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15 Julho 2014

"O papa tem razão. Embora a pedofilia na Igreja tenha diminuído, mesmo apenas alguns casos dilaceram o coração e pesam nas nossas consciências. Hoje, a linha é a da não tolerância, e não se volta atrás. Se não fosse assim, não se explicaria o impressionante caso do ex-núncio na República Dominicana, Dom Jozef Wesolowski, recentemente laicizado por abuso sexual."

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 14-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Michele Pennisi, arcebispo de Monreale e membro da Comissão Episcopal para a Educação Católica, a escola e a universidade da Conferência Episcopal Italiana, comenta a última conversa do papa com Eugenio Scalfari, explicando que, "dentre outras coisas, a não tolerância nesses casos é do DNA do direito eclesial: a prescrição para os crimes de abuso sexual de menores é praticamente inexistente na Igreja, mas não no direito penal".

Porém, no passado, alguns bispos encobriram os casos, transferindo os padres pedófilos de diocese em diocese. "É verdade – explica o padre Fortunato Di Noto, fundador da Associação Meter que luta contra a pedofilia –, mas com Francisco uma revolução está em curso. A principal reforma que o papa está colocando em campo, mais do que a da Cúria Romana ou litúrgica, é inerente ao crime da pedofilia. Uma mancha para a Igreja (e não só), sobre a qual finalmente se fala sem simplificações."

Nesse domingo, o padre Federico Lombardi, porta-voz vaticano – ao especificar que uma conversa entre o papa e Scalfari não foi "uma entrevista no sentido habitual do termo", porque, embora "cordial e muito interessante", relata frases entre aspas que são fruto da memória do "jornalista especialista" Scalfari, mas não de uma transcrição exata de uma gravação –, explicou que Francisco não falou de cardeais pedófilos.

Na Igreja, no entanto, há casos dolorosos: além do cardeal Hans Hermann Groer, à frente da diocese de Viena de 1986 a 1995 e acusado de molestar sexualmente dos alunos menores de idade do seminário de Hollabrunn, há o caso mais recente do cardeal escocês Keith O'Brien, que admitiu a sua responsabilidade por assédio sexual cometido contra seminaristas por mais de 30 anos. Por isso, dentre outras coisas, ele não participou do recente conclave.

"A Igreja não deve negar as suas responsabilidades", diz ainda o padre Di Noto. "Recentemente, foi justamente Francisco que falou sobre graves responsabilidades dos chefes da Igreja. As culpas existem e pesam. É preciso não negar, mas combater, com uma reforma dura, como eu acredito que seja do auspício do papa. Eu li a conversa com Scalfari publicada nesse domingo. Se o dado de 2% da pedofilia na Igreja é verdade, eu acredito que seja um número muito preocupante. Significa que mais de 8.600 padres em todo o mundo cometem abusos. É um dado que inquieta."

Tanto que, ainda no domingo, foi Barbara Dorris, diretora da associação norte-americana SNAP, que luta contra os abusos sexuais cometidos por religiosos, que falou de números graves e preocupantes e que perguntou: "Agora, porém, os fatos devem se seguir às palavras".

A Igreja com Francisco está agindo como não tinha feito antes. É verdade, foi Bento XVI que rasgou o véu de cumplicidade que havia caracterizado os pontificados anteriores. Mas é inegável que, com Bergoglio, foi dado um novo impulso.

"Deixem que as crianças venham a mim", disse Jesus. Isso significa que é da missão do cristianismo acolher a inocência. Enquanto violá-la deveria ser ação estranha a todo cristão. A Igreja, desde o século III, assumiu posições muito duras em relação àqueles que ofendiam as crianças. Depois, algo se rompeu.

"Os encobrimentos – diz o padre Di Noto – existiram e são espinhos amargos. Quem errou deve pedir perdão. Enquanto a Igreja penitente e sofredora deve assumir as próprias responsabilidades."

Francisco está fazendo isso. Há uma semana, durante uma missa celebrada na presença de seis vítimas da pedofilia dos padres, ele disse: "Os líderes da Igreja não responderam de maneira adequada às denúncias de abuso apresentadas por familiares e por aqueles que foram vítimas de abuso".

O abuso do clero contra as crianças, e em particular os suicídios daqueles que não puderam suportar a dor, "pesam no meu coração, na minha consciência e na de toda a Igreja". Por isso, "peço perdão também pelos pecados de omissão por parte dos líderes da Igreja".

Junto do papa, trabalha o cardeal Sean O'Malley, arcebispo de Boston. Ele foi um dos primeiros a romper, depois da era do cardeal Bernard Law, o tabu de uma diocese manchada por crimes cometidos pelos seus padres. A partir daí, um vento novo começou a entrar na Igreja.

Não por acaso, foi a O'Malley que Francisco confiou a Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores por ele criada em dezembro passado. Uma comissão que abriu as portas também para as vítimas. Entre elas, a irlandesa Marie Collins, que, em março passado, disse ao jornal La Repubblica: "Não é óbvio que a Igreja peça ajuda a uma vítima da pedofilia dos padres para melhorar a proteção dos menores. No entanto, acredito que esse é um passo decisivo. Não se pode mudar se a voz de quem sofreu abusos não é ouvida".

A comissão trabalha com empenho, mesmo que os números ainda hoje sejam impressionantes: 800 denúncias chegaram à Congregação para a Doutrina da Fé só em 2004, o pior ano. É de 600 a média anual das denúncias apresentadas em 2010, 2011 e 2012 (majoritariamente por abusos cometidos de 1965 a 1985). E são 400 os padres acusados de abuso sexual de menores laicizados por Bento XVI no biênio 2011-2012. As indenizações pagas são impressionantes: 600 milhões de dólares pagos em 2002 pelo arcebispo de Los Angeles a 500 supostas vítimas de abuso e oito milhões de dólares pagos pela Igreja austríaca por 800 casos de abuso em 2010. No Canadá, a Igreja chegou a pagar até uma indenização de 706 milhões de dólares.

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