O papa Francisco sonha com a China

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25 Setembro 2014

Jorge Bergoglio, o papa Francisco, realizou um movimento de consequências misteriosas para o catolicismo e para a política internacional. Duas semanas atrás, em sua residência de Santa Marta, diante de três leigos argentinos, confessou: “Se dependesse de mim, estaria na China amanhã mesmo”. O secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, e o encarregado das Relações com os Estados, o bispo Dominique Mamberti, também estavam presentes. Nessa tarde, ficou decidido que o chefe da Igreja Católica convidaria Xi Jinping, o presidente da China, para ir a Roma. E que também comunicaria ao líder chinês sua vontade de viajar para este país.

A reportagem é de Carlos Pagni, publicada pelo jornal El País, 23-09-2014.

O China International Press Forum incluiu o Papa entre as 10 personalidades mais importantes
Em forma e conteúdo, tudo nesse caso é novidade. Pois a conversa ocorreu por iniciativa dos compatriotas de Bergoglio, que a solicitaram para persuadi-lo a visitar Pequim. Ricardo Romano, um dirigente do peronismo que durante anos esteve encarregado das relações exteriores do partido, foi quem trouxe o pedido. Foi acompanhado de José Luján, representante da Academia de Ciências chinesas no Mercosul, e Mariano Conde, professor de Direito Internacional na Universidade de Austin.

Segundo Romano, o Papa escutou a proposta sem desviar os olhos: “O senhor busca uma nova sociabilidade mundial que só pode ocorrer em uma ordem multipolar na qual a China esteja incluída. Pelo seu DNA jesuíta, tem condições excepcionais para dar esse passo”.

Xi permitiu que o Papa atravessasse o espaço aéreo chinês para chegar na Coréia do Sul
Foi quando Francisco comentou sua ansiedade para visitar a China. Mas esclareceu: “Eu sou o médico clínico, os especialistas são eles”, mostrando os dois cardeais. Nesse momento Romano tirou do bolso um rascunho de carta na qual o Pontífice convidava Xi para Santa Marta para “meditar e lutar juntos por uma paz mundial duradoura”, e o comunicava do anseio de “visitar a China o quanto antes”.

Parolin pegou o papel e, balançando a cabeça, alertou: “Aqui está faltando o problema da Igreja na China”. Ele se referia à clandestinidade na qual os bispos obedientes a Roma exercem seu ministério, em um país no qual somente a Associação Chinesa Católica Patriótica é reconhecida, que é ligada ao Estado. “Cardeal, o ótimo é inimigo do bom”, respondeu Romano. Parolin concordou. O Papa pediu para ver de novo o rascunho. “Esta carta está boa. Só precisa acrescentar um parágrafo sobre a situação dos católicos. O senhor, Romano, receberá uma resposta nas próximas horas”. Dois dias depois, Parolin entregou ao leigo um envelope lacrado dirigido ao presidente da China. Os três argentinos chegaram em Pequim no domingo, 6 de setembro, e entregaram a carta para o diplomata Xu Yicong, assessor de Xi nas relações com a América Latina e ex-embaixador em Buenos Aires, Havana e Quito.

Que um jesuíta pretenda inaugurar uma nova era nas relações entre a Igreja e a China não deveria ser uma surpresa. A Companhia de Jesus chegou na Corte Imperial em 1582, levada pelo missionário Matteo Ricci, que morreu em 1610 em Pequim, onde está enterrado. Além de pregar o evangelho, Ricci colocou a África, a Europa e a América na cartografia chinesa e escreveu um tratado sobre geometria euclidiana em mandarim.

A Santa Sé pede para designar os bispos no país, mas o regime chinês considera isso um desafio
Ricci enfrentou dificuldades com o receio dos chineses por todo estrangeiro. Seu herdeiro Bergoglio terá a mesma sorte? O projeto é ambicioso: atravessa uma muralha cultural para demonstrar que a Igreja não é um fenômeno hemisférico e merece ser chamada de católica, ou seja, universal.

A China e o Vaticano não têm relações. A Santa Sé pede para designar os bispos no país. Mas o regime chinês considera essa aspiração um desafio. Implica habilitar uma corrente de ideias e valores controlados por Roma. É verdade que o catolicismo não tem na China, com 12 milhões de fiéis, a força mobilizadora que tinha na Europa oriental quando João Paulo II se propôs a minar o comunismo. Mas assim que Francisco declarou para a imprensa seu amor pelo povo chinês, o vice-presidente dos Católicos Patriotas aconselhou o Vaticano a não interferir na vida religiosa nacional. Mesmo assim, o Papa desperta admiração em muitos chineses. O China International Press Forum, que reúne os 50 grandes veículos da imprensa do país, o incluiu entre as 10 personalidades mais importantes de 2013.

Francisco cumprimentou Xi para se aproximar. Xi lhe respondeu e, em agosto, permitiu que ele atravessasse o espaço aéreo chinês para chegar na Coréia do Sul. O exercício sutil da pressão é próprio de Bergoglio, que tem como livro de cabeceira um clássico de Liddel Hart, A estratégia da aproximação indireta. Entre as numerosas recomendações de Hart se encontra esta: “É preciso evitar o ataque frontal a toda posição estabelecida por longo tempo e tentar envolvê-la com um movimento pelos flancos que deixe um lado mais penetrável para a verdade”. Francisco segue essas lições para aproximar-se da China. E também para persuadir a cautelosa burocracia do Vaticano, que foi surpreendida por três argentinos peronistas.

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