Visita de Francisco exalta a Comunidade de Santo Egídio

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17 Junho 2014

Categorias políticas são um encaixe inexato para realidades religiosas, mas, se vamos usá-las de qualquer maneira, é difícil detectar um maior vencedor no catolicismo com o Papa Francisco do que a Comunidade de Santo Egídio, cujo compromisso com os pobres, com o diálogo inter-religioso e com a paz parece um encaixe ideal.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal The Boston Globe, 16-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Francisco visitou a sede romana do renomado movimento leigo nesse domingo, saudado por cerca de dez mil pessoas. A multidão que enfrentou uma tempestade romana à noite incluía dezenas de imigrantes, pobres, sem-teto, ciganos, pessoas portadoras de deficiência e famílias da classe trabalhadora.

"Vocês aprenderam a olhar para os outros, especialmente para os pobres", disse Francisco aos membros da Santo Egídio.

Talvez percebendo que estava entre amigos, Francisco também proferiu outra crítica dura contra as formas de capitalismo que ele considera como insensíveis ao custo humano das decisões financeiras.

"No centro da economia global de hoje não estão os homens e as mulheres, mas os líderes e o dinheiro", disse Francisco. "O que não é produtivo é jogado fora."

Na verdade, a Santo Egídio gozava do favor de João Paulo II e de Bento XVI também. Ambos os papas admiravam o seu serviço aos pobres, bem como a sua espiritualidade palpável (a Santo Egídio realiza um lendário serviço de oração noturno para atrair até mesmo secularistas cansados com belas músicas e uma pregação convincente).

No entanto, o catolicismo de centro-esquerda e orientado à justiça social da Santo Egídio sempre foi um contraste com outras forças que se destacaram com esses pontífices – tanto que o apoio de João Paulo II e de Bento XVI à Santo Egídio seria algo que seus admiradores citariam para argumentar que eles não eram apenas estereotipadamente "conservadores".

Hoje, a Santo Egídio se destaca não como um elemento levemente surpreendente da agenda do papa, mas como algo próximo do núcleo do seu coração.

Francisco elogiou a Santo Egídio no domingo à noite pelo seu compromisso com o ideal da "solidariedade", um termo da doutrina social da Igreja que implica que as nações e as economias têm uma responsabilidade especial para ajudar os pobres e os necessitados.

"Algumas pessoas têm tentado tirar a palavra 'solidariedade' do nosso vocabulário", disse Francisco. "Mas a solidariedade é uma palavra cristã!"

O papa parecia convencido de que estava falando a um grupo que partilhava a sua linguagem.

Originalmente, a Santo Egídio era um veículo para a juventude romana de estilo progressista, que queria permanecer católica, em vez de se desviar para o então poderoso movimento comunista da Itália. Ela começou abrindo escolas para os pobres urbanos e rapidamente se ramificou em outras formas de evangelho social.

Ao longo do tempo, a Santo Egídio assumiu a causa do diálogo ecumênico e inter-religioso. Depois que o Papa João Paulo II realizou uma grande cúpula de líderes religiosos em Assis, em 1986, a Santo Egídio tornou-se a portadora semilicenciada do papa polonês do "Espírito de Assis", realizando suas próprias assembleias inter-religiosas todos os anos em cidades ao redor do mundo.

Refletindo esse espírito, um dos dignitários à disposição para cumprimentar Francisco no domingo era Riccardo Pacifici, presidente da comunidade judaica de Roma, que tem laços de longa data com a Comunidade de Santo Egídio.

O movimento também foi apelidado de "ONU de Trastevere", o bairro romano onde sua sede está localizada, porque a Santo Egídio também atua como solucionadora de problemas diplomáticos. Seu sucesso emblemático veio em Moçambique, onde os negociadores da Santo Egídio intermediaram um acordo de paz em 1992, que pôs fim a uma guerra civil de 15 anos, que tinha custado um milhão de vidas e que deixou cinco milhões de desabrigados.

"O mundo está sufocando com a falta de diálogo", disse Francisco no domingo à noite. "Vocês mantêm viva a esperança pela paz."

O compromisso do movimento com os marginalizados é quase ubíquo. Em Trastevere, a Santo Egídio opera um restaurante popular chamado "Trattoria de Amigos", onde as pessoas portadoras de deficiência mental e física ajudam a compor a equipe.

Certamente, a Santo Egídio não tem poucos críticos. O fundador Andrea Riccardi diz que João Paulo II lhe disse uma vez, em tom de brincadeira, mas nem tanto, que a Santo Egídio "estava à beira de ser excomungada" pelos seus encontros inter-religiosos, que muitas vezes irritavam os tradicionalistas preocupados com o sincretismo e que enviavam a mensagem de que todas as religiões são iguais.

O veterano escritor italiano Sandro Magister levantou questões sobre as práticas internas da comunidade, acusando-os de desencorajar os membros casados de terem famílias numerosas, porque "os nossos filhos são os pobres", e também acusando a sua atividade diplomática de ser mais um "obstáculo" do que uma ajuda para o Vaticano.

Nada disso, no entanto, parece ter sido um empecilho para o carinho de Francisco.

Francisco conhecia a Santo Egídio na Argentina. Ele os encorajou a trabalhar nas villas miserias de Buenos Aires e presidiu a entrega de um doutorado honorário a Riccardi na Universidade Católica da Argentina, em 2006 – a primeira vez que tal honraria foi concedida a um leigo.

Um evento da Santo Egídio na Argentina também foi uma das poucas vezes em que o ex-presidente Néstor Kirchner, visto como um inimigo do então cardeal Jorge Mario Bergoglio, apareceu em público com o futuro papa.

Francisco parece igualmente entusiasmado com o movimento desde que se tornou papa. Ainda em outubro, ele avistou uma faixa do movimento junto com uma multidão durante uma das suas falas de domingo e exclamou: "Essas pessoas da Santo Egídio são bravas!"

Se a Santo Egídio está interessada em expandir o seu alcance global na Igreja Católica, provavelmente não há um momento melhor do que o atual, porque possivelmente eles não terão um melhor amigo no topo do que o que eles têm agora.

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