Iraque: o horror da guerra aos olhos das crianças

Revista ihu on-line

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

Mais Lidos

  • Comunhão na Igreja dos EUA ''já está fraturada''. Entrevista com Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • A disrupção é a melhor opção para evitar um desastre climático, afirma ex-presidente irlandesa

    LER MAIS
  • “Sim, nós podemos combater as desigualdades”. Entrevista com Thomas Piketty

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

18 Agosto 2014

Meninas estupradas e depois vendidas no mercado de escravos. Crianças alistadas à força nas milícias jihadistas e depois também estupradas. Isso pode ser lido nas Horizontal notes, o último relatório trimestral elaborado pelo pessoal da Unicef no Iraque, em que, entre os números, as estatísticas e tantas localidades escritas em árabe, é fácil perceber os gritos de dor e de terror lançados pelas jovens Raghad, Jinan, Louisee Zozan ou pelos pequenos Raed Ayad, Shero e Clément.

A reportagem é de Pietro Del Re, publicada no jornal La Repubblica, 13-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A lista de atrocidades e abusos cometidos contra menores pelos grupos do Estado Islâmico foi redigida em nome do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Kimoon, que, depois, deverá referi-lo ao Conselho de Segurança.

Quem revela as atrozes verdades nele contidas é Marzio Babille, de Trieste, um pediatra com vasta experiência na ajuda humanitária e representante da organização da ONU para a infância em Bagdá, Ed Erbil.

Diz Babille: "São acusações cuidadosamente avaliadas pelos nossos funcionários infiltrados in loco: nos últimos seis ou sete meses, desde que começou a grande ofensiva do Estado Islâmico no norte e no centro do Iraque, os crimes contra os menores aumentaram incrivelmente de Ambar a Tikrit, de Fallujah a Mosul e Qaraqosh, ou seja, em todos os territórios conquistados pelo autoproclamado califa Abu Bakr Al Baghdadi".

As vítimas dessas violências não são apenas as crianças cristãs, mas as de todas as minorias que, das periferias de Bagdá à planície de Nínive, ou às férteis margens do Tigre e do Eufrates, ficaram presas durante o irresistível avanço militar das brigadas jihadistas.

Entre essas minorias, contam-se os yazidi, os xiitas, os turcomanos e os curdos, ou seja, todos aqueles que os islamitas consideram infiéis e sobre os quais infligem as piores humilhações. "Em uma família, quando há duas meninas, uma é automaticamente sequestrada pelo Estado Islâmico, que a coloca a leilão no mercado das escravas sexuais ou que faz dela um presente aos seus milicianos, talvez como prêmio por uma vitória no fronte."

Se na família houver crianças, os jihadistas sorteiam os meninos, que, quando têm a infelicidade de serem crianças lindas, também são transformados em objetos sexuais. Recém-alistadas, essas crianças são imediatamente armadas e equipadas militarmente a partir do zero, mas, estando muitas vezes assustadíssimos com o que está acontecendo com eles e por serem pequenos demais para poderem se comportar como verdadeiros soldados, são selvagemente espancados pelos seus raptores.

Para proteger a infância das violações nos países marcados por conflitos sangrentos como a Somália, o Afeganistão, a Síria ou justamente o Iraque, a organização das Nações Unidas elaborou a seguinte lista de crimes-tabu contra menores: o assassinato e a mutilação de crianças, o sequestro, o estupro e outros atos sexuais, o recrutamento por grupos armados, a destruição de escolas e de hospitais, a restrição voluntária do espaço humanitário.

"Pois bem, no Iraque, todos esses crimes estão sendo cometidos atualmente pelos grupos islamitas, como demonstram os circunstanciados testemunhos pacientemente coletados pelos nossos operadores junto às famílias, em sua maioria relutantes a confessar a estranhos as injustiças que os seus filhos sofreram", acrescenta Marzio Babille.

E é nesses questionários científicos – em que se pergunta às vítimas quando, onde, a que horas e em que lugar foi transgredida uma lei contra os menores – que transparecem as mais abomináveis atrocidades.

De fato, as respostas dadas muitas vezes falam de famílias separadas, de filhos arrancados dos braços dos pais, de torturas, de homicídios e de traumas indizíveis, tudo cometido em nome de uma fé desviada.

Entre as minorias iraquianas, a que é mais maltratada pelo Estado Islâmico talvez seja a yazidi, por ser a menor, a mais fechado e a mais indefesa. Quem dá voz a esse povo antigo é a sua deputada no parlamento de Bagdá, Vian Dakhil, que, em primeiro lugar, gritou ao mundo o genocídio em curso.

No dia 12, ela ficou ferida no acidente do helicóptero em que viajava e que estava realizando um reconhecimento humanitário no norte do Iraque, transportando ajudas humanitárias destinadas a dezenas de milhares de pessoas que ficaram presas nas montanhas de Sinjar enquanto fugiam dos jihadistas.

Única representante política da sua minoria e deputada da Aliança Curda, há quatro dias, Dakhil tinha dirigido um apelo apaixonado ao presidente do parlamento justamente para salvar os yazidi presos nas montanhas.

No domingo passado, ela também denunciara que, a cada dia, 50 crianças morrem de diarreia e de desidratação. No dia 12, antes de embarcar no helicóptero, a deputada também revelou à imprensa internacional que há dias jihadistas mantém como reféns mais de 600 meninas yazidi em uma das prisões da província de Nínive. Agora também sabemos o destino delas.

Babille diz: "Durante a minha longa carreira como médico de guerra, morreram muitas crianças entre os meus braços, principalmente de malária ou de tifo. Mas ver uma criança morrendo de sede é realmente assustador. Nas montanhas acima de Sinjar, devem ter ficado 30 mil yazidi. Mas talvez já sejam muito menos: o cansaço e a falta de comida e de água estão dizimando aos milhares".

Entre as muitas histórias recolhidas na última Horizontal note do Unicef no Iraque, uma é particularmente triste. É a da pequena Gihan, cristã de Mosul. Quando as milícias arrombaram a porta de sua casa para roubar os poucos bens da sua família, os seus pais tinham conseguido escondê-la. Dois dias depois, o pai carregou todos no carro para tentar a fuga para o Curdistão iraquiano. Partiram em plena noite, mas o carro em que fugiam foi parado pelos islamitas depois de alguns quilômetros. Desde então, perderam os rastros de Gihan. Ela tem apenas 12 anos.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Iraque: o horror da guerra aos olhos das crianças - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV