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Por: André | 03 Abril 2014

Seu nome é Alberto Methol. É nele que Bergoglio se inspira para julgar o mundo e enfrentar a nova cultura dominante: “o ateísmo libertino”. O rosto sério do Papa ao lado de Obama.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa, 31-03-2014. A tradução é de André Langer.

No encontro que aconteceu há poucos dias com Barack Obama, o Papa Francisco não se omitiu de falar das divergências que existem entre a Administração estadunidense e a Igreja desse país sobre questões candentes como “os direitos à liberdade religiosa, à vida e à objeção de consciência”. E o fez ressaltar no comunicado que foi publicado depois da conversa.

Jorge Mario Bergoglio não gosta do confronto direto e público com os poderosos do mundo. Deixa agir os episcopados locais. Mas, quando discorda, não se furta de assinalar seu distanciamento. Na foto dos encontros oficiais aparece com o rosto sério, apesar dos exagerados sorrisos do seu interlocutor de momento, neste caso o chefe da maior potência do mundo.

Não poderia agir de outro modo, dado o julgamento radicalmente crítico que o Papa Francisco alimenta dentro de si, sobre os atuais poderes mundanos.

É um julgamento que ele jamais explicitou de forma completa. Mas o deixou entrever muitas vezes, por exemplo, com sua frequente referência ao diabo como grande adversário da presença cristã no mundo, que vê trabalhando por trás dos poderes políticos e econômicos. Ou antes, quando ataca – como na homilia de 18 de novembro de 2013 – o “pensamento único” que quer subjugar toda a humanidade, mesmo que seja ao preço de “sacrifícios humanos”, com numerosas “leis que o protegem”.

Bergoglio não é um pensador original. Um dos seus parâmetros de referência, a que remete não poucas vezes, é o romance apocalíptico O Senhor do Mundo, de Robert Hugh Benson, um convertido no começo do século XX, filho de um arcebispo anglicano de Canterbury.

Mas na origem do julgamento de Bergoglio sobre o mundo de hoje está sobretudo um filósofo.

Seu nome é Alberto Methol Ferré. Uruguaio de Montevidéu, atravessava com frequência o Rio da Prata para ir a Buenos Aires e encontrar-se com seu amigo arcebispo. Faleceu aos 80 anos, em 2009. Mas foi reeditado na Argentina e agora também na Itália um livro-entrevista seu de 2007, que é de importância capital para compreender não apenas sua visão de mundo, mas também a de seu amigo que depois se converteria em Papa.

Ao apresentar a primeira educação deste livro em Buenos Aires, Bergoglio o elogiou como um texto de “profundidade metafísica”. E em 2011, no prefácio a outro livro de um grande amigo de ambos – Guzmán Carriquiry Lecour, uruguaio, secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina, o leigo com o cargo mais elevado no Vaticano – também Bergoglio tributou seu reconhecimento ao “genial pensador rioplatense” por ter desnudado a nova ideologia dominante, depois da queda dos ateísmos messiânicos de inspiração marxista.

É a ideologia que Methol Ferré chamava de “ateísmo libertino”, e que Bergoglio descrevia dessa maneira: “O ateísmo hedonista, junto com seus ‘complementos da alma’ neognósticos, tornou-se a cultura dominante, com projeção e difusão globais, convertido em atmosfera do tempo presente, em novo ‘ópio do povo’. O ‘pensamento único’, além de ser social e politicamente totalitário, tem estrutura gnóstica: não é humano; reedita as variadas formas de racionalismo absolutista com que culturalmente se expressa o hedonismo niilista a que se refere Methol Ferré. Domina o ‘teísmo nebuloso, um teísmo difuso, sem encarnação histórica; no melhor dos casos, o criador do ecumenismo massônico”.

No livro-entrevista que agora foi reeditado, Methol Ferré sustenta que o novo ateísmo “mudou radicalmente de figura. Não é messiânico, mas libertino; não é revolucionário no sentido social, mas cúmplice do status quo; não se interessa pela justiça, mas sobretudo por aquilo que permite cultivar um hedonismo radical. Não é aristocrático, mas se transformou em um fenômeno de massas”.

Mas talvez o elemento mais interessante de Methol Ferré esteja na resposta que ele dá ao desafio colocado pelo novo pensamento hegemônico: “Foi o que aconteceu com a Reforma Protestante, depois com o Iluminismo secular, e na sequência com o marxismo messiânico. Poderíamos dizer que se vence um inimigo assumindo o melhor de suas intuições e indo além delas”.

E qual é, na sua opinião, a verdade do ateísmo libertino?

“A verdade do ateísmo libertino é a percepção de que a existência tem um íntimo destino de gozo, que a própria vida é feita para uma satisfação. Em outras palavras: o núcleo profundo do ateísmo libertino é uma necessidade recôndita de beleza”.

Certamente, o ateísmo libertino “perverte” a beleza, porque a “divorcia da verdade e do bem, da justiça”. Mas – adverte Methol Ferré – “não se pode resgatar o núcleo de verdade do ateísmo libertino com argumentos ou com uma dialética; e menos ainda com proibições, disparando alarmes ou ditando regras abstratas. O ateísmo libertino não é uma ideologia; é uma prática. A uma prática é necessário opor outra prática; uma prática consciente de si mesma, bem entendido, isto é, intelectualmente bem preparada. Historicamente, a Igreja é o único sujeito presente na cena do mundo contemporâneo capaz de fazer frente ao ateísmo libertino. Na minha opinião, apenas a Igreja é verdadeiramente pós-moderna”.

É impressionante a sintonia entre esta visão de Methol Ferré e o pontificado de seu discípulo Bergoglio, com sua recusa “da transmissão desarticulada de uma multidão de doutrinas que se impõem com insistência” e que insiste em uma Igreja capaz de “fazer arder o coração”, de curar todo tipo de doença e ferida e de restabelecer a felicidade.

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