A Antártica e a geopolítica mundial. Entrevista com Pablo Fontana

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Por: André | 16 Dezembro 2015

Além dos seus blocos de gelo e da presença de cientistas, a Antártica tem um lado menos conhecido: sua história como engrenagem da geopolítica mundial. Houve ali até uma revolução bolchevique. Os nazistas enviaram navios corsários. E o governo britânico “doou” à rainha um pedaço do setor argentino.

Pablo Fontana publicou um recente livro [La pugna antártica. El conflicto por el sexto continente – 1939-1959. Guazuvirá Ediciones] sobre a história do sexto continente como teatro de operações e caixa de ressonância da geopolítica global, para onde os nazistas mandaram navios corsários durante a Segunda Guerra Mundial, onde se disputou a Guerra Fria e o conflito anglo-argentino incluiu a tomada de prisioneiros e tiros de metralhadora. Uma insólita “Revolução Bolchevique”. A Antártica como ensaio para a colonização de Marte e sua hipotética futura exploração.

A entrevista é de Julián Varsavsky e publicada por Página/12, 14-12-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que levou o ser humano a querer colonizar o sexto continente?

Já na época do Vice-reinado do Rio da Prata, no começo do século XIX, barcos rioplatenses começaram a ir para águas subantárticas para caçar focas a tiro. Como esses barcos não queriam concorrência, não deixavam registros de suas viagens e por isso os historiadores não têm certezas documentadas. Mas existe um registro de 1818 de um barco que zarpou de Buenos Aires para águas que iam “além da Terra do Fogo”.

Os norte-americanos, que hoje têm as maiores bases do continente branco, atribuem a si a sua descoberta e usam esse argumento para reservar-se o direito de reclamar todo o continente.

Nathaniel Palmer, um capitão baleeiro norte-americano, chegou às Ilhas Shetland em 1820 e por isso alguns o chamam de “descobridor da Antártica”. Mas em seu diário, Palmer relata que chegou ali perseguindo caçadores de focas de Buenos Aires que tinham estado ali antes.

A primeira exploração sistemática foi feita por um alto membro da oligarquia portenha: Ernesto Tornquist, que instalou uma indústria baleeira na Ilha Geórgia do Sul em 1904.

Trata-se da estação Grytviken da Companhia Argentina de Pesca, que chegou a ter cinema, igreja, campo de futebol, hospital e cemitério. Produzia mil barris diários de óleo. Em 1906, começaram ali os conflitos com o Reino Unido, com a chegada de um navio de guerra britânico que obrigou a baixar a bandeira argentina na fábrica, içar a bandeira do Reino Unido e pagar impostos à coroa. Segundo algumas versões, isto teria ocorrido com os canhões ingleses apontados para a ilha (outros desmentem).

Em 1920, ocorreu na estação Grytviken uma insólita “Revolução Bolchevique”. A Mongólia, em 1924, é considerada a segunda revolução socialista da história. Mas se se olha a partir da formal autoproclamação de seus protagonistas, a segunda ocorreu na Antártica, teoricamente em território argentino.

Essa história é impressionante e sabemos pouco sobre ela. Eu solicitei documentos ao arquivo histórico em Puerto Argentino, onde se explica que o conflito com a Companhia Argentina de Pesca originou-se porque os trabalhadores exigiam o pagamento em moeda argentina, entre outras melhorias. Ao não terem resposta, decidiram nada menos que tomar o poder na ilha, declarando-se “bolcheviques”, e proclamaram “a primeira república socialista fora da Rússia”.

Tomar o poder nesse contexto para os 200 trabalhadores não devia ter sido muito difícil. Ali havia um gerente norueguês e uma autoridade britânica – uma espécie de juiz de paz – que deixaram registrado que se assustaram muito quando os trabalhadores assumiram uma atitude violenta provocada pela falta de resposta. Mantiveram o poder por cerca de 10 dias, até que chegou, por pura casualidade, um cruzeiro de guerra britânico. Assim que tomaram conhecimento da situação, desembarcaram os marinheiros e sufocaram a rebelião: os líderes foram expulsos para Buenos Aires.

Não existe informação clara sobre quem foram esses rebeldes, se trabalhadores russos ou sul-americanos. O mais interessante é que isto ocorreu pouco depois da Semana Trágica em Buenos Aires e pouco antes da Patagônia Rebelde. Fiz contato com historiadores noruegueses da indústria baleeira que vão me facilitar os nomes daqueles grevistas, para ver se algum deles teve participação nas lutas operárias do continente e se existe uma relação entre os três episódios.

Em 1938 entrou para mover suas peças na Antártica nada menos que o Terceiro Reich da Alemanha.

Isto se deu no contexto da convocação, em 1938, para a Conferência Polar Internacional de Bergen, a realizar-se em 1940, na qual se reuniriam os países com história antártica motivados principalmente pela indústria baleeira. Muitos países retomaram suas reivindicações de soberania, para não ter de pagar mais impostos à Inglaterra pela caça de baleias. A Argentina e o Chile criaram suas comissões antárticas e os britânicos se ativaram depois de seu impasse da Primeira Guerra Mundial: até esse momento, a Argentina era o único país com presença permanente há 40 anos na Antártica, com o observatório meteorológico nas Ilhas Orcadas do Sul.

Enquanto isso, a Alemanha havia anexado a Áustria e sentia-se no ar que podia explodir uma nova guerra mundial, algo que a França e a Inglaterra tratavam de frear contentando Hitler ao aceitar suas primeiras invasões. Neste contexto, a Alemanha enviou sua expedição de 1938/39 para obter soberania.

Como foi essa expedição?

Hitler enviou um barco catapulta com dois hidroaviões da Lufthansa, disfarçado de expedição científica com o interesse de anexar parte da Antártica e não ter de pagar impostos baleeiros para a Noruega e a Grã-Bretanha.

O que os nazistas fizeram na Antártica?

O capitão Ritscher fez lançar dos hidroaviões dardos que caíam por um orifício no piso. Os dardos tinham uma suástica estampada e uma delas uma bandeira nazista. Dessa maneira, pretendiam demarcar seu próprio terreno, algo que não servia para nada, porque os dardos se perdiam. Existem relatos alemães de quando amerissavam os hidroaviões e faziam a saudação nazista para os pinguins. Mas o interesse geopolítico ia muito além das baleias, no caso alemão. Os canais de Suez e Panamá eram controlados pelos Aliados e a única passagem segura para eles entre os oceanos, em caso de guerra, seria por águas subantárticas, onde suas ilhas serviriam como centro de reabastecimento.

A chegada dos nazistas despertaria o interesse dos Estados Unidos na região.

Esse país não tinha feito uma única expedição oficial antártica nos últimos 100 anos. Quando tomaram conhecimento da chegada dos nazistas, Roosevelt organizou, em 1939, uma expedição de urgência para antecipar-se aos alemães, instalando duas bases no mesmo lugar em que aqueles tinham planejado colocar uma.

A Antártica foi teatro de operações de enfrentamento na Segunda Guerra Mundial?

Em águas subantárticas apareceram vários dos barcos corsários que os nazistas mandaram pelo mundo disfarçados com bandeiras de outros países e ocultando suas armas. O episódio mais impressionante foi a captura, pelo barco alemão Pinguim, de duas frotas baleeiras lotadas de bandeira norueguesa. No dia 13 de janeiro de 1941, após vários dias observando os noruegueses à distância, o Pinguim aproximou-se a toda máquina na noite com as luzes apagadas, até que de repente acenderam um refletor e elevaram os canhões. Os alemães subiram à cobertura dos dois principais barcos noruegueses, que entregaram o comando. Assim, os nazistas tomaram para si 20 mil toneladas de óleo e 10 mil toneladas de combustível, e levaram os barcos baleeiros, mais outros 11 arpoadores, para a França para transformá-los em caças submarinos.

Esse foi um golpe que se fez sentir entre os Aliados.

A Inglaterra começou a patrulhar a região e a partir desse episódio destruíram com tiros de canhões e dinamite a indústria baleeira da Ilha Decepção, por medo de que caísse em mãos nazistas. Além disso, os australianos minaram os portos das Ilhas Kerguelen, onde os alemães se abasteceram. Muitas dessas minas permanecem ali até hoje.

Tudo isso derivou na Operação Tabarín dos ingleses, em 1944.

Em plena guerra, o parlamento inglês analisou secretamente o avanço argentino na Antártica e reagiu sob a análise de que, caso não fizessem nada na região, acabaria acontecendo o mesmo que nas Orcadas do Sul, onde flamulava a bandeira argentina há 40 anos, eliminando qualquer argumento inglês de soberania. Então organizaram a expedição de 1944, que instalou suas duas primeiras bases permanentes. A desculpa foi que a operação era contra os alemães, algo que não era verossímil já que os corsários tinham deixado a região em 1941: na verdade, foi contra o avanço argentino, o que foi comprovado com a publicação dos documentos dos diálogos no parlamento inglês.

É notável como em plena Segunda Guerra Mundial a coroa inglesa não deixou de pensar um instante em termos de império global, cuidando de suas “conquistas”, mesmo que seja no fim do mundo, quando se imagina que devia haver outras urgências.

Assim funciona a lógica da geopolítica imperial.

Perón daria a resposta à operação Tabarín.

Em 1947, Perón instalou dois novos destacamentos navais, os primeiros depois de 43 anos: um em Melchior e outro na pequena Ilha Decepção, que tem a forma de uma ferradura, de frente para uma base britânica. Assim o ambiente começou a esquentar com protestos diplomáticos. A coroa inglesa reagiu enviando duas fragatas para controlar os argentinos e Perón enviou em 1948 sua frota de mar às Ilhas Shetland: dois cruzeiros, oito destruidores e navios de transporte instalados na frente do destacamento britânico. O alarme se acendeu no governo britânico, que enviou com urgência um cruzeiro de guerra que tinha na África do Sul junto com outras fragatas.

Mas quando os ingleses chegaram, os navios argentinos já tinham se retirado e se encontraram com seu destacamento naval. Assim se gerou uma escalada com demonstrações de força, um processo que preocupou o governo norte-americano, temendo a eclosão de uma guerra entre a Argentina e o Reino Unido. Esta crise foi resolvida com a assinatura de um acordo tripartite entre Argentina, Chile e Reino Unido no qual se comprometiam a não enviar à região navios de guerra maiores que uma fragata.

A calma durou até que os trabalhistas perderam o poder na Inglaterra e Churchill voltou, um forte inimigo de Perón.

Em 1952, chegou às Malvinas um navio britânico para instalar uma base na Baía Esperança, onde a Argentina tinha um destacamento. Os argentinos advertiram-nos para que não desembarcassem, mas os ingleses não obedeceram. Então, um marinheiro argentino fez disparos de metralhadora para o alto e provocou a retirada em bote dos recém chegados, que deixaram parte da sua carga na costa. Isto produziu um intercâmbio diplomático muito forte entre os dois países, que foi resolvido quando a Argentina alegou que o marinheiro tinha disparado interpretando mal as ordens. Mas documentos tornados públicos da chancelaria argentina confirmam que os argentinos não fizeram mais que cumprir as ordens.

Churchill depois cobraria esta de Perón.

Sim, um ano depois. A Argentina instalou um refúgio na Ilha Decepção em 1953. Nesse mesmo ano, chegaram navios britânicos que destruíram o refúgio – e outro chileno – e levaram prisioneiros dois marinheiros argentinos. Perón e o presidente chileno Ibáñez del Campo, por coincidência, estavam reunidos e reagiram com a assinatura de um documento declarando que caso houvesse nova agressão desse tipo contra o Chile e a Argentina, ambos os países responderiam de maneira conjunta e violenta. Assim, os dois países sul-americanos estreitaram laços antárticos contra a Inglaterra.

Além destes episódios graves, em seu livro La pugna antártica há uma quantidade de cenas dignas de crianças: um país lança um selo de que o outro não gosta e esse, por sua vez, faz um escândalo diplomático. Quando uma base fica vazia vêm os outros e roubam a bandeira ou alguns objetos, que depois são devolvidos, e obstruem mutuamente as placas com o nome de um país e outro.

Estas coisas sempre aconteceram. Em 1942, um navio argentino instalou bandeiras e atas de soberania em vários pontos. Os britânicos passaram no ano seguinte e retiraram tudo para entregá-lo à Argentina dizendo: “com grande surpresa de Sua Majestade, encontramos isto em nosso território antártico”. Mas não era nenhum segredo que a Argentina tinha instalado essas coisas, já que isso tinha sido publicado nos jornais. Então, os ingleses foram recolher os objetos, porque tinham lido nos jornais. Um mês depois dessa devolução, o mesmo barco argentino passou para retirar os objetos demarcatórios dos britânicos.

Como repercute a Guerra Fria?

Os Estados Unidos enviaram, em 1947, o seu Task Force 68 com 4.700 homens, a maior expedição da história na Antártica, uma grande manobra militar em que testaram tecnologias de guerra, talvez pensando em um enfrentamento com os soviéticos no Pólo Norte.

Enquanto isso, o conflito anglo-argentino estava em ascensão. Em 1948, duas corvetas argentinas e uma britânica estavam perigosamente frente a frente na “ferradura” da Ilha Decepção. Mas o episódio teve um final quase surreal.

Terminou com um jogo de futebol sobre a neve que a Inglaterra ganhou de 10, segundo fontes britânicas. Naquela época, os governos competiam “para ver quem era mais bonito”. Mas depois os homens concretos, ali no meio do frio e da solidão, o que menos desejavam era algum tipo de confronto. No começo acabavam trocando uísque por carne: eles precisavam se socializar.

Em 1959, foi assinado o Tratado Antártico e o panorama mudou radicalmente para uma espécie de internacionalização limitada.

Perón e Churchill já não estavam mais no poder e o óleo de baleia perdia importância. O tratado veio logo depois do Ano Geofísico Internacional. A versão rosa era que graças à participação científica os países iam poder conviver ali em solidariedade, o que não deixa de ser verdade. Mas, além disso, por causa dos relatórios científicos, as potências coloniais concluíram que a exploração dos recursos minerais da Antártica seria muito cara e não era viável. Então perderam interesse. Os soviéticos já tinham entrado com bases científicas muito avançadas e a Índia propôs uma internacionalização da Antártica. Esta última questão acabou aproximando posições inclusive entre a Argentina e a Inglaterra diante da possibilidade de que os países que já estavam ali perderiam seus direitos.

Há três anos, o governo britânico “deu de presente” à rainha da Inglaterra 400 mil quilômetros quadrados de Antártica, outro desses episódios que beiram o surreal.

Com o agravante de que aquele território, certamente dentro do Setor Antártico Argentino, foi descoberto por um explorador argentino em 1955: o general Hernán Pujato. Mas, afora isso, se pensarmos o nosso diferendo antártico com países como a Inglaterra às avessas, seria como se a Argentina e o Chile fossem reclamar uma parte do Ártico ou alguma ilha da Escócia: diriam que estamos loucos. No entanto, o “direito” de certos países do Hemisfério Norte sobre os do Sul está tão naturalizado que essa postura imperial não chama a atenção de ninguém. É o mesmo olhar eurocêntrico que justificou o colonialismo há séculos.

Como vê o futuro geopolítico da Antártica daqui a 50 ou 100 anos?

Eu penso que haverá grandes mudanças. Em dado momento a falta de diversos recursos em nível mundial e o avanço tecnológico tornará rentável a exploração de seus recursos naturais. Em dado momento algum país poderá chegar a dizer: “nossos recursos econômicos, ou a água, não são suficientes para alimentar a população e para obtê-los vamos praticar a mineração na Antártica”, onde há cadeias montanhosas gigantes que são jazidas incalculáveis de minerais. Além disso, ali existem as maiores reservas de água doce do mundo. Neste momento se discutirá, não sei se soberanias concretas, mas, possivelmente sim, como, que país ou qual empresa fará a exploração.

O Tratado Antártico proíbe a exploração econômica e a atividade militar. Mas de alguma maneira os países que o assinaram estão pensando subrepticiamente em uma exploração no futuro e por isso estão ali. Custa acreditar que mais de 30 países gastem somas estratosféricas durante décadas simplesmente por amor à ciência. Este tratado é suficiente para frear o que poderia ser uma espécie de privatização da Antártica?

É um futuro onde as possibilidades são infinitas. Uma vez reconhecidas as soberanias, depois cada país poderá teoricamente fazer o que quisesse ali. Diversas convenções e protocolos antárticos formam um marco legal que impede, de certa forma, a exploração comercial dos recursos, como o Protocolo de Madri. Mas se esse contexto mudasse, algo diferente poderia acontecer. Além disso, se uma grande potência militar decide não respeitar o tratado, quem vai impedi-la? É um equilíbrio frágil que deve ser defendido.

A Antártica seria o último canto da terra que nos resta para arruinar. E pensar que o Reino Unido estudou a possibilidade de testar ali suas primeiras bombas atômicas... Minha impressão é que o Tratado Antártico tem algo de manual de boas intenções onde o subjacente não está posto de manifesto: a gente pode se perguntar até onde o substancial não será o subjacente?

Fica latente. Também penso que é um instrumento útil. A guerra das Malvinas tem um detalhe que poucos conhecem: ela começou no território subantártico da Ilha de São Pedro, nas Geórgias do Sul, e terminou no território subantártico das Ilhas Sandwich do Sul, onde os ingleses destruíram uma base argentina e a guerra foi interrompida ali, a meio grau de latitude do Tratado Antártico: não a continuaram para as Ilhas Orcadas do Sul, onde temos uma base, nem para o resto do continente antártico. E eu penso que o Tratado Antártico não foi menor nisto, uma demonstração de que funciona.

Não se pode deixar de ver os milhares de cientistas que vão à Antártica, como uma espécie de soldados de vanguarda em uma estranha frente, aríetes em conflitos geopolíticos com raízes muito profundas, inclusive secretas. O Reino Unido, por exemplo, vendeu sua base Faraday à Ucrânia em 1996 por uma libra (em teoria para evitar os custos de ter de desmantelá-la, mas alguns veem nisso uma estratégia para incorporar outros países às reivindicações e enfraquecer a postura argentina). Estes cientistas ucranianos que passam um ano inteiro isolados, jogavam geopoliticamente para o lado da Rússia, muitos talvez sem sabê-lo. Quando ocorreu o golpe de Estado em 2014, passaram a jogar para a OTAN.

Sim, em teoria a ciência tem pretensão de objetividade: mas sabemos que isso é mais complexo. E, evidentemente, os cientistas têm ideologia.

Eu passei um ano percorrendo a base ucraniana Bernadsky: um dos cientistas tinha em seu quarto uma bandeira do nacionalismo ucraniano com uma suástica, seguramente um simpatizante do Partido Svoboda, a força de choque neonazista, apoiada pelos Estados Unidos e a OTAN, que executou a parte violenta do golpe de Estado nesse país e que hoje ocupa ministérios no “governo democrático”.

Aconteceu com eles algo semelhante aos cosmonautas que estavam na estação espacial Mir quando houve a queda da União Soviética: ao retornarem à Terra tudo tinha mudado de sinal.

Parece estranho, mas a Antártica, um continente sem países nem habitantes, é pensada por alguns como modelo para a colonização de Marte.

Um argentino que trabalha na NASA esteve na Base Marambio testando trajes para Marte. O Instituto Antártico Argentino realiza na Base Belgrano II estudos de psicologia humana em situações de frio extremo, noite polar – três meses sem ver o sol – e isolamento, orientados para futuras missões a Marte. Cada vez mais se toma a Antártica como banco de testes para outro planeta. Talvez dentro de alguns séculos os instrumentos legais utilizados ali sirvam para Marte ou a Lua.

Então, primeiro vão arruinar a Antártica. E se o refrão de que a Terceira Guerra Mundial será pela água estiver correto – provavelmente com o continente branco como teatro de operações –, uma vez que não resta mais nada ali, irão para explorar as montanhas de Marte, possivelmente as grandes corporações já tornadas independentes dos Estados, como nos romances de William Gibson: a Quarta Guerra Mundial será por Marte! Aqui temos o argumento para um maravilhoso romance de ficção científica.

Se houver uma Terceira Guerra Mundial, duvido que cheguemos a Marte. Eu prefiro ser otimista. Grandes esforços estão sendo realizados para cuidar da paz e do meio ambiente antártico. Mas, sim, podemos começar a escrever esse romance. Muito mais ousado foi Júlio Verne na sua época.

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