Um novo olhar sobre a Pietà de Michelangelo, símbolo para o nosso mundo

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05 Março 2014

Os mistérios da Pietà de Michelangelo ainda não foram todos revelados. É ali, nos detalhes, que o essencial sobrevive sempre.

A opinião é do artista plástico e calígrafo francês Luc Templier, ex-curador do Musée de la Famenne, em artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano, 02-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Pietà de Michelangelo ainda não revelou todos os seus mistérios. Muito pelo contrário. As obras-primas são ricas deles e é possível interrogá-los infinitamente. É justamente a sua natureza. Um dia, apareceu-me um detalhe que mudou a minha visão da obra. É ali, nos detalhes, que o essencial sobrevive sempre. Neste momento, estou explicando essa descoberta em um livro, e aqui ofereço-lhes um tira-gosto.

Estamos em 1499, às vésperas da passagem para um novo século; período de transição, tenso, propício para as urgências e as fulgurações. Em menos de um ano, um jovem de 24 anos, em um único bloco de mármore branco de Carrara, esculpe uma obra-prima imortal. Isso bastará, com efeito, para nos convencer do caráter excepcional de tal obra, claramente inspirada nas mãos do escultor abandonado ao êxtase criativo. É nessa espécie de embriaguez, necessária, que Michelangelo esculpe. Joga-se nela e se contenta, diz ele, em liberar do bloco a maravilha que viu nela.

Uma Pietà. O tema é conhecido. Já foi tratado muitas vezes: a Virgem, Maria, segura entre os braços Cristo morto, deposto da Cruz. Notamos que a escultura se inscreve em um triângulo, símbolo da elevação, da perfeição e da estabilidade; um banquinho de três pernas não é sempre estável?

A primeira coisa que nos surpreende é a idade de Maria. É jovem, jovem demais, até mesmo mais jovem do que Cristo. O seu rosto é de uma perfeição impenetrável; os seus traços são magnificados, angelicais. Nenhuma emoção perturba aquele rosto jovem, liso e sem expressão, exaltado pelo contraste com a exuberância dos tecidos. Nada mais aqui do que a beleza ideal de uma jovem mulher, arquétipo da feminilidade. O que prevalece é a acolhida, necessariamente silenciosa: impressão acentuada pelo gesto da mão esquerda, aberta, que parece dizer: "Assim é".

Cristo está abandonado. Parece mais velho do que Maria, menor do que a mãe, do que a mulher, do que a esposa, em cujos braços desliza e se deixa deslizar. De fato, aquele corpo jovem e belo não mostra nenhum sinal de rigidez. Ao contrário, em forma de S, é flexível, sensual, lânguido. Os seus dedos acariciam o tecido, o pé está equilibrado em uma pedra, no braço e no pescoço as veias cheias de sangue pulsam no ritmo lento do encanto.

Em 1964, a Pietà partiu para Nova York. Primeiro e último exílio. Robert Hupka, um fotógrafo, a acompanha na viagem. Tira mais de 2.000 fotos da obra, a partir de angulações impossíveis, escondidas ao olhar há séculos, em uma representação de contraste – sob um fundo preto – muito diferente do de São Pedro. É a partir dessas fotos excepcionais que eu convido vocês a mudar de visão.

De fato, já não vemos mais apenas a Virgem e Cristo morto, mas sim uma jovem mulher e um jovem homem voluntariamente oferecido aos seus braços. Um casal, em suma. E os dois estão vivos. Mas que imagem poderia provar o que eu recém-disse?

Em Nova York, Robert Hupka realizar um furo no teto para captar o rosto de Cristo, sempre escondido ao nosso olhar, e que só o artista, antes dele, havia contemplado. É surpreendente! Porque o rosto está vivo, é de uma extraordinária serenidade. Sorri, confiante, beata bem-aventurança. Nunca um rosto humano tinha nascido do mistério divino da Arte com tanta força consoladora.

Então, além de uma Pietà, entendemos o que Michelangelo sugeriu nessa sublime parábola: a capitulação consentinte do masculino ao princípio feminino. Justa exaltação dos valores femininos longamente pisoteados, embora próximos também dos valores do Evangelho.

Magnífico símbolo para o nosso mundo, governado por um masculino triunfante, orgulhoso, que lança e relança continuamente os seus lucros, as suas competições, os seus exércitos. Sublime mensagem para a nossa humanidade, que nos convida a privilegiar, e a nos confiarmos, aos valores de acolhida, abertura, aceitação, que o princípio feminino representa aqui. A Pietà, nessa perspectiva, poderia encontrar lugar em qualquer altar do mundo. No silêncio da acolhida, o frenesi se encontra suspenso.

Mas por que, vocês me dirão, essa alegoria nunca havia sido comentada? Porque as revelações importantes, sacras, nunca podem ser feitas de imediato. Elas estão sempre veladas: na poesia, nas fábulas, nas parábolas. No mármore. Lá esperam, às vezes por um longo tempo, até que alguém as capte. Porque, sem uma distância, um véu, o essencial soa como um disparate.

 

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