“A saída é a reconstrução de uma nova hegemonia política: mais à direita e mais pró-mercado”

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04 Dezembro 2015

No cenário do economista e ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso, Luiz Carlos Mendonça de Barros, o risco de queda da presidente Dilma Rousseff aumentou com o pedido de impeachment e com a forte deterioração da economia. “A grande maioria da sociedade quer a Dilma fora. Se vai para rua ou não, é outra história. Mas o sentimento é esse”, afirmou.

A entrevista é de Luiz Guilherme Gerbelli, publicada por O Estado de S. Paulo, 04-12-2015.

Eis a entrevista.

Qual é a visão do sr. sobre o pedido de impeachment?

Estamos vivendo o fim de uma hegemonia política, de muito sucesso até pouco tempo atrás, que criou um vácuo na oposição. De repente, esse vazio cria realmente uma sensação de terra de ninguém. A grande maioria que está no mercado nunca viveu isso. Se a pessoa não tem a imagem de momentos semelhantes para tomar como referência, parece que é o fim do mundo. E não é verdade.

Qual é a saída?

A saída é a reconstrução de uma nova hegemonia política. Como sempre, o PMDB vai fazer parte dela. Ele já está dando sinais de ter entendido isso. Será uma hegemonia construída com o PSDB e com a oposição. É a construção de um equilíbrio político mais à direita e mais pró-mercado. Só que o timing disso foi meio perverso. E, talvez, esse pedido de impeachment resolva o problema do timing.

Por quê?

Para ela (Dilma), é o pior momento para ter um negócio como esse porque a economia está afundada. Está todo mundo morrendo de medo do futuro.

Ela cai com esse pedido?

Eu não sei, mas acho que aumentou muito a chance de convergir (para isso) em toda a sociedade, que não aguenta mais essa mulher. O discurso dela de quarta-feira é de uma mediocridade política absurda.

Como o sr. vê o PSDB nessa possível composição?

Acabou saindo bem por linhas tortas. O PSDB se desvinculou do Eduardo Cunha e ganhou no colo o pedido de impeachment. O discurso anterior de se alinhar ao Cunha era muito ruim e perigoso.

E o que acontece com a economia a partir de agora?

Você tem os primeiros sinais na Bolsa e no câmbio. Está todo mundo desesperado para ter uma troca de comando. A situação não é desesperadora. Esse negócio de dizer que voltamos para a década de 80 é um absurdo. Voltamos nada. Eu fui diretor do Banco Central no governo Sarney, entre 1986 e 1988. O quadro institucional da economia era completamente diferente desse. O problema agora é de posicionamento correto de como deve funcionar a economia e de gestão. Se você cria uma saída fora desse governo em que seja possível agregar essas coisas todas, a economia se recupera rapidamente. É um problema de credibilidade.

O processo de impeachment pode demorar. O que pode ocorrer com a economia?

Eu acho que está na cabeça de muitas pessoas o que foi feito com o Itamar Franco e o Fernando Henrique. É um pouco do que pode se produzir com o Temer e o Aécio. Ter um governo de transição com uma agenda de reformas limitadas. É um pouco daquela gestão do Maílson da Nóbrega de arroz com feijão. Não tem muito o que fazer. Mas já muda o sinal. Agora, vai depender de o PMDB achar que está na hora de fazer essa transição e uma aliança com a oposição. O Temer tem idade, não é um cara para ter mais um mandato para frente.

Se a Dilma resistir, o que pode acontecer?

Vai resistir com qual governabilidade? Essa é a dúvida. Nessa hora, com um sistema desse e numa confusão dessa, é preciso de algumas referências. A referência é que a grande maioria da sociedade quer a Dilma fora. Se vai para rua ou não, é outra história. Mas o sentimento é esse.

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