Os discursos do papa sobre a natureza da mídia, católica ou não

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25 Março 2014

Ao mesmo grupo recebido em audiência, o Papa Francisco dirigiu dois discursos e refletiu, sem meias palavras, sobre o papel, os objetivos e a natureza dos meios de comunicação, católicos ou não.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 23-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No sábado, o Papa Francisco fez dois discursos aos membros da Associação Corallo, rede de emissoras locais de inspiração católica presentes em todas as regiões italianas. Um deles foi proferido de improviso, mas, depois, ele quis fazer igualmente um segundo discurso – escrito e preparado com antecedência.

Trata-se de uma situação bastante rara e, talvez, inédita. Em diversas circunstâncias semelhantes anteriores, um dos dois textos era anulado. Desta vez, foi diferente, o que quer dizer que o papa estava determinado a transmitir os conteúdos dos seus dois discursos, que, dentre outras coisas, se complementam perfeitamente. Ou, melhor, se enriquecem mutuamente [1].

1. Verdade, bondade, beleza

Na alocução proferida de improviso, o primeiro ponto destacado pelo papa diz respeito à tarefa dos meios de comunicação, chamados "a buscar a verdade", mas não só. As mídias devem buscar, segundo Francisco: "verdade, bondade e beleza, as três coisas juntas. O trabalho de vocês deve se desenvolver nessas três estradas: a estrada da verdade, a estrada da bondade e a estrada da beleza. Mas aquelas verdades, bondades e belezas que sejam consistentes! Que venham de dentro, que são humanas. E, no caminho da verdade, nas três estradas, podemos encontrar erros, até mesmo armadilhas. 'Eu acho que busco a verdade...': fiquem atentos para não se tornarem um intelectual sem inteligência. 'Eu vou em busca da bondade...': fiquem atentos para não se tornarem um eticista sem bondade. 'Eu gosto da beleza...': sim, mas fiquem atentos para não fazer aquilo que se faz muitas vezes, 'maquiar' a beleza, buscar os cosméticos para fazer uma beleza artificial que não existe. A verdade, a bondade e a beleza como vêm de Deus e estão no homem. E esse é o trabalho da mídia, o de vocês".

2. Mídias pequenas e grandes

Depois, o papa voltou ao tema da harmonia das diversidades, tema muito caro a ele, incluindo desta vez a questão das "mídias pequenas e grandes". E, citando São Paulo, enfatizou: "Na Igreja, não há nem grande nem pequeno: cada um tem a sua função, a sua ajuda ao outro. A mão não pode existir sem a cabeça, e assim por diante. Todos somos membros, e também as mídias de vocês, que, sejam maiores ou menores, são membros e harmonizadas pela vocação de serviço na Igreja. Ninguém deve se sentir pequeno, pequeno demais em relação a outro grande demais".

3. Os leigos clericais ou clericalizados

É muito interessante que o papa aborde essa questão, delicada e importante, também no âmbito da tarefa e da missão dos meios de comunicação. Ele não o diz, mas é claro que considera o "clericalismo" presente em muitas mídias católicas, e entre muitos dos seus operadores, como uma séria armadilha. Francisco fala sobre os mecanismos deletérios do clericalismo em geral, mas está se dirigindo à imprensa de inspiração cristã (católica). As suas palavras são severas também porque ele descreve uma espécie de síndrome patológica entre duas pessoas.

Ele diz: "É uma tentação cúmplice entre os dois. Porque não haveria o clericalismo se não houvesse leigos que querem ser clericalizados". E depois o Santo Padre especifica: "Mas é um mal 'cúmplice', porque os padres gostam da tentação de clericalizar os leigos, mas muitos leigos, de joelhos, pedem para ser clericalizados, porque é mais cômodo, é mais cômodo! E isso é um pecado de duas mãos!". O seu raciocínio sobre a questão é muito claro e, com palavras próprias, em essência, diz: o clericalismo faz com que a Igreja perca um bom leigo e faz com que ganhe um pseudopadre.

3. Os pecados das mídias

Continuando as suas reflexões sobre as mídias, o papa exclama: "Mas há também os pecados das mídias! Permito-me falar um pouco disso. Para mim, os pecados das mídias, os maiores, são aqueles que vão pelo caminho da falsidade, da mentira, e são três: a desinformação, a calúnia e a difamação. Estes dois últimos são graves, mas não tão perigosos quanto o primeiro. Por quê? Explico-lhes. A calúnia é pecado mortal, mas pode ser esclarecida e chegar a se conhecer que ela é uma calúnia. A difamação é pecado mortal, mas se pode chegar a dizer: esta é uma injustiça, porque esta pessoa fez aquilo naquele tempo, depois se arrependeu, mudou de vida. Mas a desinformação é dizer a metade das coisas, aquelas que, para mim, são mais convenientes, e não dizer a outra metade. E assim quem vê a TV ou quem ouve o rádio não pode fazer um juízo perfeito, porque não tem os elementos e não lhes são dados. Desses três pecados, por favor, fujam. Desinformação, calúnia e difamação".

5. Ser rede

No texto escrito, não lido, mas entregue aos participantes da audiência, o Papa Francisco reflete assim: "Sejam uma 'rede'. Gostaria de partir dessa imagem, que nos faz pensar nos primeiros discípulos de Jesus: eram pescadores, trabalhavam com as redes. E Jesus os chamou a segui-lo e fez deles 'pescadores de homens' (Mt 4, 19). Vocês também podem ser 'pescadores de homens' com essa sua rede de rádios e de televisões locais, que abraça toda a Itália. Uma rede simples, popular, e é bom que assim permaneça. Alcançando todas as cidades e todos os distritos, as emissoras de vocês colocam-se como instrumentos para que a voz do Senhor pode ser ouvida por todos. (…) As rádios e televisões de vocês podem transmitir, através do éter, algo dessa voz (do Senhor) para que ela fale aos homens e às mulheres que buscam uma palavra de esperança, de confiança para a sua vida. Desse modo, vocês são voz de uma Igreja que não tem medo de entrar nos desertos do homem, de ir ao seu encontro, de buscá-lo nas suas inquietações, nas suas confusões, dialogando com todos, também com aquelas pessoas que, por muitos motivos, se afastaram da comunidade cristã e se sentem distantes de Deus".

6. A contribuição das mídias católicas

O papa se pergunta: "E de que modo, com essa sua 'rede', vocês podem ajudar Jesus Cristo na sua missão, a anunciar hoje o Evangelho do Reino de Deus? Acima de tudo, eu diria, dando atenção a temáticas importantes para a vida das pessoas, das famílias, da sociedade, e tratando desses assuntos não de maneira sensacionalista, mas responsável, com sincera paixão pelo bem comum e pela verdade. (...) Muitas vezes, nas grandes emissoras, esses temas são abordados sem o devido respeito pelas pessoas e pelos valores em questão, de um modo espetacular. Ao invés, é essencial que, nas transmissões de vocês, se perceba esse respeito, que as histórias humanas nunca sejam instrumentalizadas".

7. Um ecossistema midiático equilibrado, que não polui

Por fim, ainda no texto escrito, o Papa Francisco faz uma reflexão conclusiva muito forte e corajosa. O Santo Padre escreve: "E a outra contribuição, vocês podem dar com a qualidade humana e ética do seu trabalho. Vocês podem ajudar a formar aquilo que o Papa Bento XVI chamou de um 'ecossistema' midiático, ou seja, um ambiente que saiba equilibrar silêncio, palavra, imagens e sons (cf. Mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de janeiro de 2012). Hoje, há muita poluição, e o clima midiático também tem as suas formas de poluição, os seus 'venenos'. As pessoas sabem disso, se dão conta disso, mas depois, infelizmente, acostumam-se a respirar no rádio e na televisão um ar sujo, que não faz bem. Há a necessidade de fazer circular ar limpo, que as pessoas possam respirar livremente e que dê oxigênio para a mente e para a alma. Tudo isso exige uma adequada profissionalidade, mas vai além. Pede que vocês vivam a 'comunicação em termos de proximidade' (Mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de janeiro de 2014).

8. As mídias católicas: rosto de uma Igreja que se faz bom samaritano

Tudo isso também "pede que vocês se tornem o rosto de uma Igreja que se faz 'bom samaritano', também mediante as rádios e as televisões. A parábola do bom samaritano, de fato, também pode ser uma parábola do comunicador: 'Quem comunica se faz próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas também cuida daquele homem que vê meio morto à beira da estrada' (ibid.). Nessa parábola, Jesus inverte a perspectiva: 'Não se trata de reconhecer o outro como um semelhante meu, mas da minha capacidade de me fazer semelhante ao outro' (ibid.)".

Nota

1. Em um ano de pontificado, o Papa Francisco abordou as grandes questões das comunicações sociais e das mídias em diversos momentos. Recordemos alguns. Primeiro, ele o fez poucos dias depois da sua eleição, no dia 16 de março de 2013, encontrando-se com mais de 6 mil jornalistas credenciados para o conclave. Depois, houve outros encontros, como por exemplo com o pessoal do Centro Televisivo Vaticano, por ocasião do seu 30º aniversário; com o pessoal do Rai por ocasião do 90º aniversário da rádio e do 60º da televisão.

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