Obama, próximo da reação de Bush

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Por: Jonas | 25 Agosto 2014

Obama converteu a selvageria do “califado” em uma batalha inter-religiosa de deuses rivais: ‘o nosso’ (quer dizer, do Ocidente) contra o ‘deles’ (o deus muçulmano, claro). Isso foi o mais próximo que Obama chegou para competir com a reação de George W. Bush, em 11 de setembro, quando disse que ‘íamos para uma cruzada’”, escreve o jornalista Robert Fisk, em artigo publicado por Página/12, 22-08-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O “califado” tem alguns produtores teatrais bastante duros. Escrevem um roteiro sombrio e selvagem. Nosso trabalho agora é responder a cada linha e eles nos entendem o suficiente para saber exatamente o que vamos dizer. Assim que decapitaram James Foley e ameaçaram fazer o mesmo com um de seus colegas, o que fizemos? Predisse justamente há 24 horas: transformar o assassinato de Foley em mais uma razão para continuar bombardeando o “califado” do Estado Islâmico. E o que mais fizeram para nos provocar ou para interromper as férias de Barack Obama? Uma batalha em termos estritamente religiosos, que é exatamente o que queriam.

Sim, Obama – antes de voltar aos campos de golfe – informou ao mundo que “Deus não toleraria o que os jihadistas fizeram e o que fazem todos os dias”. Dessa forma, Obama converteu a selvageria do “califado” em uma batalha inter-religiosa de deuses rivais: “o nosso” (quer dizer, do Ocidente) contra o “deles” (o deus muçulmano, claro). Isso foi o mais próximo que Obama chegou para competir com a reação de George W. Bush, em 11 de setembro, quando disse que “íamos para uma cruzada”. Agora, claro, Obama não se referia ao deus muçulmano, nem aos deuses de Bush enviando milhares de guerreiros cristãos montados a cavalo às terras bíblicas do Oriente Médio. Na verdade, Bush enviou apenas guerreiros montados em tanques e helicópteros para essas terras. Não, Obama também anunciava que as vítimas do “califado” são “esmagadoramente muçulmanas” – ou seja, o “califado” não era inteiramente muçulmano -, ainda que seu entusiasmo em intervir, em inícios deste mês, não tenha sido causado por sua simpatia para com estes milhares de pobres muçulmanos, mas, sim, pela perseguição dos cristãos e yazidis. E, claro, pelo risco para as vítimas potenciais dos Estados Unidos - um fato que os homens de Abu Bakr al Baghdadi (califa do Estado Islâmico) entenderam muito bem -.

Por isso, mataram o pobre James Foley. Não porque era jornalista, mas, sim, porque era estadunidense, um dos que Obama prometia defender no Iraque. Independente se o mandatário se esqueceu dos reféns estadunidenses na Síria - a tentativa dos militares dos Estados Unidos em resgatá-los ao menos demonstrou que sabiam que Foley estava na Síria -. Contudo, por que o Estado Islâmico está na Síria? Para derrotar o regime de Bashar al Assad, claro, que é o que nós também estamos procurando fazer, ou não?

O que fez Obama pensar que podia dizer aos muçulmanos o que um “deus justo” faria ou deixaria de fazer? Um presidente que lamenta a guerra de Bush no Iraque, não percebe que milhões de muçulmanos no Iraque acreditam que “não apenas Deus” não teria tolerado a invasão estadunidense no Iraque, em 2003, como também as dezenas de milhares de iraquianos massacrados por causa das mentiras de Bush e Blair? Fiquei surpreso ao escutar Obama anunciar que “uma coisa em que todos estamos de acordo é que um grupo como o Estado Islâmico não tem lugar no século XXI”.

Por alguma razão, realmente pensamos que os muçulmanos do Oriente Médio necessitam de nós para que contemos a sua história, o que é bom e o que é ruim para eles. Para os muçulmanos que concordam que o assassinato de Foley é um crime repugnante contra a humanidade, seria insultante se um cristão dissesse que “só Deus” aprova ou desaprova. E os que apoiaram tal crime devem estar ainda mais convencidos de que os Estados Unidos eram um inimigo de todos os muçulmanos.

Em relação ao algoz britânico “John”, sou levado a pensar que pode ser que tenha vivido em Newscastle, porque tinha uma pitada de sotaque “geordie”. Mas, “John” poderia ter sido francês, russo ou espanhol. Não é que algo não estava bem em sua cabeça, mas, sim, que algum fenômeno afligiu muitos outros jovens, milhares, a fazer o mesmo. Como se explica, por exemplo, que um australiano, pelo que parece, permita seu filho posar para uma foto com a cabeça de um soldado sírio decapitado (um soldado a serviço, claro, do exército do regime de Assad, que todos juramos derrotar)?

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