Nas entranhas da besta: um retrato dos horrores da indústria da carne

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21 Janeiro 2014

Jeff Roberson/AP

Nos Estados Unidos, um pequeno grupo de ativistas pelos direitos dos animais vem se infiltrando nas fazendas onde os bichos são transformados em carne sob as mais cruéis circunstâncias. Agora, os gigantes do agronegócio estão tentando esmagá-los.

A reportagem é de Paul Solotaroff, publicada pela revista RollingStone, 20-01-2014. A tradução é de Ligia Fonseca.

Sarah – vamos chamá-la assim nesta reportagem, embora este não seja o nome que os pais dela lhe deram nem o que ela atualmente usa como disfarce – é uma mulher alta e clara, de 20 e poucos anos, que é linda de um jeito quase comum, como se tivesse propositadamente eliminado qualquer característica distintiva de seu rosto e corpo. Como qualquer pessoa que passa muito tempo trabalhando em fazendas, ela tem coxas e tronco fortes, graças ao trabalho de conduzir porcas prenhas que têm o triplo do seu peso para currais onde elas parem seus filhotes e de carregar baldes de porquinhos mortos por corredores compridos até onde eles serão processados mais tarde. É um trabalho árduo – nove horas por dia em estábulos abafados no estado de Wyoming, Estados Unidos, e nenhum treinamento poderia prepará-la para o ataque sensorial de 10.000 porcos em espaços confinados: o fedor de esterco, em pilhas de 90 cm de altura; o sangue nas narinas das porcas, cortadas por gaiolas tão apertadas que elas não podem se virar ou deitar de lado; os gritos ensurdecedores de animais com as patas quebradas, levados até becos por trabalhadores com olhos apáticos e abandonados ali para morrer lentamente. É o pior trabalho que ela ou qualquer outra pessoa já teve, mas Sarah não está resmungando sobre as condições. Está ocupada demais travando uma guerra em nome dos porcos.

Estamos sentados no sofá com outro militante, um ex-soldado que chamaremos de Juan, no salão aberto de um chalé ao norte da fronteira entre Vermont e Nova York. A casa pertence à chefe deles, Mary Beth Sweetland, diretora investigativa da organização Humane Society of the United States (HSUS) e que os trouxe aqui, primeiro, para contar suas histórias, depois para investigar uma casa de leilão de gado nas proximidades. Mary treina e comanda as dezenas de pessoas engajadas no negócio perigoso de se infiltrar em fazendas industriais e documentar o abuso cometido contra multidões de animais por parte dos gigantes norte-americanos do agronegócio, bem como em abatedouros e leilões de gado. Dada a escala do negócio – a cada ano, estima-se que, nos Estados Unidos, 9 bilhões de frangos de corte, 113 milhões de porcos, 33 milhões de vacas e 250 milhões de perus sejam criados em estábulos escuros, imundos e pestilentos para nosso consumo –, é injusto chamar isso de operação de guerrilha, por medo de ofender guerrilhas com mais poder de fogo, mas o que Juan e Sarah fazem com suas câmeras e microfones escondidos é nocautear a gigante indústria da carne, mostrando vídeos das condições de vida dos animais a salas cheias de repórteres e equipes de filmagem. Em muitos casos, esses achados levam a prisões e/ou fechamentos de plantas de processamento, embora a verdadeira questão para os acusadores seja exigir mudanças no modus operandi de gigantes de fast food e grandes varejistas. “Tivemos um grande impacto nos cinco ou seis anos em que comandamos essas operações”, afirma Sarah.

Em seu escrutínio do Big Meat – um cartel de corporações que engoliram fazendas familiares, levaram os animais para instalações semelhantes a prisões no meio do nada, longe do olhar de consumidores nervosos, e criaram seu gado além do ponto da exaustão –, a Humane Society (e organizações como PETA e Mercy for Animals) está prestando um serviço que o governo federal não pode, ou não quer, oferecer: ficar de olho na forma como a carne é cultivada nos Estados Unidos (um modelo que é seguido em incontáveis países). Este seria o trabalho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, mas a agência tem uma falta tão grande de funcionários que normalmente só envia inspetores a abatedouros, onde verificam uma pequena amostra de porcos, vacas e ovelhas antes que estes sejam abatidos. Essa hora antes do fim geralmente é o único momento em que uma porca vê um representante do governo; desde o momento em que nasce, está por conta própria, passando quatro ou cinco anos em um engradado minúsculo, perpetuamente grávida e doente por respirar seus próprios dejetos enquanto come ração cheia de drogas promotoras de crescimento, às vezes até lixo (a palavra “lixo” não está aqui por acaso: junto com os grãos pode haver todo tipo de detrito, de vidro de lâmpada moído e seringas usadas a testículos de filhotes esmagados. Pouquíssimo em uma granja industrial é descartado). Exceto por um ou outro funcionário que fica revoltado e coloca fotos incriminatórias no Facebook, ativistas disfarçados como Juan e Sarah são a nossa única janela para o que acontece nesses lugares – e logo, se o Big Meat for atendido, não teremos nem isso para nos informarmos. Nos Estados Unidos, uma onda de novas leis, elaboradas quase totalmente por congressistas e lobistas e chamadas de leis “Ag-Gag” (ou “tapa-boca”), estão fazendo com que seja ilegal aceitar um emprego em fazendas e realizar espionagem, candidatar-se a um emprego em fazenda sem revelar uma trajetória como jornalista ou ativista de direitos dos animais, e guardar evidências de abuso contra animais por 24 ou 48 horas antes de entregá-las a autoridades. Como demora semanas ou até meses para desenvolver um caso – e já que grupos como a HSUS fizeram juramento de não infringir a lei – essas leis estão detendo os defensores dos animais e soltando as rédeas das fazendas industriais.

Três estados – Iowa, Utah e Missouri – aprovaram essas medidas nos últimos dois anos, e mais devem se seguir. “É por isso que viemos a público: as pessoas precisam lutar enquanto é tempo”, diz Sarah. “Não estamos tentando acabar com a carne ou criar pânico, mas há uma maneira decente de criar animais para alimento, e esta [que é praticada atualmente] está muitíssimo longe disso.”

Há cerca de dois anos, Sarah foi contratada por um viveiro chamado Wyoming Premium Farms, um monólito imenso na minúscula Wheatland, uma cidade com pouco mais de 3.600 habitantes. Na fazenda, que tem o tamanho de quatro campos de futebol americano e está conectada a um estábulo de parto separado, ela era um dos 12 a 15 trabalhadores que cuidavam de quase 1.000 porcas cada, o que é a normal nesses lugares. A rotatividade de funcionários era alta e o ânimo, baixíssimo – os animais pagavam por isso com sangue. “Os trabalhadores estavam tão estressados que batiam nas porcas durante o processo de desmame e as levavam de volta para o viveiro”, conta Sarah. “Algumas mães resistiam e eles simplesmente mandavam ver, três ou quatro por vez chutando e socando uma fêmea. No meu primeiro dia lá, vi uma porca quebrar a pata tentando recuperar seu filhote. Eles a enfiaram em um beco e a deixaram ali por uma semana antes de alguém furar a cabeça dela com um prego.”

“Foi aquele velho, Steve, que bateu na porca?”, pergunta Juan. Ele trabalhou em um estábulo Premium nas proximidades, onde passava os dias extraindo canecas de sêmen dos porcos reprodutores e as noites lavando o fedor de sua pele.

“Não, ele abusava dos filhotes”, ela diz sobre Steve Perry, um homem tatuado que parecia ter prazer em abusar de porquinhos recém-nascidos – balançando-os pelas patas, gabando-se de golpear uma porca com uma caneta e arrancando a orelha de outra. Ele foi um dos nove trabalhadores acusados de crueldade contra animais em conexão com o caso que Sarah montou. Todos perderam seus empregos na fazenda; cinco pagaram multas leves e foram colocados em liberdade condicional por seis meses. No entanto, Perry entrou com um recurso alegando inocência e, mais tarde, arranjou emprego no estábulo onde Juan trabalhava. Eventualmente, declarou-se culpado de duas acusações de crueldade contra animais, recebeu uma pequena multa e passou um tempo curto na cadeia. Enquanto isso, Sarah encontrou evidências que eventualmente ajudaram a revelar que a Tyson Foods, gigante da indústria da carne (que tem subsidiária no Brasil) era cliente do Premium.

“E o que aconteceu com a Tyson – pagou um preço, em multas ou fechamentos?”, pergunto.

“Ah, não – os grandões sempre se safam”, responde Mary Sweetland, que monitora nossa conversa de sua mesa no andar de cima. “Só que os atingimos onde dói – no bolso.” A Tyson Foods, maior processadora de carne dos Estados Unidos, negou uma ligação com o Wyoming Premium, depois admitiu ser dona de uma empresa que fazia negócios com esses viveiros. Mais tarde, a Tyson distorceu outra vez a questão ao acrescentar, através de um porta-voz, que havia cortado os laços com o Premium. Mesmo assim, justiça cármica foi feita quando o custo da ração para frangos ajudou a fazer o faturamento líquido da empresa despencar 42% no segundo trimestre de 2013.

Atenção: imagens fortes

Assista a vídeos gravados secretamente por ativistas nos Estados Unidos, mostrando trabalhadores de fazendas agredindo os animais que estão sob seus cuidados. As brutais condições promovidas por gigantes corporações que adotam o método industrial impulsionam um ambiente em que este tipo de tratamento parece normal. Cortesia da ONG norte-americana Mercy for Animals.

 Clique na imagem acima para assistir o vídeo

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