Religião e nazismo no ano fatídico de 1934

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05 Julho 2014

A "Igreja Confessante" pagou com o sangue o seu "não" ao nazismo.

A reportagem é de Angelo Paoluzi, publicada no sítio do Servizio de Informazione Religiosa (SIR), 03-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Oitenta anos atrás, na "Declaração de Barmen", houve a contestação à pretensão do regime de controlar uma Igreja de estado propensa às suas vontades e que se adequasse às suas concepções de fundo: a raça, o solo, o sangue. Foi altíssimo o preço a ser pago: ao menos 400 pastores protestantes morreram nas forcas ou nos campos de concentração.

O ano de 1934 foi quente, período em que Adolf Hitler aperfeiçoou a conquista do poder na Alemanha. No dia 29 de junho, na famigerada "noite das facas longas", ele fez com que fossem brutalmente assassinados os inimigos internos e externos, de 200 a 1.000 pessoas que ele considerava que estavam impedindo os seus planos.

Em julho, ele ordenou o homicídio do chanceler austríaco Engelbert Dollfuss, acérrimo opositor da ideia de anexação do seu país ao Reich. Em agosto, morria o presidente Paul von Hindenburg, e Hitler imediatamente se autonomeou como "Führer", chefe do Estado e chanceler. Começava a política dos campos de concentração, que logo abrigaram um milhão de alemães; e depois vieram os judeus.

A nazificação, as frustrações

Nesse mesmo período, há 80 anos, consumou-se a extrema e corajosa tentativa das Igrejas Evangélicas de se oporem à sua nazificação (os católicos já tinham pago, e pagariam de novo, com anos de prisão e dezenas de vítimas).

Os protestantes haviam sofrido dois choques: a derrota militar da Alemanha em 1918 e a separação, inscrita na Constituição de Weimar, entre Igreja e Estado. Tendo-se tornado iguais todas as confissões perante a lei, ocorria a queda de um pilar, a dignidade de religião de Estado, sobre o qual historicamente tinha se articulado a supremacia dos reformados, reforçada pelo papel assumido, depois de 1870, pelo imperador alemão como seu supremo protetor.

O ressentimento pela nova situação alimentaria as tendências mais reacionárias do "país protestante": como demonstrariam os sucessos obtidos pelos nacional-socialistas nas regiões de maioria evangélica e a menor aderência eleitoral para as camisas marrons nas regiões de maioria católica (excluindo a Baviera).

Consenso para Hitler

Esse sentimento de frustração seria, assim, a base do consenso para Hitler, até mesmo por causa das características específicas do protestantismo, menos aberta ao universal respeito pela Igreja de Roma e com os seus quadros dirigentes propensos a um acentuado particularismo.

Mas, por outro lado, assistia-se a um novo fenômeno: a transformação em sentido positivo, a coragem de um reposicionamento espiritual que encontra em uma elite evangélica os seus seus homens de ponta: entre eles, Karl Barth, um dos protagonistas da história da espiritualidade protestante do século passado, e Dietrich Bonhoeffer, o mártir luterano por excelência, que pode ser considerado como um místico cristão do século XX. E essa elite, não por acaso, se encontraria inclinada contra o nazismo na Igreja Confessante, a "Bekennende Kirche".

O desafio ao regime

Era uma minoria, combativa, como se queira, mas desarmada, forte apenas pela sua consciência moral, que desafiou o regime em dois sínodos, em Barmen no fim de maio de 1934, em Dahlem em outubro.

O primeiro dos dois teve uma ressonância maior, também no plano internacional, especialmente porque nele foi elaborada a "Declaração de Barmen", que, em cerca de 30 pontos, contestava a pretensão do nazismo de controlar uma Igreja de Estado propensa às suas vontades e que se adequasse às suas concepções de fundo: a raça, o solo, o sangue.

A rejeição era teologicamente motivada contra a "falsa doutrina – declarava o artigo 15 – de que há áreas da nossa vida em que nós não pertenceríamos a Jesus Cristo, mas a outros senhores; áreas em que não precisaríamos de justificação e de santificação por meio d'Ele".

E se recusava, dentre outras coisas, o "parágrafo ariano" (isto é, aquele que previa a expulsão dos pastores de ascendência israelita), contido na "lei eclesiástica" promulgada sob a pressão das autoridades nazistas. O último ato de coragem foi um memorando de em 1936 dirigido pessoalmente a Hitler, como severa acusação contra o regime.

Dura repressão

A reação seria violenta e veria, ao longo dos anos, ao menos 400 pastores tornarem-se vítimas do regime, consumindo-se nas forcas ou nos campos de concentração, como Paul Schneider, que todos os dias proclamava em voz alta, no campo de concentração onde estava preso, "só Deus é o Senhor!".

Mas o testemunho dos opositores religiosos seria um testemunho de grande importância para o futuro, a partir daquele diálogo sobre a justificação paulina entre Karl Barth, forçado ao exílio, e o teólogo católico Romano Guardini (também ele reduzido ao silêncio pela ditadura), até chegar à descoberta de certas razões cristãs últimas que encontrariam em Bonhoeffer um precursor do ecumenismo (não por acaso, um dos seus livros, Discipulado, foi assumido como texto de reflexão por parte dos católicos), base de um discurso que se desenvolveria depois da queda do nazismo e, como mais razão, depois do Concílio.

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