O protagonismo poliédrico de Francisco na Terra Santa. Artigo de Massimo Faggioli

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02 Junho 2014

O Papa Francisco assumiu um mapa já conhecido a muitos – cristãos, judeus e muçulmanos inclusive – mas que, até agora, tinha custado a entrar no registro das viagens papais. Francisco fala e age como cristão na Terra Santa, com maior liberdade do que seu antecessor italiano, polonês, alemão que deviam falar, pela força dos fatos, como filhos daquela Europa culpada pelo Holocausto.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado na revista Il Mulino, 27-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A peregrinação papal à Terra Santa começou a fazer parte da história do papado moderno como um teste, um momento crítico para se tentar compreender algumas trajetórias da Igreja Católica contemporânea, mas também as diferenças entre os pontificados individuais. A peregrinação do Papa Bergoglio na Terra Santa (Jordânia, Palestina, Israel, 24-26 de maio de 2014) seguia a de Paulo VI (janeiro de 1964), João Paulo II (março de 2000) e Bento XVI (maio de 2009).

A viagem de 1964 foi a primeira de um papa moderno ao exterior, no clima do Vaticano II, sob a insígnia de sensibilidades ecumênicas completamente novas em nível oficial, historicamente anterior à "revanche de Dieu", que começou com a guerra de 1967 e os anos 1970, e teologicamente ainda relutante a reconhecer o sionismo e o seu fruto completo no Estado de Israel (palavra que o Papa Montini se absteve visivelmente de pronunciar naqueles dias).

A peregrinação de João Paulo II no ano 2000 foi a viagem do primeiro papa do diálogo inter-religioso exercido em primeira pessoa com base no mandato conciliar e para além dele, no contexto do Jubileu do ano 2000, mas antes do início da cesura do ano 2000-2001 (a segunda Intifada depois do passeio de Sharon pelas mesquitas em setembro de 2000 e a sequência de atentados e violências nas cidades israelenses e palestinos; o 11 de setembro de 2001; a construção da "barreira de separação" entre Israel e territórios a partir de 2002).

A viagem de Bento XVI em 2009, finalmente, chegava a poucas semanas das polêmicas que surgiram da decisão de levantar a excomunhão dos quatro bispos lefebvrianos, um dos quais notoriamente antissemita, e contribuía para condicionar a gestualidade já inibida do papa teólogo: as expectativas do discurso do papa no Yad Vashem sobre as responsabilidades da Igreja (também como católico alemão) foram frustradas.

Nesse quadro, em comparação com os antecessores, a viagem do Papa Francisco representa um passo adiante. Por um lado, Bergoglio assumiu, para a visita a essa terra e aos seus símbolos divididos e compartilhados, a imagem da poliedricidade (figura analisada por ele na exortação Evangelii gaudium para descrever a Igreja) do ponto nodal religião-terra-paz no Oriente Médio. O papa falou com interlocutores diversos e equilibrou a imagem de um catolicismo que – especialmente sob Bento XVI – tinha retomado a memória do Holocausto e o papel do Estado de Israel sob o signo de uma "religião civil" que, no Ocidente, tem uma forte conotação islamofóbica.

O gesto da oração de Francisco diante da "barreira de separação" do lado palestino e, no dia seguinte, no túmulo do fundador do sionismo, Theodor Herzl, e no monumento pelas vítimas israelenses do terrorismo representam mensagens enviadas a ambas as partes: mas representam especialmente a conscientização por parte do papado de que há elementos outros (os "loci alieni" da teologia) e historicamente novos em relação ao itinerário teológico-bíblico clássico da peregrinação cristã à Terra Santa.

Nesse sentido, o Papa Francisco assumiu um mapa já conhecido a muitos – cristãos, judeus e muçulmanos inclusive – mas que, até agora, tinha custado a entrar no regisrto das viagens papais. Francisco fala e age como cristão na Terra Santa, com maior liberdade do que seu antecessor italiano, polonês, alemão que deviam falar, pela força dos fatos, como filhos daquela Europa culpada pelo Holocausto. As amizades inter-religiosas do jesuíta Bergoglio na Argentina fazem parte dessa nova condição de liberdade do papado global das hipotecas da história europeia.

Por outro lado, o Papa Francisco retomou uma rota inversa do Vaticano de Bento XVI do ponto de vista teológico: o encontro com o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, representa a retomada de um diálogo com os ortodoxos orientais que prometera muito, em vão, sob Bento XVI. O encontro de Jerusalém entre Francisco e Bartolomeu tem uma origem historicamente próxima, durante a inauguração do pontificado em março 2013 e a extraordinária presença de Bartolomeu em Roma (a primeira vez na história em uma ocasião desse tipo), mas também uma origem distante, aquele encontro entre o Paulo VI e Atenágoras em janeiro de 1964 e a revogação das excomunhões recíprocas em 1965, na conclusão do Concílio Vaticano II. O encontro entre Francisco e Bartolomeu representa a prova dos potencialidades de uma retomada do Concílio sem temores.

O lado surpreendente da visita do papa à Terra Santa diz respeito à ação política da Santa Sé de Francisco. Com Bento XVI e o seu secretário de Estado, o cardeal Bertone, o Vaticano dera sinais de querer se isentar das responsabilidades políticas da Igreja filha do Império Romano naquela área (e não só lá), entregando assim a questão geopolítica do catolicismo a representantes locais (as Igrejas árabes comprometidas com os regimes, os bajuladores do catolicismo teocon de escola estadunidense). O movimento do Papa Francisco do convite ao Vaticano, "na casa do papa", dirigido a Abu Mazen e a Shimon Peres no mesmo dia das eleições europeias é uma das tantas ironias da história, depois de anos em que tanto a Europa quanto os Estados Unidos declararam falência diante da questão israelense-palestina.

Emerge um rosto político de Francisco, que vem completar um ano em que as intervenções "políticas" foram poucas e bem delimitadas: a vigília do dia 7 de setembro de 2013 pela Síria (preventiva a uma possível intervenção norte-americana); a exortação apostólica Evangelii gaudium de novembro 2013; a frieza ostentada com os políticos italianos em todo esse período; a audiência ao presidente Barack Obama.

A peregrinação à Jordânia, Palestina e Israel dão mais elementos para julgar a política do Vaticano de Francisco e do secretário de Estado, o cardeal Parolin: uma ação que lembra, em termos diferentes, a Ostpolitik de João XXIII e de Paulo VI (então contra os episcopados renitentes com respeito à política do diálogo, hoje contra os patriarcas e episcopados católicos comprometidos com os déspotas do Oriente Médio). Também a partir desse ponto de vista, continua, pela força dos fatos, o protagonismo do Papa Francisco, na ausência (com raras exceções) de uma elite episcopal mundial capaz de seguir o rastro marcado pelo bispo de Roma.

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