Pedro Fabro: o novo santo padroeiro dos negócios?

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15 Janeiro 2014

"Ele escrevia dois séculos antes que Adam Smith levantasse um lápis, durante uma era em que a Igreja Católica normalmente olhava com restrições o mundo dos negócios; a Igreja tinha um olhar de soslaio. No entanto, em poucas linhas Fabro cristalizou uma filosofia profunda e profundamente desafiadora dos negócios", escreve Chris Lowney, autor do livro "Pope Francis: Why He Leads the Way He Leads" e presidente do conselho da organização Catholic Health Initiatives, em artigo publicado pelo National Catholic Reporter, 11-01-2014. A Tradução é de Isaque Gomes Correa.

São Pedro Fabro é retratado distribuindo a comunhão em pintura do século XIX de Pietro Gagliardi. (CNS, cortesia da Cúria Geral dos Jesuítas)

Quero propor um novo santo padroeiro para as pessoas de negócios: Pedro Fabro.

No dia 17-12-2013, o Papa Francisco assinou a bula de canonização reconhecendo Fabro como santo, e a elevação relativamente discreta – sem missa ornamentada na Praça de São Pedro para o pobre Fabro – está em conformidade com sua relativa obscuridade no panteão jesuíta. Fabro estava entre os poucos que fundaram a ordem dos padres jesuítas em meados de 1500. Mas ele nunca conseguiu ter a fama de Santo Inácio de Loyola ou de São Francisco Xavier. Nenhuma igreja jesuíta estará completa sem um mural ou estatuário triunfalista com Loyola ou Xavier. Mas e Fabro? Normalmente ele é um de um entre tantos outros jesuítas de toga preta, com olhar plasticamente piedoso no lado esquerdo do mural.

O seu ministério foi vital, mas não a ponto de ser motivo para manchetes. Foi um diretor espiritual extraordinariamente capaz, que revigorou o clero e os bispos que estavam decadentes; ele pacientemente atraiu católicos indecisos, tendo-os de volta à instituição no momento em que a Reforma Protestante estava varrendo a Europa. Numa entrevista à revista La Civiltà Cattolica, o Papa Francisco elogiou o estilo de Fabro, seu “diálogo com todos (...), até mesmo com seus oponentes (...), sua piedade simples (...), seu discernimento interior cuidadoso (...) capaz de ser tão gentil e amoroso”. A doação paciente mas sempre persistente de Pedro Fabro – o seu “espírito de fronteira”, por assim dizer – incorpora a mudança cultural que Francisco está tentando engendrar em nossa Igreja em geral.

Mas como Fabro se tornou meu santo padroeiro dos negócios?

Certa vez, em missão na localidade de Mainz, Alemanha, ele ficou aterrorizado com a pobreza generalizada do lugar. “Ao levantar no silêncio da noite para rezar”, escreveu ele, “me vi fortemente inspirado a fazer o meu melhor para propiciar aos necessitados e desabrigados doentes (...) um albergue”. Fabro, estimando haver cerca de 6500 mendigos na cidade, conclui: “Talvez, se nós [jesuítas] tivermos um dom para os negócios (...) e não tivermos uma tal colheita espiritual a ser colhida (...), poderíamos nos preocupar mais com este problema”.

A visão de Fabro do papel positivo dos negócios é notável. Ele escrevia dois séculos antes que Adam Smith levantasse um lápis, durante uma era em que a Igreja Católica normalmente olhava com restrições o mundo dos negócios; a Igreja tinha um olhar de soslaio. No entanto, em poucas linhas Fabro cristalizou uma filosofia profundamente desafiadora dos negócios.

Em primeiro lugar, um negócio, quando bem feito, desempenha um papel único ao capacitar pessoas a se sustentarem e a sustentar a sua família com dignidade. A reação de Pedro Fabro ao ver tantos mendigos? Não foi “precisamos fazer um sopão”, mas sim a de que “precisamos fazer negócios”. É claro, caridade também é essencial: Jesus nos disse que iremos para o inferno se acaso não cobrirmos os desnudos e não alimentarmos os famintos. Porém Fabro também percebe o papel singular dos negócios na criação de uma mudança societal positiva, sistêmica e de longo prazo.

Em segundo lugar, Fabro reconhece que grandes empresários têm um certo “faro”, instinto para o negócio. A imaginação para identificar necessidades não satisfeitas, a vontade de tentar algo novo e assumir o risco pelo fracasso, a atenção escrupulosa nos detalhes da execução, a habilidade para inspirar os membros da equipe e uma centena de outras coisas marcam o faro de um bom empresário. São talentos, dons de Deus, e devem ser reconhecidos como tais. Não é pecado ter sucesso nos negócios ao empregar plenamente estes talentos.

Mas implicitamente Fabro desafia os empresários, as pessoas de negócio, com o fato de que os seus talentos só estão sendo bem usados quando eles mantêm uma perspectiva correta sobre a vida. Negócios e o fazer-dinheiro não são os fins mais elevados, isso “se não houvesse tal colheita de almas para serem colhidas”, escreve Fabro. Nosso destino se encontra além deste mundo, e aqui estamos por propósitos que vão além do que podemos vender, comercializar, construir, comprar, exibir ou possuir durante esta curta jornada terrena. Para o bem ou para o mal, isso inclui as vidas dos empregados, clientes, acionistas e comunidades.

A visão de negócios de Pedro Fabro é enobrecedora, inspiradora. Empreendedores com faro ao estilo de Fabro para os negócios não pensam só em “aumentar os valores dos acionistas” e fazê-los mais ricos; eles pulam para fora da cama sentindo-se abençoados a ajudar os seus concidadãos em usar seus talentos, apoiam suas famílias de uma forma altamente dignificante e aliviam a pobreza nos locais onde moram.

A exortação apostólica do Papa Francisco – “Evangelii Gaudium – também tem muito a dizer sobre o papel das empresas, lançando importantes questões numa cultura de negócios que, às vezes, transforma o dinheiro em um bezerro de ouro dos tempos modernos. Católicos republicanos expressam desaprovação, dizendo que o papa realmente não entende como o mercado funciona; já católicos democratas reduzem a agenda papal a nada mais do que um endosso para uma política tributária redistribucionista mais forte. Todavia, uma leitura atenta de sua exortação revela desafios e afirmações para todos os partidos e grupos católicos neste debate.

Na verdade, o papa, tal como Pedro Fabro, está chamando os empresários e a todos nós para refletirmos sobre nossa vocação humana de formas muito mais fundamentais. Afinal de contas, é isso o que grandes líderes fazem, sejam papas ou empreendedores com faro para os negócios. Eles tentam nos inspirar para transcendermos nossas ideologias e diferenças e nos coalescer em torno de um ponto de vista mais elevado.

O santo foi o primeiro jesuíta ordenado

São Pedro Fabro, que nasceu em 1506 no que hoje é a França, compartilhou alojamentos com Santo Inácio e São Francisco no Colégio de Sta. Bárbara, na Universidade de Paris. Fabro foi o primeiro dos jesuítas a ser ordenado sacerdote; celebrou a missa em 1534 durante a qual Santo Inácio e outros fizeram seus votos de pobreza, castidade e obediência.

O padre jesuíta Antonio Spadaro, editor da La Civiltà Cattolica, que fez a entrevista com o Papa Francisco publicada em periódicos no mês de setembro, perguntou sobre seus jesuítas favoritos.

O papa iniciou “mencionando Inácio de Loyola e Francisco Xavier, mas em seguida focou uma figura que outro jesuíta irá certamente conhecer, mas que, é claro, não é tão famoso para o público geral: Pedro Fabro (1506-1546)”, escreveu Spadaro.

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