamento aos conselhos municipais, passando pela televisão, exibem prevaricação e mau educação. Foi um deslizamento progressivo do nosso viver incivil, e acredito que só a escola e, em parte, a Igreja, sobretudo a Igreja a serviço dos pobres, puseram um freio ao processo nesses anos. Penso na Cáritas, um verdadeiro lugar de pensamento: os seus relatórios anuais, relendo-os no tempo, mostram que ela soube compreender com boa antecipação aquilo que aconteceria. Quanto aos estereótipos, me preocupam mais aqueles que habitam dentro da Igreja. Para ficar nas mulheres: que parte dos padres reunidos no Sínodo nestes dias ficariam realmente felizes ao ver mulheres teólogas dirigindo uma universidade teológica? Pois bem, acontecerá. Talvez logo. No fundo, poucos esperavam aquilo que o Concílio Vaticano II foi para a Igreja.

Nos seus romances, as figuras femininas são portadoras de uma mensagem profunda: qual?

Que a vida pode ser reparada. E não com um ato de heroísmo sobre-humano individual, não porque um em mil consegue, santo ou super-homem, mas porque podemos encontrar companhia e, em companhia, a fadiga é mais leve e o medo dá menos medo. As solidões do nosso tempo, muitas vezes, são condenações cruéis. Um pai idoso, um filho com deficiência, o trabalho perdido, e se afunda... Mas há um mundo ao redor. O individualismo egoísta não é um destino. Acredito que as mulheres dos romances contam essa possibilidade de sentir toda a vida no seu bem e na sua dor, de poder resistir e viver.

Você tem sugestões para que as fiéis possam encontrar mais espaços para serem ouvidas?

Vejo a mesma fadiga que as mulheres em geral devem enfrentar para "existirem" na sociedade. Elas têm que ser mais bravas. Mais preparadas, mais determinadas. Têm que se esforçar mais do que os homens, não só na Igreja. E a crise não ajuda. Vista a estrutura atual da Igreja, de fato governada só por homens, seria um belo sinal desconcertante, contracorrente em relação a toda a sociedade, um percurso rápido e bem visível de reconhecimento da mulher nos papéis de responsabilidade. Poderia ser uma boa oração para estes dias de Sínodo!

A atitude reivindicativa da teologia feminista parece não ter alcançado o seu objetivo. Qual poderia ser o caminho para um reconhecimento das peculiaridades da fiel mulher?

Mas a teologia no feminino teve a tarefa necessária de mostrar que a teologia estava doente dos mesmos estereótipos sobre o feminino que perpassam a sociedade. E de libertar o pensamento teológico de uma posição defensiva em que tinha se confinado em relação ao feminino e em relação àquilo que, segundo um estereótipo justamente, parecia conectado ao feminino, isto é, o corpo, a sensibilidade, o cuidado, a ternura. Agora, simplesmente são necessários percursos estruturados que prevejam a corresponsabilidade das mulheres na Igreja. Estruturados significa que não dependam da benevolência de um bispo, de um pároco ou de um papa iluminado.

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