''Se queres a paz, aceita os teus limites''. Entrevista com Anselm Grün

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18 Fevereiro 2014

Recém-terminou a oração do meio-dia na abadia beneditina de Münsterschwarzach, a 22 quilômetros de Würzburg, na Baviera setentrional, Franconia para os moradores locais. Cabelos fluentes que já escapam da testa, a longa barba grisalha, Anselm Grün, 69 anos, escreveu 300 livros sobre a psique e sobre o espírito, vendendo em todo o mundo 20 milhões de cópias. Ele está preparando um novo livro sobre as feridas psicológicas da infância, juntamente com WalterKohl, filho do chanceler da Unificação Alemã, alguém que entende do assunto.

A reportagem é de Claudio Gallo, publicada no jornal La Stampa, 14-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Anselm Grün nasceu no dia 14 de janeiro de 1945, em Junkershausen, na Alemanha. Monge beneditino, é ecônomo da Abadia de Münsterschwarzach, perto de Würzburg, na Baviera.

Eis a entrevista.

Padre Grün, eu já tenho um iPhone, um bom carro, uma bela garota. Se eu não os tivesse, o meu mandamento seria de obtê-los. Por que eu deveria me interessar pela religião?

A religião dá um sentido à vida. O ser humano deseja o sucesso, o dinheiro, mas essas coisas, mesmo que se realizem, não nos dão a satisfação esperada, permanecemos sem paz. A religião responde ao chamado da alma: é o desejo de uma vida boa.

Muitos "mestres espirituais" nos impelem a olhar para dentro de nós, desvalorizando a realidade exterior. Mas quando Jesus diz: "Dai a César o que é de César", ele não estaria reconhecendo que o ser humano é um ser social?

A espiritualidade se ocupa da transformação pessoal, mas São Bento ensina: ora et labora. A responsabilidade diante do mundo é uma coisa muito importante para os fiéis. Os cristãos não vivem sozinhos para si mesmos, vivem com os outros e têm a tarefa de transformar a sociedade. Max Horkheimer, o filósofo da Escola de Frankfurt, disse que a religião tem a tarefa de fazer a sociedade humana, de cultivar o desejo pelo totalmente outro. A sociedade abandonada a si mesma quer controlar tudo, definir todo comportamento humano. A religião protege um espaço de liberdade.

Por que eu deveria ter valores morais, quando o objetivo supremo da nossa sociedade, a riqueza, é alcançada mais facilmente sem eles?

No mosteiro, eu costumo dar palestras para empresários e banqueiros. Há duas atitudes: uma que não respeita e não acredita em valores, outra que, ao invés, entendeu como é importante protegê-los, porque, no fim, um mundo sem valores também prejudica a economia.

A economia persegue o crescimento ilimitado, a moral do mercado é o desejo infinito. Mas você fala de um sentido do limite, por quê?

Como diz o papa, o capitalismo puro se torna desumano. Por sorte, na Alemanha, temos a economia de mercado social, em que o capitalismo é submetido a uma crítica, a certas limitações. Limite tem dois significados diferentes: o primeiro é o limite pessoal, os meus limites humanos. O segundo é a finitude da natureza, razão pela qual todo crescimento é limitado e destinado a acabar, a morrer. Esse tipo de crescimento natural deveria ser o modelo da economia. A concepção de um crescimento sem limites é uma ideia doente.

Usando um termo do psicoterapeuta Carl Gustav Jung, você convida a aceitar a própria sombra: o que significa isso?

Jung diz que cada um tem dentro de si diversos pares de polaridade. Um deles é razão-sentimento: quando vivemos apenas na razão, os sentimentos vão para a sombra e se tornam sentimentalismo. Lá, adquirem um grande poder, porque não é mais o ser humano que tem sentimentos, mas sim os sentimentos que têm o ser humano. Obviamente, é preciso encontrar um equilíbrio. Para fazer isso, é preciso saber se aceitar. Por exemplo, eu devo saber reconhecer os meus impulsos sádicos e masoquistas, a minha maldade, a minha agressividade. São pulsões que não devem ser vividas, é claro, mas nem negadas. É importante saber observá-las com humildade. Do medo da sombra, nasce o moralismo, e, quanto há mais medo, mais cresce a severidade do moralista.

A sociedade corre cada vez mais rápido, e nós custamos a manter o ritmo. A velocidade moderna não é o oposto da paz interior?

Muitas pessoas percebem essa velocidade como uma ameaça ao seu equilíbrio, à sua saúde, uma fonte constante de angústia. Então, busca-se a quietude, mas, nesse ponto, eis um paradoxo: a calma dá medo. Vêm à tona os nossos pesadelos, os sentimentos de culpa, de inadequação, o medo da verdade, das doenças, da morte. A verdade da calma aterroriza, as pessoas não querem se lembrar dos próprios limites. É uma porta que deve ser atravessada.

O cristianismo insiste na liberdade humana, mas a ciência moderna parece considerar o ser humano apenas como uma sofisticada máquina bioquímica. Basta uma pílula para ser feliz?

A liberdade do ser humano não é absoluta. A psicologia nos ensina que somos dependentes do início da nossa história, das feridas da infância. Há uma história que não podemos mudar, mesmo que a responsabilidade de responder caiba a nós. Na resposta, está a nossa liberdade. A depressão pode ter um sentido. Há diversos tipos de depressão, e alguns, é claro, devem ser tratados com medicação. Mas, às vezes, a depressão é uma rebelião contra uma imagem interior alta demais, elevada demais, a obsessão pelo sucesso, pela perfeição. Nesses casos, é um modo de me trazer de volta à minha medida verdadeira. Às vezes, a depressão se deve à falta de raízes na história pessoal, na fé, na força que deveria vir das figuras do pai e da mãe.

O que é fé?

A fé é uma experiência. Quando um não crente me diz: "Eu não posso crer", eu lhe digo: "Você não deve crer. Tente!". Jesus diz: "Deus é o pastor, nada me falta". Não é preciso crer, mas provar se essa palavra é verdadeira. Depois, há outro aspecto: o que eu vejo quando vejo a beleza da natureza, o que eu escuto quando escuto Mozart. Não é só química. Na beleza da natureza e na beleza da cultura, reluz a beleza absoluta. Isso é Deus. Quando alguém diz que não crê em Deus, em geral se refere a uma imagem particular de Deus. Mas Deus é totalmente outro, mistério, como diz o teólogo Karl Rahner. Quando alguém tem o sentido do mistério, também tem o sentido de Deus.

Às vezes você fala dos anjos. O que é um anjo?

É preciso ter cuidado para não reduzir o anjo a algo familiar demais, assim como faz a Nova Era ou um certo esoterismo: não podemos telefonar para um anjo. A teologia diz que os anjos não são pessoas, mas sim forças pessoais, forças que protegem a pessoa. O anjo nos aceita como somos e nos ajuda a estar com nós mesmos, mesmo quando os outros nos desprezam ou nos rejeitam. Não é só um estado psicológico, mas, digamos, o anjo é uma imagem, porque não temos outros modos de nos expressar, mas é uma realidade. Uma realidade que vem de Deus.

O que é oração?

A oração é um encontro com Deus. Eu mostro a minha verdade a Deus. Alguns acreditam que a oração serve para pedir alguma coisa, mas o que importa é o encontro: eu ofereço a minha verdade e as minhas sombras a Deus para que ele aceite.

O que é meditação?

A meditação é um método. Há 50 anos, descobrimos a meditação do Oriente, graças ao budismo, mas a técnica já existia na nossa tradição, nos padres do deserto ou no hesicasmo dos ortodoxos. Às vezes é preciso ir longe para encontrar as coisas próximas.

 

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