O controle dos corpos e dos saberes. Entrevista com Walter Mignolo

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Por: André | 11 Julho 2014

“A universidade foi e segue sendo uma instância fundamental da colonialidade do saber”, define Walter Mignolo (foto), argentino e professor da Duke University (Estados Unidos), onde dirige o Centro de Estudos Globais e Humanidades. Mignolo é uma das referências da corrente de pensamento descolonial, uma rede de intelectuais constituída há cerca de 15 anos. A ideia fundamental do grupo é de que a colonialidade opera a partir de uma matriz de poder com pretensões universalistas, a matriz totalitária da razão moderna, instituída sobre a dominação e a exploração de seres humanos definidos como inferiores desde a invenção da noção de raça.

 
Fonte: http://bit.ly/1mvKdF2  

O pensamento descolonial considera parte dessa lógica/retórica tanto o capitalismo como o socialismo, e toma distância de outros pensamentos que questionam a modernidade (Nietzsche, teoria crítica, Foucault, pós-estruturalismo, pós-modernismo), que considera eurocentrados, incapazes de dar conta do silenciamento de outras culturas inerentes à colonialidade.

A rede modernidade/colonialidade promove um horizonte de inclusão do diverso, a pluriuniversalidade, o que explica sua proximidade com as populações vítimas da “ferida colonial”, comunidades indígenas e movimentos sociais da África, Ásia e, especialmente, da América Latina. Desde essa perspectiva, Mignolo analisa o papel que desempenharam as universidades.

A entrevista é de Javier Lorca e publicada no jornal argentino Página/12, 08-07-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual foi a função da universidade no processo da modernidade/colonialidade?

A universidade foi e segue sendo uma instância fundamental da colonialidade do saber. A transformação na Europa das universidades medievais (Bolonha, Salamanca, Coimbra) em universidades renascentistas estendeu-se no século XVI às colônias hispânicas: a Universidade de Santo Domingo, no México, San Marcos, de Lima, no Peru, a Universidade de Córdoba, na Argentina. E a Harvard, nos Estados Unidos, no século XVII. Enquanto Portugal não incentivou a criação de universidades, a Espanha se autoassinalou uma missão teopolítica: o controle dos corpos mediante o controle das almas, ou seja, das subjetividades. No século XVIII, a universidade renascentista mutou-se, na Europa, na universidade kantiana-humboldtiana. Esse modelo de universidade desloca a universidade teológico-humanista dos Estados monárquicos e nasce a universidade dos Estados seculares: a ideia de cidadania e democracia conecta o controle do conhecimento ao controle da autoridade. Na América, as universidades coloniais teológico-monárquicas mutam-se em universidades seculares estatais. E se fundam outras universidades, como a do Chile, em 1862, e a UBA, em 1821. Tudo isto antes que a França e a Inglaterra colonizassem a África e a Ásia, e começasse aí a instalação de universidades kantianas-humboldtianas. Enfim, a universidade e o museu são duas instituições chaves sobre as quais se fundou e se mantém a colonialidade do saber e da subjetividade.

Como esse processo continuou no século XX?

Na segunda metade do século XX, sob a liderança dos Estados Unidos, as universidades se transformaram – e ainda estão se transformando – em universidades corporativas. Ou seja, as universidades são administradas como corporações e adotam os valores das corporações: eficiência, excelência no sentido corporativo, pesquisas que serão aproveitadas pelas corporações para mercantilizar desde a farmacologia até a alimentação. Ao mesmo tempo, desde o princípio do século XX começou um novo ciclo que copia o do século XVI: a instalação de universidades dos Estados Unidos nos Estados do Golfo Pérsico (Catar, Kuwait) e no leste e sudeste asiático (China, Singapura). No entanto, as coisas mudaram. Não é certo até que ponto as universidades estadunidenses transmitem valores ocidentais e até que ponto o saber ocidental é apropriado para benefício de projetos de desocidentalização. Isto não foi possível no século XVI, posto que as populações indígena e africana foram marginalizadas das esferas do saber. Na América luso-hispânica, depois das independências, as elites criolas locais que administraram as universidades transformaram-se em servidores imperiais para manter a colonialidade do saber nas ex-colônias.

Que papel poderiam cumprir as universidades em um processo de descolonização?

É difícil pensar hoje que os dirigentes universitários em qualquer parte do mundo se proponham descolonizar o saber. Estes projetos provêm do corpo docente e discente, não da administração. Seria semelhante a esperar que o Estado inicie projetos de descolonização. Embora na Bolívia o Estado empregue este vocabulário, a descolonização não é uma questão de políticas estatais. Os Estados estão atrelados às corporações e aos bancos. A administração universitária pode apoiar, em certos momentos, algumas iniciativas, mas não lhe é possível iniciar estes projetos. No dia em que as universidades públicas ou privadas gerirem a descolonização pedagógica, será porque os processos de descolonização que percebemos na sociedade política já contribuíram para uma mudança radical e para a dissolução da matriz colonial de poder. No momento, a descolonialidade é uma visão e uma orientação que coexiste e coexistirá em tensão com outras visões e sistemas de ideias (o liberalismo, o neoliberalismo, o marxismo, o cristianismo, o confucionismo, o islamismo), assim como com orientações e visões disciplinares (ciências humanas e naturais, escolas profissionais, etc.). A decolonialidade é uma opção entre outras.

Conhece alguma experiência acadêmica que vá nesse sentido? O caso da Amawtay Wasi, no Equador?

O caso da Universidade Intercultural das Nacionalidades e dos Povos Indígenas Amawtay Wasi é um exemplo. Esta sim foi uma universidade liderada pela liderança indígena. Mas Rafael Correa fez de tudo para desqualificá-la, baseado em formas corporativas de avaliação de “excelência”... A educação, na Amawtay Wasi, foi organizada em quatro centros curriculares: Ushay-Yachay ou da Interculturalidade, Ruray-Ushay ou das Tencociências para a vida; Munay-Ruray ou do Mundo vivo; e Yachay-Munay ou das Cosmovisões.

O centro dos quatro centros é Kawsay, que de maneira imprópria se traduz como “Bem Viver”: Sumak Kawsay seria a plenitude do viver alcançada através do conhecimento. Esse é um modelo de pedagogia decolonial e, portanto, de universidade decolonial. Esta universidade não foi uma iniciativa do Estado. Pelo contrário, o Estado a enclausurou. Correa poderia ter apoiado a Amawtay Wasi ao mesmo tempo que criava universidades corporativas. Mas não lhe restava outra, para ser curto e grosso. Hoje, os Estados necessitam das universidades não tanto para formar subjetividades cidadãs, como era o caso da universidade kantiana-humdoldtiana, mas para preparar especialistas que permitam aos Estados “estar à altura” dos tempos, e os tempos marcam outro tipo de educação: a reprodução da colonialidade do saber adaptada a tecnologias para aumentar a produção e os lucros, administração de empresas para aumentar o lucro, engenharia e geologia, para expandir o extrativismo, pesquisas para aumentar os agronegócios. Enfim, trata-se de impulsionar pesquisas que promovam o “desenvolvimento” e desautorizar pesquisas que mostrem a colonialidade do saber escondida sob a retórica desenvolvimentista. Na Argentina, o caso de Andrés Carrasco fala por si mesmo.

Qual foi sua própria experiência? Encontrou dificuldades para o pensamento descolonial nas instituições onde trabalhou?

Encontro as “dificuldades” não tanto nas universidades, mas no Facebook... (risos) Na Duke University ninguém se opõe abertamente. É uma política geral nos Estados Unidos, uma vez que estás dentro, te deixam fazer. Por outro lado, o apoio depende das universidades. Quem leva adiante esta forma de fazer e pensar o faz à margem da orientação geral das universidades. Trata-se, pois, das “tretas do fraco”, como aprendemos de Josefina Ludmer, estratégia que é válida em várias esferas.

O doutorado criado por Catherine Walsh na Universidade Andina de Quito é um caso exemplar de pedagogia decolonial sem que tenha sido uma iniciativa das autoridades. O título é “Estudos Culturais Latino-Americanos”, mas a orientação é claramente descolonial. Embora não o descolonial como um “método” para os “estudos culturais”, posto que o descolonial é uma maneira de pensar e de estar no mundo, e não um método para estudar. Pensar descolonialmente significa desatrelar-se dos pressupostos da epistemologia moderna baseados na diferença entre sujeito cognoscente e objeto a conhecer. Quando, nas propostas de tese se lê “meu objeto de estudo é X” e “meu método é Z”, sabemos que estamos em plena colonialidade do saber. Mas, sem dúvida, é mais do que isto. A descolonialidade são os processos de busca de se estar no mundo e fazer nesse estar (kuscheanamente dito), desobedecendo àquilo que a retórica da modernidade e do desenvolvimento quer que sejamos e façamos.

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