Os padres que abandonam a batina por amor

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Por: André | 21 Mai 2014

A carta escrita ao Papa Francisco por 26 mulheres que afirmam viver relações sentimentais com padres voltou a acender os refletores sobre a “fuga do sacerdócio”. “Calcular o número exato não é nada fácil; existem números oficiais, divulgados pelo Vaticano, mas trata-se apenas de números aproximativos devido à objetiva dificuldade de reunir os dados”, explicou o estudioso Davide Romano, que fez um estudo sobre o tema.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi e publicada no sítio Vatican Insider, 18-05-2014. A tradução é de André Langer.

O Annuarium Statisticum Ecclesiae, publicado anualmente pela Santa Sé, oferece os números relacionados aos abandonos por parte do clero: o setor inclui os que renunciaram à batina por diferentes motivos. Em 1998, por exemplo, houve um total de 618 abandonos. O L’Osservatore Romano fez um cálculo, em 1997, comparando os dados de 1970 a 1995, e obteve um número aproximado de 46.000 sacerdotes que abandonaram o ministério.

De acordo com o canonista Vincenzo Mosca, os sacerdotes que abandonam seu estado cada ano seriam mais de mil em todo o mundo. Um de cada oito novos sacerdotes abandona seu ministério. Os sacerdotes reduzidos ao estado laico em todo o mundo, segundo Mosca, seriam mais de 50.000.

Mauro Del Nevo, presidente da associação de presbíteros com famílias Vocatio, não concorda. Segundo sua opinião, seria preciso duplicar esse número. “Somente na Itália – indicou – os sacerdotes casados são entre 8.000 e 10.000 e são 120.000 em todo o mundo”. Os anos durante os quais chegaram mais pedidos de dispensa do exercício do ministério foram 1976 e 1977: entre 2.500 e 3.000. Atualmente, são concedidas entre 500 e 700 dispensas por ano.

Amar a Deus e ter um amor terreno: a Igreja católica os condena, mas os religiosos que vivem uma relação sentimental são uma realidade, e são cada vez mais importantes. É verdade: consagraram-se a serviço divino, fizeram votos de castidade e de obediência, mas em um determinado momento a solidão foi mais forte.

Atualmente, são milhares os que pertencem ao clero católico e, apesar de conservarem a fé e de darem testemunho, vivem uma história de amor entre as tempestades da frustração, da consciência do pecado e de estar “fora da Igreja”, do sofrimento diante da situação que vivem como uma injustiça. Porque em uma sociedade laica na qual tudo é permitido, a vida sexual dos religiosos parece ser o último tabu. Pode uma Igreja pregar o amor e impedir que seus ministros amem? Pode obrigá-los a viver a sexualidade na clandestinidade e na hipocrisia? Muitos deles são protagonistas de histórias dramáticas que oscilam entre a paixão humana e a intensidade de uma vocação. E suas vozes de dor, de remorsos, mas também de fé, de alegria e esperança impõem uma reflexão.

“Durante séculos a Igreja considerou a mulher um demônio tentador. Mas, nunca como desde quando estou casado compreendi o sentido da revelação cristã”, afirmou Giovanni Franzoni, teólogo e escritor de fama mundial, um manifesto vivo contra o celibato eclesiástico. “Melhor sacerdotes casados do que os missionários católicos que vivem no Terceiro Mundo ‘more uxório’ com suas companheiras”, disse o abade beneditino de São Paulo Extra-muros, um dos últimos protagonistas vivos do Concílio Vaticano II e que há 40 anos se opõe às posturas oficiais da Santa Sé: desde o referendo sobre o divórcio até a beatificação de Karol Wojtyla.

O ex-prior do mosteiro de Claraval, em Milão (na Itália), Alberto Stucchi, deixou a ordem por uma mulher. E não obteve nenhum apoio por parte de seus irmãos da ordem cisterciense, que lhe teriam dito, “faça o que quiser, mas às escondidas”. Carlo Vaj, ex-sacerdote e psicoterapeuta, autor do livro O Totem e o safado, considera que o procedimento que a Igreja segue para exonerar o sacerdote das obrigações contraídas é “um processo kafkiano no qual se violam os direitos humanos mais elementares, como o direito à defesa ou o direito de escolher livremente o domicílio e no qual a psiquiatria é usada como instrumento de tortura”.

Em 1971, o teólogo Joseph Ratzinger previu que teria chegado o dia em que as ordenações de “cristãos maduros” casados seriam uma realidade; a questão segue aberta.

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