Juan Hernández Pico: “o lugar onde os mártires da UCA foram assassinados se converteu em um santuário”

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Por: Jonas | 19 Novembro 2015

A Universidade Centro-Americana (UCA) de El Salvador marcou diferentes momentos da vida do jesuíta Juan Hernández Pico (foto), sendo o martírio de Ignacio Ellacuría e seus companheiros, que neste dia 16 de novembro completa 26 anos, o momento em que poderíamos dizer que o influenciou mais decisivamente, bem como aos seus companheiros jesuítas e a própria Igreja salvadorenha.

 
Fonte: http://goo.gl/NiWxpP  

De origem basca, companheiro desde criança de Jon Sobrino, no percurso estudantil, chegou ao Panamá em 1960 e, desde então, foi se movimentando por diferentes países da América Central, identificando-se e comprometendo-se com suas gentes e povos, até o ponto de se nacionalizar guatemalteco. As lembranças de tantos anos foram reunidas em um livro autobiográfico, apresentado neste ano, no qual são compiladas as experiências vividas ao longo de tanto tempo.

Nesta entrevista, conta-nos o que a UCA significou em sua vida e o que o martírio de seus companheiros jesuítas representou e continua representando para a universidade na qual ensina e vive o seu cotidiano.

A entrevista é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 16-11-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que os mártires da UCA significaram para a Igreja salvadorenha e a Igreja latino-americana?

O fato de uma universidade eclesial, de inspiração cristã, ter sofrido perseguição e, como consequência, ter ocorrido o assassinato e o martírio, isso é uma novidade na América Latina e no mundo inteiro, pois os centros acadêmicos não são lugares nos quais o testemunho da fé vá até estes extremos, sendo este um testemunho profundo de que a universidade não está separada do povo latino-americano.

O que a UCA representa em sua vida como jesuíta, como professor?

Eu chego à UCA em dois momentos avançados de minha vida, e em um terceiro um pouco jovem. Quando tinha 34 anos, participei de um projeto conjunto entre o Centro de Investigação Social da Companhia de Jesus na América Central, ao qual pertencia, e a UCA de San Salvador, para pesquisar a fraude eleitoral do ano 1971-72, em El Salvador, que negou a presidência a José Napoleón Duarte, da Democracia Cristã, que havia vencido as eleições, mas que as perdeu por fraude e teve que se exilar.

Então, Ignacio Ellacuría, pediu a mim e ao maior amigo que tive em minha vida, Cesar Pavés, guatemalteco, que fizéssemos um estudo de investigação sobre esta fraude, que acabou sendo publicado, junto com outras aproximações aos programas que foram debatidos nessas eleições, em um livro que se intitulou “O Ano Político: El Salvador 1971-72”, e que foi um desafio da UCA e do Centro de Investigação e Ação Social para um governo que era praticamente ditatorial, que naquele momento não recebeu represálias.

O segundo momento foi em 1990, após o assassinato dos jesuítas, no qual fiquei cinco anos trabalhando, tanto em Sociologia como em Teologia. Foi uma decisão de me oferecer ao provincial da Companhia de Jesus, após o assassinato de meus companheiros. Ignacio Ellacuría e Amando López foram amigos meus pessoais, como escrevi em minha autobiografia. Então, eu senti uma imensa dívida com eles.

No ano 2007, pouco antes de Aparecida, veio o resultado de muitos anos de conspiração do cardeal López Trujillo e de outros bispos latino-americanos contra a teologia de Jon Sobrino. O padre geral da Companhia de Jesus, Peter Hans Kolvenbach, soube que se aproximava o momento, provavelmente para tentar influenciar em Aparecida, da publicação de uma advertência da Congregação da Doutrina da Fé contra Jon Sobrino e sua teologia, razão pela qual o provincial me disse para assumir a Cristologia na UCA, ao menos naquele semestre, para oferecer a Jon Sobrino a possibilidade de descansar. Como somos amigos há muito tempo também, estudamos juntos no mesmo colégio de Bilbao, disse-lhe que contasse comigo. Depois, e isso é o que acontece quando você não vai tão mal, disse-me que eu ficaria na Teologia, motivo pelo qual, desde 2007, estou na UCA.

É um trabalho muito importante, pois cerca de oito congregações religiosas enviam os seus ao departamento de Teologia da UCA para realizar seus estudos, razão pela qual estamos prestando um importante serviço à Igreja centro-americana.

Sente-se essa presença dos mártires na vida cotidiana da UCA?

Totalmente. Para mim foi uma das experiências mais importantes, porque, na realidade, o lugar onde eles foram assassinados se converteu em um santuário, começando pelos túmulos, que estão na capela de Jesus Cristo Libertador, que é muito pertinho do departamento de Teologia e do centro que tem o nome de Dom Romero. Nesse mesmo centro, em seu hall, tem um grande espaço que é a sala memorial dos mártires, com relíquias do próprio Romero, do padre Rutilio Grande, que foi assassinado em 1977, e dos mártires da UCA. Também das três religiosas norte-americanas e uma leiga, que foram assassinadas em dezembro de 1980.

Também tem o local onde lhes assassinaram, que se tornou um jardim de rosas, semeadas pelo marido de dona Julia Elba, que mataram junto com sua filha, naquela mesma noite em que havia pedido refúgio em nossa casa, crendo que estaria mais segura e, sobretudo, que iria poder dormir, pois no local em que ela dormia havia muito barulho pelas explosões das bombas.

Esse lugar é visitado diariamente por institutos, escolas, desde o fundamental até o último ano do ensino médio. Praticamente, passam por ele todas as escolas da capital, San Salvador, e muitas que vem do interior do país. Também há peregrinações contínuas, sobretudo de norte-americanos, que vêm no aniversário da morte de Romero, dos mártires da UCA e nos meses de verão. Também há a presença de espanhóis e ingleses como grupos. Isso faz com que todos os dias nós estejamos com a memória deles.

Por que os mártires da UCA são santos para o povo e ainda não são para a Igreja?

Da parte da Companhia de Jesus, houve uma estratégia de não começar nenhum processo, nem sequer o do padre Rutilio Grande, antes que o processo de Romero avançasse por um bom caminho. Sabíamos que havia muita dificuldade com o processo de Romero e que havia muita gente no Vaticano que queria canalizar o mesmo canonizando-o como confessor e não como mártir, pela razão de que aqueles que o mataram também eram católicos, e como iriam dizer que o mataram por ódio à fé, que é a típica definição do martírio (?). Então, a política assumida pela Companhia de Jesus na América Central e em Roma foi a de não movimentar isso, enquanto o processo de Dom Romero não caminhasse.

Curiosamente, no ano passado, no 25º aniversário dos mártires da UCA, o arcebispo de San Salvador, que celebrou a missa na UCA, pediu que o reitor fizesse a homilia, mas ao final da missa pediu um momento para algumas palavras, anunciando que a Arquidiocese de San Salvador iria iniciar o processo de beatificação de Rutilio Grande, e acrescentou que, em algum momento, faria o mesmo com os mártires da UCA.

Como jesuíta, acredita que a presença do Papa Francisco pode ajudar neste reconhecimento oficial?

Que pode ajudar não me resta a menor dúvida, mas o fato é que, infelizmente, todos nós sabemos a idade do Papa Francisco e não sabemos quanto tempo irá durar. Tomara que ainda lhe restem muitos anos, para o bem da Igreja. Contudo, um processo deste tipo dura anos. Talvez possa fazer algo em seu início, e não estranharia se assim agisse, porque penso que mostrou o seu interesse, pois quando lhe perguntaram, certa vez, nas primeiras viagens, como estava o processo de Romero, disse que acabava de ser desbloqueado e que pensava que o processo do padre Rutilio Grande deveria ter andamento. Não mencionou os padres da UCA, mas indica que tem interesse.

Rutilio Grande fez um experimento que, para a Companhia de Jesus na então província centro-americana, foi novo, mesmo que já havia ocorrido em Honduras, mas com um aspecto missionário, por parte dos jesuítas norte-americanos da província de Missouri, em 1946, fazendo um impressionante trabalho em dois departamentos rurais.

Nós não tínhamos paróquias rurais, mas Rutilio Grande, muito movido pelo espírito de Medellín, depois que a Conferência Episcopal fechou o seminário de San Salvador, pediu para fazer um curso no Instituto de Pastoral Latino-Americano, em Quito. Ao retornar, em 1971, propôs ao provincial que pedisse ao arcebispo Luis Chaves para que pudesse assumir uma paróquia rural, que foi onde lhe mataram.

Ver vídeo:

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