Inovação e igualdade: a ideia de direita e de esquerda de Matteo Renzi na Europa em crise

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26 Fevereiro 2014

Vinte anos depois da publicação de Direita e esquerda, o best-seller de Norberto Bobbio, a editora Donzelli republica uma nova edição com uma introdução de Massimo L. Salvadori e dois comentários de Daniel Cohn-Bendit e Matteo Renzi. Publicamos a intervenção do presidente do Conselho e primeiro-ministro italiano. Um verdadeiro manifesto do chefe do novo governo da Itália.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 23-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Houve um tempo em que, à esquerda, a palavra "esquerda" era um palavrão. Sacrificada ao galanteio da coalizão de centro-esquerda, a ponto de justificar debates extenuantes e cômicos sobre o hífen, lembram-se?

"Centro-esquerda" ou "centroesquerda" era a nova disputa guelfi-ghibellini, entre aqueles que pensavam o campo progressista como um edifício litigioso, cortiço barulhento de partidos ciumentos das suas próprias conveniências e fronteiras, e aqueles que, ao invés, ansiava pelo Partido-Coalizão, área política aberta, cujo horizonte descerrava o universo do campo progressista.

Nesse cruzamento, que opôs duas linhas em parte tencionadas a criar confusão mesmo agora, há o Partido Democrático, a palavra "esquerda" como um laboratório, sempre em transformação, sempre inevitável.

Uma fronteira, não um museu. Curiosidade, não nostalgia. Coragem, não medo. Esses eram os anos do Ulivo, o projeto de Romano Prodi para derrubar as barreiras que separavam os herdeiros do Partido Comunista dos da Democracia Cristã, de uma força que reunisse instâncias liberal-democráticas, ambientalistas, em uma nova unidade, uma nova cultura política simplesmente – poderíamos finalmente dizer – "democrática".

Eram, no mundo, os anos da "terceira via", de Bill Clinton e Tony Blair, uma rota para evitar Cila e Caríbdis, entre os extremismos da esquerda irredutível e a direita que se tornou, depois de Reagan e Thatcher, uma máscara de durezas. Alguns pensaram então até que a esquerda já era um instrumento inútil, não mais adequado a um novo mundo, sob o impulso daquela que se chamava globalização, onde acabava o século XX da Guerra Fria e começava o XXI, totalmente individual e pessoal, da tecnologia à política.

Servindo de sentinela, não para proteger e conservar, mas para chamar novamente à substância das coisas, à sua força, o filósofo Norberto Bobbio – há quase 20 anos – pensou em desenhar uma linha para assinalar onde a divisão entre direita e esquerda ainda se mantinha e se mantém. Sugerindo que a escolha crucial continua sendo sempre a mesma, histórica, radical, um referendo entre igualdade e desigualdade, como do século XVIII em diante.

Eu me pergunto se hoje que a sedução da "terceira via" – que, mesmo no socialismo liberal, na utopia acionista de Bobbio, encontrou mais do que um reflexo – se sublimou perdendo impulso, o par igualdade/desigualdade não consegue reabsorver totalmente a distinção direita/esquerda. Basta pensar, em nível europeu, na insurgência dos populismos e dos movimentos xenófobos contra os quais é chamado a se redefinir o projeto da União Europeia, tão em crise. Um magma impossível de reduzir à velha contradição iguais/desiguais tão longamente nítida.

Do ponto de vista do sistema político, de fato, eu sou e continuo sendo um convicto bipolarista. Eu acredito que um modelo bipartidário – à la americana, para nos entendermos – é um horizonte desejável, seja no respeito à história, às culturas, às sensibilidades e à pluralidade que sempre caracterizou o panorama italiano. Mas, refletindo sobre a teoria, sobre os princípios fundamentais, eu não sei, ao invés, não seria mais útil hoje expressar essa díade nos termos temporais de conservação/inovação.

Ainda se mantém, portanto, o esquema baseado na igualdade como estrela guia para a esquerda? Em uma sociedade cada vez mais individualizada, sob o impulso também das novas tecnologias, das redes sociais, das redes que conectam mas também atomizam, criando e destruindo comunidades e identidades? Como recuperar, depois de anos de desconfiança, mesmo entre os progressistas, ideias como "mérito" ou "ambição"? Como evitar que, em uma paisagem social tão mudada, a esquerda perca contato com os "últimos", ligada às deterioradas teorias dos anos 1960 e 1970, quando o Papa Francisco, com calor, consegue falar a língua da solidariedade?

Certamente, a igualdade – não o igualitarismo – continua sendo a fronteira para os democráticos, em um mundo interdependente, dilaniado por disparidades de direitos, de renda, de cidadania. Porém, fora o próprio Bobbio, justamente enquanto demarcava aquela sua histórica dicotomia, que se deu conta de que, talvez, a sua argumentação precisava de uma dimensão a mais, um fôlego temporal diferente, outra profundidade. "Na linguagem política – escreve Bobbio – ocupa um posto muito relevante, além da metáfora espacial, a temporal, que permite distinguir os inovadores dos conservadores, os progressistas dos tradicionalistas, aqueles que olham para o sol do futuro daqueles que prosseguem guiados pela inextinguível luz que vem do passado. Nada diz que a metáfora espacial, que deu origem ao par direita-esquerda, não possa coincidir, em um dos significados mais frequentes, com a temporal".

É por isso que, 20 anos depois da advertência de Bobbio, o momento está maduro para superar os seus limites, modificados e tornados irregulares pelo mundo global, como ensinam Ulrich Beck e Amartya Sen. É preciso uma narrativa temporal, dinâmica, mais rica. Que não esqueça raízes e origens, sempre a serem postas em questão, a serem problematizadas, mas que, acima de tudo, faça as contas com os novos tempos que estamos vivendo e atravessando. Aberto/fechado, diz Blair hoje. Para frente/para trás, quem sabe, inovação/conservação.

E, por que não, movimento/estagnação. Se a esquerda ainda deve se interessar pelos últimos, porque é esse interesse específico que a define idealmente como tal, hoje ela deve ter o olhar mais longo. As seguranças ideológicas do século XX, elaboradas sobre a análise de um mundo organizado de maneira muito menos complexa do que o contemporâneo, tornavam mais simples a tarefa da representação das instâncias dos últimos e dos excluídos, e do governo do seu desejo de redenção. Era preciso dar cidadania a blocos sociais definidos e compactos, para que condicionassem as decisões sobre o futuro das comunidades nacionais das quais faziam parte. Para a esquerda que, depois de Bad Godesberg, se organizava na Europa em partidos social-democratas pós-marxistas (e anticomunistas), era uma tarefa certamente fatigante, mas linear no seu mecanismo de função política.

Hoje, esses blocos sociais não existem mais, e é bom que seja assim! No fundo, todo esforço cotidiano do trabalho da esquerda social-democrata, cara a Bobbio, havia sido o de desmantelar esses blocos. Com o objetivo de oferecer aos homens e às mulheres, que eram forçados a esses blocos, a oportunidade de uma vida material menos desconfortável e de uma existência mais rica em experiências. Com a invenção do welfare, essa esquerda tinha conseguido saciar as bocas e as almas dos últimos e dos excluídos, libertando-os da necessidade de material – liberdade fundamental também para a esquerda liberal-democrata norte-americana de Franklin D. Roosevelt – e fornecendo-lhes a oportunidade de realizarem a si mesmos. A invenção social-democrata do welfare tinha, assim, conseguido dois objetivos históricos. De um lado, de fato, o welfare tinha satisfeito a sacrossanta demanda de maior justiça social. De outro, no entanto, a melhoria das condições objetivas de vida dos últimos havia determinado um benefício geral para todas aquelas comunidades democráticas que não tiveram medo de responder "sim!" à sua demanda de mudança.

A esquerda cara a Bobbio, a social-democrata e anticomunista, venceu a sua partida, em suma. Mas hoje estamos jogando outra. Aqueles blocos sociais que antes tornavam tudo mais simples, não existem mais. As próprias fronteiras nacionais que eram o perímetro dentro do qual se jogava a partida da inovação do welfare já são postas em discussão. Mais do que com blocos sociologicamente definidos dentro de Estados nacionais historicamente determinados, hoje, a nova partida se desenvolve com atores e campos inéditos. Aqueles blocos foram substituídos por dinâmicas sociais irrequietas. As fronteiras nacionais não delimitam mais os espaços dentro dos quais as novas dinâmicas jogam a sua partida.

Diante dessa poderosa mudança de perspectiva social e econômica, cultural e política, a esquerda deve mostrar que tem coragem e não trair a si mesma. Deve aceitar viver o constante movimento dos tempos presentes e acolhê-lo como uma bênção, e não como um obstáculo. É esse extraordinário, irreprimível movimento que rompe a velha bidimensionalidade da díade direita/esquerda e lhe dá temporalidade e nova força.

Mas, muitas vezes, na Itália e na Europa, a esquerda tem medo disso. Parece não se dar conta de que o novo mundo em que todos vivemos também é o fruto do sucesso das próprias políticas, das mudanças ocorridas no século XX graças à sua iniciativa. Porque a inovação, quando tem sucesso, produz um ambiente diferente do qual se partiu. Um ambiente mudado que chama à mudança os mesmos que mais contribuíram para mudá-lo. Mudar a si mesmos é a tarefa mais onerosa de todas. No entanto, não mudar a si mesmos, em uma realidade que se contribuiu para mudar, condena à incapacidade de distinguir os novos últimos e os novos excluídos, e à indolência de não se colocar logo ao seu serviço. Que foi exatamente o que aconteceu com a esquerda de tradição social-democrata em relação aos desafios do novo século.

A esquerda é hoje chamada a reconhecer e a conhecer o movimento contínuo das novas dinâmicas sociais, contra aqueles que gostariam de apelar, de modo vão, a blocos que não existem mais e que é bom que não existam mais! Na Itália, mais do que em outros lugares, a capacidade da política de saber distinguir as dinâmicas sociais que interessam aos últimos e aos excluídos, de saber entrecruzá-las para lhes dar representação e, por fim, de saber governar o seu constante movimento para construir para eles, e para todos, um país melhor é a tarefa do Partido Democrático. É a missão histórica da esquerda.

 

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