Identidade e direitos autorais: Tomás de Celano e a legenda de Santa Clara

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19 Novembro 2015

A legenda de Santa Clara virgem, escrita por comissão de Alexandre IV em um arco temporal entre a canonização da santa e a morte do pontífice (1255-1261) é uma obra preciosa para reconstruir a vida terrena de Clara de Assis e compreender o modelo de santidade que, através desse texto, se queria propor às suas discípulas.

A reportagem é de Felice Accrocca, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 17-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, nas últimas décadas, ela foi muitas vezes vista com desconfiança, e, até recentemente, estava em dúvida – uma dúvida plurissecular! – a identidade do seu autor. Marco Guida, um dos mais citados especialistas de estudos clarianos, oferece agora uma nova edição do texto na coleção Letture cristiane per il secondo millennio: Tomás de Celano, Leggenda di santa Chiara vergine (Edizioni Paoline, 2015, 226 páginas) e remove toda incerteza residual sobre a sua correta atribuição.

De fato, o autor da obra ficou por muito tempo envolto no mistério, não porque ele não tivesse uma identidade, mas porque muitas lhe foram atribuídas: de Tomás de Celano a Boaventura, para terminar – sobretudo na primeira década deste século – com um literato da Cúria Romana.

Ainda em 2010, ano em que publicou um livro na histórica coleção editada pelos padres bolandistas (Uma lenda em busca de autor: a Vida de Santa Clara de Assis. Estudo das fontes e sinopse intertextual. Bruxelas, 2010), Guida demonstrara a insustentabilidade da tese que visava a identificar o autor da Legenda em um literato da Cúria.

Baseando-se em argumentos internos e externos, ele propôs novas motivações e, portanto, com maior solidez em relação ao passado, que se voltasse a Tomás de Celano. Foi particularmente valioso aos seus olhos o testemunho da Ir. Battista Alfani, ainda então não utilizado de modo adequado.

Na Vida da Santa que a freira do mosteiro de Monteluce de Perugia escreveu no vernáculo, ela afirmara:

"Onde ad consolatione delle dilecte et devotissime figliuole di questa nostra gloriosa matre beata Clara descriveremo in questa vulgare la vita di essa beata scripta per el sopradecto frate Thoma (…). Et in prima porremo la epistola di frate Thoma mandata al sommo pontifice Alexandro quarto, el tenore della quale è questo, cioè: Al santissimo in Christo patre signiore mio per divina providentia della sacrosanta romana Ecclesia sommo pontifice Alexandro .4., frate Thoma da Celano con votiva subiectione si racomanda co gli devoti baci del•gli beati piedi. Essendo el mondo pervenuto nella ultima etade etc".

Essa saudação hagiográfica ao pontífice não se encontra em nenhum dos códigos sobreviventes da Legenda; Ir. Battista Alfani, no entanto, pôde dispor de um manuscrito que lhe permitiu atribuir a obra ao frade de Abruzzo, autor já da vida de Francisco, redigida com sucessivas integrações a partir de 1228-1229.

Precisamente porque tal testemunho é decisivo, Guida também restitui agora ao texto da Legenda o ato inicial de homenagem. Portanto, poder dizer, com bom fundamento, que a Legenda se deve a Tomás de Celano e que este foi assistido na sua redação pelos companheiros de Francisco é uma afirmação importante, que permite reler com olhos novos todo o texto e a proposta hagiográfica da qual se faz portador.

Na introdução, Guida oferece uma leitura global da obra, que apresenta uma extraordinária história de santidade: sustentada por um caráter muito forte e por uma tenacidade não comum, no fim da sua existência, Clara obteve a aprovação papal do seu propósito de vida.

Assim, foi "a primeira mulher a compor uma regra para mulheres" (Th. Matura), realizando um texto de indubitável densidade, digno – a meu ver – de estar ao lado das outras grandes regras (sejam as de Agostinho ou de Bento) que marcaram a espiritualidade do Ocidente.

A tarefa de transmitir ao longo dos séculos essa excepcional aventura do espírito foi atribuída a Tomás de Celano: hoje, graças ao trabalho de Guida, o hagiógrafo de Abruzzo volta a ter reconhecido o seu mérito.

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