Os partidos radicais avançam com força no Parlamento Europeu

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26 Maio 2014

A Europa que emerge da crise que marcará o início deste século tirou neste domingo um velho diabo do armário com a ascensão imparável dos radicais em vários países, mas por fim deu a vitória, por uma margem muito apertada, ao democrata-cristão luxemburguês Jean-Claude Juncker, e sobretudo concedeu uma ampla maioria às forças pró-europeias. Ganharam Juncker e sua mensagem de austeridade e reformas, a qual agora promete agregar um toque social. Após ter dominado com clareza as instituições na última década e meia, a Grande Recessão teve seu preço no Partido Popular Europeu, que perdeu dezenas de assentos, mas situa de novo os conservadores como primeira força do Parlamento europeu apesar dos efeitos devastadores da crise, que até agora havia varrido todo tipo de Governos, quase sem exceção. A Eurocâmara não passou por essa centrífuga política, ainda que sim por outras perigosíssimas: com a Frente Nacional francesa como mascarão de proa, e com uma presença ampla de Norte a Sul (em Dinamarca e Finlândia, mas também em Grécia e Itália), e de Leste a Oeste (Hungria, Alemanha, Reino Unido), os populismos confirmaram nas urnas a fulgurante subida apontada nas pesquisas, e complicaram a governabilidade do projeto europeu.

A abstenção, o outro grande perigo, foi menos feroz do que se esperava: de novo alta, ainda que menos do que apontavam todos os prognósticos. Ao final a participação foi de 43,1%, uma alta pela primeira vez desde 1979.

Nem o fulgurante impulso dos populismos nem a abstenção embaçam o triunfo pela diferença mínima de Juncker nem o sabor agridoce que deixa para seus adversários: as eleições são sempre uma espécie de tribunal de última instância, e os eleitores decidiram que o social-democrata alemão Martin Schulz ficasse a vários corpos do candidato conservador. A esquerda segue assim com sua particular travessia no deserto.

Isso em relação à disputa Juncker-Schulz. Porque a foto panorâmica das eleições é distinta: o bloco de esquerdas (social-democracia, esquerda radical e Verdes) conseguia à noite certa vantagem a respeito da centro-direita (PPE e outros partidos conservadores), com os liberais na metade do caminho entre uns e outros, e os populistas claramente em alta, especialmente na França, Itália e Reino Unido. “Esse auge da eurofobia é desanimador; é uma depressão política amadurecendo”, afirmou a este jornal uma alta fonte comunitária. Além do crescimento da Frente Nacional, do UKIP britânico e companhia —que em nenhum caso põe em perigo a maioria pró-europeia—, se o restante dos números se confirmar isso deixa as coisas muito abertas na Eurocâmara, à espera do jogo das alianças habitual em Bruxelas, com a possibilidade de uma grande coalizão à la alemã ganhando força.

Segundo as primeiras pesquisas, além dos populares (211 assentos, o que os permite indicar Juncker como presidente da Comissão Europeia) e dos socialistas, que sobem em relação a 2009 (193), perderam espaço os liberais (74), os Verdes subiram ligeiramente (58 deputados) e a esquerda radical ganhou terreno (47 eurodeputados) entre os cinco partidos mais votados. Mas as eleições europeias não são como as demais: nas semanas posteriores à votação há sempre uma dança das cadeiras capaz de engordar ou emagrecer os principais grupos parlamentares, o que pode modificar a fisionomia da foto final e dar uma virada para as maiorias que apenas vislumbravam à noite.

O auge dos eurofóbicos é uma sacudida e indica que o grau de incerteza ainda é altíssimo

O veredicto —ainda provisório até a conclusão deste texto— das urnas deixa um punhado de leituras-chave. O bipartidarismo está em crise mas não se entrega: Juncker ou Schulz terão que se aliar ou buscar parceiros para governar, mas ambos partidos serão imprescindíveis e, mesmo em queda, seguem somando mais de 60% dos assentos. Mas cuidado. Se a política é a forma em que uma sociedade se ocupa da incerteza, o auge dos eurofóbicos é uma sacudida em toda a regra e indica que o grau de incerteza ainda é altíssimo. O populismo, com seus remédios simples para problemas complexos e acariciando o gatilho de seu tenebroso arsenal anti-imigração, mostra as garras com uma pujança que marcará algumas das agendas políticas fundamentais dos próximos anos. Os partidos eurocéticos, eurofóbicos e demais somam pouco mais de 20% dos votos, com resultados impactantes em vários países. As repetições da história: a história da Europa no século XX demonstra que as grandes crises e determinadas receitas econômicas “provocam que a democracia se volte contra a democracia”, afirmou um diplomata.

A sede em Bruxelas do Parlamento era à noite um ir e vir incansável de jornalistas, políticos e funcionários. O PP era considerado ganhador desde as primeiras pesquisas; Schulz era visto como “forte” e “capaz de encontrar uma maioria” de governo. Em meio a essa confusão, as análises coincidiam em ser qualquer coisa menos complacentes. Charles Kupchan, do CER, considera o auge do populismo como “uma severa, feia e sonora reprimenda ao projeto europeu”. E o sociólogo José María Maravall avisou que a ascensão dos radicais deveria vacinar a Europa contra a tentação de uma grande coalizão. “Seria uma grande declaração de debilidade, quando o projeto precisa de um governo que assuma responsabilidades: a UE é um estranho animal político em que a responsabilidade dos líderes se esfuma e o povo é incapaz de atribuir culpas e de castigar alguém de forma coerente. Por isso os radicais crescem”.

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