Ernesto Laclau. O intelectual dos debates e combates

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Por: André | 15 Abril 2014

O reconhecido autor de Hegemonia e estratégia socialista sofreu um infarto enquanto visitava Sevilha. Foi um pensador chave do pós-marxismo que nos últimos anos dedicou sua obra a ressignificar e revalorizar os populismos.

 
Fonte: http://bit.ly/1hEpSMX  

A reportagem é de Werner Pertot e publicada no jornal argentino Página/12, 14-04-2014. A tradução é de André Langer.

Morreu Ernesto Laclau (foto), uma das principais figuras da teoria política argentina, um intelectual que ressignificou os estudos sobre o populismo contra determinadas concepções do senso comum. O autor de Hegemonia e estratégia socialista estava, no domingo, com sua mulher Chantal Mouffe, em Sevilha, na Espanha, onde sofreu um infarto. Tinha 78 anos e era professor da Universidade de Essex, Inglaterra. Nos últimos anos causaram rebuliço suas posições favoráveis ao kirchnerismo e Hugo Chávez, assim como sua intervenção nas discussões políticas através de ciclos como Debates e combates ou do canal Encuentro. Seus restos serão velados na Argentina, embora até o domingo à noite não houvesse confirmação do dia nem do local.

Laclau estava em Sevilha a convite do adido cultural da Embaixada argentina na Espanha, Jorge Alemán. Daria uma conferência no domingo à tarde. Segundo relatou Alemán, Laclau havia iniciado o dia bem cedo com um passeio pelas ruas de Sevilha e um banho na banheira do hotel, quando sofreu o infarto que provocou a sua morte.

Diversos setores políticos e acadêmicos destacaram a perda que representa para as ciências sociais.

Laclau dava aulas de Teoria Política na Universidade de Essex, um cargo que ocupava desde 1973. Além disso, era diretor do programa de Ideologia e Análise do Discurso, que oferecia mestrado e doutorado. Foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Rosario (UNR), a Universidade de San Martín o tinha como diretor honorário do Centro de Estudos do Discurso e das Identidades Sociopolíticas. Seus filhos, Santiago e Natalia, moram na Argentina.

Marx e Lacan

Laclau nasceu em Buenos Aires em 06 de outubro de 1935 e cresceu em uma casa onde havia muito debate político: seu pai era um radical yrigoyenista, que participou das sublevações contra Uriburu. Estudou História na Universidade de Buenos Aires (UBA), onde foi recebido em 1964. Sob os debates da figura do intelectual comprometido – sobre a qual discutiam desde Theodor W. Adorno até Jean-Paul Sartre –, a formação de Laclau combinou a militância política e a pesquisa acadêmica. Após o golpe de 1955, fez parte do grupo Contorno, junto com Eliseo Verón, León Sigal e Sofia Fischer, entre outros. Militou durante um tempo no Socialismo de Vanguarda – uma dissidência do Partido Socialista Argentino –, de onde se afastou por suas críticas ao leninismo. Trabalhou com o sociólogo Gino Germani e criou, junto com José Luis Romero, a disciplina História Social e Geral no curso de História da UBA.

Nos anos 1960, Laclau foi diretor da revista Lucha Obrera, que se vinculava ao Partido Socialista da Esquerda Nacional. Quando escrevia, usava o pseudônimo Sebastián Ferrer, porque era bolsista do Conicet, onde não viam com bons olhos seu compromisso político. A Esquerda Nacional era uma corrente da qual participaram outros intelectuais como Blas Alberti, Fernando Carpio e Jorge Abelardo Ramos, que foi uma figura de destaque na formação política de Laclau.

Com a ditadura de Juan Carlos Ongania, Laclau perdeu seu cargo como professor na Universidade de Tucumán e depois ganhou uma bolsa em Oxford, onde estudou com o historiador marxista Eric Hobsbawm. “Comecei a minha trajetória política na Esquerda Nacional. Quando cheguei na Inglaterra, entrei em contato com a New Left Review e com pessoas ligadas à experiência dos movimentos anticoloniais – relatava Laclau em uma reportagem de 2003. Deixei a Argentina em 1969, e era para ser por apenas três anos. Depois vieram as bestas e não pude voltar durante 15 anos”. O golpe de Estado de 1976 impediu seu retorno.

Na Inglaterra, em 1979, escreveu Política e ideologia na teoria marxista: capitalismo, fascismo, populismo (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979), uma reunião de artigos que escreveu a pedido do historiador marxista Perry Anderson. Nessa época, ainda assumia a teoria de Antonio Gramsci e não havia formulado os conceitos que depois tornou conhecidos. Em 1980, deu sua contribuição a Três ensaios sobre a América Latina, um livro publicado pela Fondo de Cultura Económica.

Foi nos anos 1980 que Laclau se converteu em um dos intelectuais preocupados em pensar a reconfiguração da esquerda em plena crise do pensamento marxista. Junto com sua companheira Chantal Mouffe, escreveu, em 1985, Hegemonia e estratégia socialista. Por uma radicalização da democracia. Este livro é considerado como um dos que configuram o pós-marxismo, a partir de uma linha que critica o determinismo econômico e uma leitura mecânica dos processos populares da América Latina. Laclau centrou-se em reler o capitalismo a partir de uma perspectiva que cruzava a obra de Karl Marx com a de Jacques Lacan (uma boa parte dos autores pós-marxistas incorpora contribuições de outras teorias: no caso de Laclau, também tomou conceitos do pós-estruturalismo).

Ali, Laclau cunhou uma das suas definições mais conhecidas, onde a política é entendida como uma luta pela hegemonia e pela conquista do que chama de “significantes vazios” ou “significantes flutuantes”, num uso de um termo lacaliano para entender fenômenos políticos. Durante a década seguinte continuou desenvolvendo esta teoria: em 1990, publicou Novas reflexões sobre a revolução do nosso tempo, em 1996 Emancipação e diferença e Misticismo, retórica e política, em 2002.

Reinventar o populismo

“Na genealogia que Ernesto Laclau faz, nos fala de um populismo que tem um profundo enraizamento na modernidade capitalista e propõe o heterogêneo, a opacidade do social, para começar a discutir as lógicas políticas da democracia e a memória histórica popular”, defendeu o professor e ensaísta Nicolás Casullo na apresentação, em 2005, de A razão populista, um dos livros mais importantes de Laclau, que girou em torno do fenômeno dos novos governos de viés populista. A A razão populista se seguiu, em 2008, Debates e combates. Por um novo horizonte na política, que também deu nome a uma revista editada por Laclau com contribuições de intelectuais como Toni Negri – de quem se mostrou próximo, embora com diferenças em alguns pontos da sua teoria, enquanto polemizou com Slavoj Sizek –, da filósofa francesa Judith Revel, entre outros. Laclau desejava que a revista “fosse para o mundo hispânico o que a New Left Review era para o mundo anglo-saxão”. Com a mesma ideia, conduziu um ciclo de entrevistas no canal Encuentro.

Apesar da distância, Laclau sempre se mostrou atento ao que acontecia na Argentina. Em 2003, por exemplo, assinalou que “Kirchner não teria sido possível sem os cacerolazos”. Sobre a discussão posterior sobre a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, advertiu que “se prevalecerem os monopólios, a guerra estará perdida”.

Em 2012, Laclau conheceu a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Nunca fez parte do Governo com um cargo – mencionou-se a Embaixada de Londres ou da França –, mas colocou sem meias palavras suas posições sobre o kirchnerismo e a disputa política na Argentina. Nos últimos tempos, assinalando as particularidades do momento histórico, havia se mostrado a favor da possibilidade de uma reeleição indefinida, embora tenha esclarecido que não se referia à Presidenta: “Se a população está contente com um presidente, deve ter a opção de poder reelegê-lo. Se a população está descontente, pode votar em outro”, afirmou. Considerava que é “o melhor momento democrático em 150 anos em toda a América Latina”, mas advertia que “na Argentina ainda não se conseguiu uma confluência completa entre o momento autônomo da vontade dos setores populares e o momento da construção do Estado”.

Sempre parecia estar voltando aos conceitos do livro de 1985, onde se colocava também um programa político: “A esquerda – escreveu – deve começar a elaborar uma alternativa confiável à ordem neoliberal, em vez de tratar simplesmente administrar de um modo mais humano”.

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