O teatro da FIFA

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Por: André | 05 Junho 2014

Um dos eventos mais suntuosos, e desnecessários, é o Campeonato Mundial de Futebol da FIFA (Fédération Internationale de Football Association), que não apenas não representa o esporte do futebol mundial, mas que é ostentação de máfias, injustiças e alienação há décadas. Curtina de fumaça anestésica. Além de mercantilismo, ilusionismo, exploração e consumismo desaforados, as autoridades do “Mundial” esmeraram-se em escancarar sua conivência política com as piores ditaduras. Dizem algumas fontes que o “Mundial” custará 14 bilhões de dólares (1), mas outras fontes duplicam (e mais) esse número até chegar nos 38 bilhões. Vejamos.

A reportagem é de Fernando Buen Abad Domínguez e publicada no sítio Rebelión, 04-06-2014. A tradução é de André Langer.

Junto com as fortunas obscenas que move antes, durante e depois do torneio “Mundial”, a FIFA agita as piores bandeiras dos nacionalismos que percorrem o mundo, desta vez a serviço dos departamentos mais in-imaginados entre lembrancinhas, roupa “esportiva”, passagens de avião e pacotes de hotéis e turismo. Não faltam as exclusividades “jornalísticas”, nem as fofocas do espetáculo futebolístico. Enquanto isso, o mundo arde.

O “Mundial” começará em São Paulo no dia 12 de junho de 2014 e terminará no Rio de Janeiro no dia 13 de julho. Para a FIFA é um negócio tão redondo como as bolas que comercializa. Preveem rendas em torno de seis bilhões de dólares, o que inclui tickets, transmissões televisivas e publicidade. E, por isso, já estão de olho no “mundial” de 2022, no Catar: “Os mega estádios serão de seis estrelas, e os luxos da cidade farão com que este evento seja o mais caro da história, com um investimento total de 65 bilhões de dólares, segundo a consultora Merryll Lynch. Para que tenha uma ideia, na África do Sul 2010, os investimentos foram na ordem de 11,4 bilhões. Catar 2022 contará com um total de 12 estádios; nove deles novos e três reformados, todos com ar condicionado especial para combater as altas temperaturas. O gasto total desse investimento será de aproximadamente quatro bilhões de dólares”. (2)

O que esse circo esconde e o que ele mostra?

Nem todos os números, por mais odiosos que sejam, permitem ver os transfundos do “Mundial” no cenário do mundo durante o mês crucial em que se eclipsará a realidade para nos submeter hipnoticamente ao futebol reduzido a show midiático. Há pessoas para quem todo pensamento crítico sobre o negócio dos chutes é insuportável. Reagem com raiva e não poucos se sentem traídos, como se a FIFA e seus negócios fossem da sua propriedade ou como se se tratasse de defender sua integridade física ou emocional. “Segundo se depreende do estudo Annual Review of Football Finance, elaborado pela empresa de serviços profissionais Deloitte, o futebol se posicionou como a 17ª maior economia do mundo, acima de países como Suíça, Bélgica e Taiwan e teria um PIB de 500 bilhões de dólares; como é de se esperar, um mercado com essas proporções não pode passar desapercebido pelas empresas e estas se encarregaram de convertê-lo em um dos negócios mais rentáveis da história”. O problema é muito sério, especialmente quando afloram os chovinismos, os nacionalismos irracionais, os racismos e as intolerâncias de toda ordem. Parece que a ilusão de ser “campeão” é intocável. Mas os protestos começaram nas entranhas mesmas de um dos países mais “futebolísticos” do mundo e onde o “mundial” é absolutamente antipático quando se olha a realidade econômica do Brasil e os dispêndios dos negócios com o futebol.

Palavras especiais merecem o palavreado dos publicitários, e seus clientes chefes, que vendem e compram todo tipo de discurso inflamado com exageros de mercado e capazes de inventar épicas extraterrestres nos pés de jogadores milionários que usam uniforme para correr atrás da bola e atrás da “copa” mundial desejada pelas marcas “esportivas” mais caras.

O amor ao futebol não é a mesma coisa que o fanatismo do mercado futebolístico

Quem desfruta do futebol associação, sem necessidade de estardalhaços nem prepotências, sabe que nas parafernálias do fanatismo se alojam núcleos mercantis histéricos que são funcionais à lógica demencial do capitalismo empenhado em aniquilar o direito social à crítica e a mais elementar obrigação da autocrítica. “...cerca de 4% da população mundial, ou seja, 270 milhões de pessoas participam ativamente deste esporte, dentre os quais se destacam 240 milhões de jogadores dos 1,5 milhão de times filiados à FIFA” (3).

Aí está um assunto difícil de exagerar. Há fome no mundo, analfabetismo, guerras, invasões e espionagens. Há injustiças, discriminação, machismo e alcoolismo. Temos ameaças de barbárie bélica, de irracionalidade politiqueira, de corrupção, de fraudes e de escravidão. O capitalismo apodrece tudo o que, direta ou indiretamente, toca. As máquinas de guerra ideológica, que o capitalismo chama de “meios de comunicação”, usam tudo o que podem para nos alienar, domesticar no consumismo e nos fazer obedientes e mansos, agradecidos porque nos enganam. E uma das suas qualidades mais queridas é a do futebol como espetáculo e teatro.

Nada disso implica em não ver os jogos; tudo isto implica em vê-los criticamente e com doses generosas de autocrítica. Que ninguém, com suas marcas ou televisões, nos roube o relato da realidade, embora comprem “mundiais” e jornalistas, para escondê-la. Já sabemos: uma parte da burguesia teaparty usará o “Mundial de Futebol” como cortina de fumaça anestésica para perpetrar latrocínios econômico-políticos. Veremos isso na televisão.

Notas:
(1) http://www.eluniversal.com.co/deportes/futbol/fifa-dice-que-no-pagara-la-cuenta-del-mundial-de-brasil-2014-152034
(2) http://www.americaeconomia.com/negocios-industrias/las-millonarias-inversiones-para-el-mundial-de-futbol-qatar-2022
(3) http://mediosfera.wordpress.com/2010/04/21/el-negocio-del-futbol-y-los-medios-de-comunicacion-masiva/

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