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15 Abril 2014

"Laclau ressignifica a ideia de populismo, que passa a ser uma 'forma de construção da política', sem um conteúdo ideológico específico. Ou seja, pode ser de direita ou de esquerda, abarcando os mais heterogêneos levantes políticos", escreve Daniel Mendonça, pós-doutor em ideologia e análise de discurso pela Universidade de Essex e professor da Universidade Federal de Pelotas, e Leandro Fontoura, jornalista de ZH, mestre em Ciências Sociais e doutorando em Ciência Política pela UFRGS, em artigo publicado pela Zero Hora, 12-04-2014.

Eis o artigo.

No momento de maior inquietação na Venezuela desde a morte de Hugo Chávez – que comandou o país de 1999 a 2013 –, um livro publicado há pouco no Brasil ajuda a entender um fenômeno que se espalhou pela região nas últimas décadas: o populismo latino-americano de esquerda. Escrita pelo teórico argentino Ernesto Laclau, a obra A Razão Populista retira o populismo da marginalidade política e o coloca como modelo capaz de ampliar as bases democráticas de uma sociedade.

A proposta de Laclau é radicalmente contrária às visões mais difundidas do populismo. Nas mais “diplomáticas”, ele é visto como uma conexão direta entre um líder carismático e as massas, enfraquecendo a democracia representativa. Outras são mais diretas e classificam esse tipo de governo como nacionalista, antiliberal, assistencialista, demagógico e irresponsável.

Laclau ressignifica a ideia de populismo, que passa a ser uma “forma de construção da política”, sem um conteúdo ideológico específico. Ou seja, pode ser de direita ou de esquerda, abarcando os mais heterogêneos levantes políticos. Esse fenômeno ocorre, argumenta ele, sempre que o povo se reúne em torno de demandas não atendidas – que podem ser completamente diferentes e circunstanciais, mas que passam a ter uma conexão entre si por terem sido “abandonadas” pelo governo – e passa a confrontar o poder constituído. Cria-se uma ruptura no sistema, opondo o povo às instituições formais, onde se abrigam as elites e as forças conservadoras.

A chegada do populismo ao poder representa o ápice do antagonismo entre esses dois campos. Daí, o embate entre populismo e institucionalismo. No primeiro, o movimento é de ascensão das massas excluídas a partir de mudanças sociais e, no segundo, é de bloqueio das transformações a partir da manutenção das estruturas institucionais até então vigentes. Na visão de Laclau, a supremacia do populismo na América Latina tem sido positiva para o continente, pois, ao assegurar a participação da população nas decisões políticas, fortalece a democracia e impede que esta seja reduzida a um sistema administrativo tecnocrático influenciado por interesses econômicos.

Não se trata de uma opinião descartável. Nascido em 1935, em Buenos Aires, Laclau é um dos teóricos políticos internacionalmente mais influentes em atividade. Licenciado em História pela Universidade de Buenos Aires e radicado na Inglaterra desde a década de 1970, é hoje professor emérito da Universidade de Essex. Na instituição, onde fez seu doutorado, fundou e dirigiu o Programa de Ideologia e Análise de Discurso e o Centro de Estudos Teóricos em Humanidades e Ciências Sociais, que se tornaram referências internacionais na área.

O professor é também fundador e maior expoente da vertente denominada “teoria do discurso da Escola de Essex”. Em colaboração com Chantal Mouffe, em 1985, publicou Hegemonia e Estratégia Socialista, livro considerado um marco da teoria política do final do século 20. A tese central da obra é a defesa da ideia de que as verdadeiras transformações político-sociais somente são possíveis a partir da articulação entre diferentes demandas, que, associadas, compõem um discurso. O corolário dessa articulação é o que os autores chamam de hegemonia, momento em que uma entre as demandas articuladas passa a desempenhar o papel de representação das demais na luta contra um ou mais inimigos comuns. A política, na teoria de Laclau, se dá pelo antagonismo entre identidades discursivas que disputam a construção do pensamento hegemônico em uma sociedade.

Em A Razão Populista, esses argumentos são retomados a partir do antagonismo entre o povo – uma identidade discursiva constituída por meio da articulação de diferentes demandas – e os poderosos. Por telefone, desde a Inglaterra, Laclau falou ao Cultura sobre a obra, os governos latino-americanos e a onda de protestos no Brasil.

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